Logo pela manhã abro o Umbigo e nos comentários deparo com várias referências para filmagens ocorridas em salas de aula, com situações absolutamente pavorosas, embora não inéditas.

Por razões que adiante exporei, acho que não devo aqui amplificar as imagens. Mas já lá vamos.
Sobre a substância dos factos só poderei dizer que não sendo novidade – para além o fácil registo audiovisual que agora é possível – muito está por fazer para verdadeiramente inculcar uma cultura de civismo nas Escolas e essa responsabilidade atribuo-a, sem qualquer hsitação, à ideologia dominante na 5 de Outubro na maior parte dos últimos 20 anos, com destaque para a década de 90, a mais catastrófica nesse aspecto.

Eu fiz os meus estudos equivalentes ao preparatório e secundário no imediato pós-25 de Abril, em plena zona revolucionária e em explosão de liberdades. Sei o que é clima de turbulência na sala de aula e em todo o redor. Sei o que foi passar boas horas em Conselhos Disciplinares, enquanto delegado de turma empurrado quase sempre para a defesa do indefensável, ouvindo abismado muitos professores a compreender condutas atrozes que os visavam. Vejam lá que «a família dele isto e aquilo», o «coitadinho até que…», «ela não estava a medir as consequências».

Nesse aspecto 30 anos depois estamos quase no mesmo ponto. Os Conselhos Disciplinares continuam um pouco nesse registo. Quase todos queremos «compreender» os comportamentos disruptivos, evitando querer ficar com o ónuc da «repressão» ou «punição». Parece que todos leram Foucault e ficaram muito sensibilizados pelos aparatos usados para constrangir os comportamentos e liberdades individuais. Não sei como o Vigiar e Punir não está nas listas de best-sellers acima dos MST’s e JRS’s da ordem.

Entretanto o que mudou foi que quase tudo evoluiu no sentido errado quando podia ter e deveria ter sido no sentido certo. Falo, obviamente da década de 90, em que se destruiu toda a parte boa da reforma idealizada por Roberto Carneiro e se deixaram quase só as partes mais equívocas ou claramente erradas, cedendo à aliança ideológica entre o nacional-porreirismo e as boas intenções do que aprendemos a designar como eduquês.

  • Depois das erupções da tal época mítica, as coisas foram caminhando para alguma normalização das condutas nas salas de aula – na minha velha Secundária a relva até começou a conseguir crescer quando lá voltei como professor – e ali por alturas da viragem para os anos 90 as coisas pareciam poder entrar nos eixos. Mas tudo correu mal. Havia dinheiro (europeu), já havia recursos humanos qualificados (foram-se definindo as regras da profissionalização dos docentes), a explosão da frequência abrandou e tudo se proporcionava para que a Educação arrancasse de forma qualitativa e não apenas quantitativa. Para que a Democratização da Educação no sentido da consolidação de uma Escola de Massas se traduzisse numa Democratização da Qualidade.
  • A via a seguir, pouco populista e vulnerável às críticas dos herdeiros das ideologia igualitaristas dos anos 60-70 que se encaixaram na perfeição no nicho das Ciências da Educação evocando Paulo Freire, Bourdieu e Foucault, entre outros a cada parágrafo, teria sido a do rigor e do centramento do trabalho pedagógico no desenvolvimento das aprendizagens (e não apenas na detecção de competências potenciais).
  • Em vez disso, surgiu a ideologia do Sucesso para todos. A ambição de garantir o Sucesso, da forma mais rápida e indolor para todos os indivíduos envolvidos. A avaliação foi re-re-reavaliada e considerada um mecanismo de exclusão (confundiram-na com classificação, mas esse é um erro recorrente ainda hoje); a disciplina foi considerada como um mecanismo de repressão (confundiram autoridade com autoritarismo, mas também é coisa comum); o esforço foi considerado inibidor da criatividade (não sei se sabem, mas alguns dos meus pintores favoritos levaram muito tempo a fazer quadros de pequenas dimensões, olhem-me o Vermeer, por exemplo) e tudo ficou às avessas. Alunos e professores tornaram-se pares na aprendizagem e perdeu-se um centro nuclear na relação pedagógica: a transmissão de conhecimentos, tanto na forma do «saber fazer» como no do «fazer» mesmo. Os professores até compreenderam – mas quando discordavam – a solução; infelizmente, os alunos e muitas famílias não estavam preparados para essa evolução ou «novo paradigma» (que «novos paradigmas» há muitos) da avaliação e da disciplina.

Apesar de considerarem que o produto se deveria subordinar ao processo, os ideólogos oficiais e oficiosos na nossa Educação queriam resultados.

Para isso criaram aparatos legislativos tendentes a controlar o trabalho de avaliação e classificação dos docentes e foram-lhes retirando progressivamente instrumentos para (se) aplicarem de forma eficaz os melhores e mais eficazes métodos de trabalho.

E assim se perdeu uma década crucial para o desenvolvimento da nossa Educação, com sucessivos remendos que só iam agravando o imenso equívoco em que tínhamos caído. Diga-se em abono da verdade que o mesmo aconteceu com a qualificação, com os fundos do FSE a escorrerem abundantemente, mas sendo agora visível que sem evidentes vantagens práticas.
Esta década também está a caminho de ser perdida. A primeira metade parecia ir estancar os erros cometidos, mas a instabilidade existente na definição de uma «nova» política bloqueou tudo. A segunda metade está a ser perdida com o regresso ao fascínio pela imposição de aparatos legislativos preocupados com a produção artificial e estatística do Sucesso. Quanto á qualificação, daqui por uma década perceberemos que as Novas Oportunidades também terão sido globalmente um logro equivalente ao dos famosos cursos do FSE, panaceia com efeitos a curto prazo.

Pior, regressou-se – e de forma mais vocal – a uma ideologia culpabilizadora dos docentes pelo fracasso do sistema.

Onde antes se desautorizavam os docentes através de um discurso mavioso e legislação armadilhada, agora desautorizam-se os professores expondo-os à sociedade como os causadores primeiros da falência da Educação nacional, como maus profissionais, absentistas, avessos à avaliação, carreiristas bem pagos mas sem mérito. A estratégia é a da intimidação para qu, desta vez, nem que seja a força, o Sucesso apareça em, forma de núemros e gráficos exibíveis para as câmaras, instâncias internacionais e eleitorado anestesiado.

Agora coloquem-se no lugar de jovens adolescentes, com todo o vigor dentro de si e o desejo natural de terem sucesso, e vejam lá se não vos apetece bater nessas Professoras e professores incompetentes, faltistas, repressores e culpados por não vos garantirem o Sucesso garantido a que têm direito de acordo com o próprio Governo da maioria?

Claro que apetece.

E gravar para a posteridade para exibirem a todos os colegas e ao mundo como colocam essa corja no lugar.

Mas é por isso mesmo que não devo, e por reservas de pudor pela privacidade alheia (já bastante destruída) e ética, amplificar as imagens que existem. Para isso temos sempre as televisões e os órgãos de comunicação social.