Quinta-feira, 20 de Março, 2008


Professores do agrupamento de escolas de Montemor-o-Velho suspendem avaliação de desempenho

Os professores do agrupamento de escolas de Montemor-o-Velho decidiram hoje suspender todas as actividades relacionadas com a avaliação de desempenho, uma deliberação reivindicada por dezenas de outros estabelecimentos de ensino.
Francisco Queirós, docente daquele agrupamento, explicou à Lusa que os professores realizaram esta manhã uma reunião geral, convocada pelo conselho executivo, na qual foi aprovada uma moção a declarar que não estão reunidas as condições mínimas para prosseguir com o processo.
“Estavam presentes 99 professores e 94 aprovaram a moção, declarando a suspensão de todas as actividades relacionadas com a avaliação de desempenho, incluindo a dos professores contratados”, afirmou o docente.
À semelhança deste agrupamento, dezenas de outros estabelecimentos de ensino consideram não haver condições para pôr em prática a avaliação. Na Internet estão disponíveis documentos aprovados por departamentos curriculares ou conselhos pedagógicos de diversas escolas a suspender o processo até ao próximo ano lectivo ou a pedir ao Ministério da Educação que tome essa decisão.

Não posso acreditar que, mesmo se me foi enviado por pessoa de bem, isto corresponda mesmo a um extracto de uma acta de um Conselho Pedagógico, algures pelo país:

Os resultados das Provas de Aferição deste ano (quase meio milhão) são difíceis de comparar com os anos anteriores, dado que, anteriormente, essas provas eram aplicadas por amostra. Todas as escolas devem interpretar esses resultados, definindo estratégias de melhoria;* Os Conselhos Executivos têm de ter particular cuidado na nomeação dos correctores de exames. Segundo a responsável da Direcção Regional da Educação, “Os alunos têm direito a ter sucesso. Talvez fosse útil excluir de correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações muito distantes da média. O que honra o trabalho do professor é o sucesso dos alunos”

Dissidente X, uma pequena delícia alternativa, com destaque para os cromos da barra lateral. E não é só porque fez ligação para o Umbigo, mas sim porque é uma verdadeira aragem desopilante.

Sementes de Violência

(post de 11 de Março de Rui Baptista)

Professores também são vítimas de bullying, diz investigadora

O bullying, a violência na escola que atingia crianças e jovens, está agora a aterrorizar os professores, afirmou hoje Maria Beatriz Pereira, investigadora e autora de várias obras sobre a violência escolar.
“Os professores são as novas vítimas do bullying”, sustentou, em declarações à Lusa, a investigadora que é docente da Universidade do Minho (UM) e presidente da Comissão Directiva e Cientifica de Doutoramento em Estudos da Crianças.
Embora sem números oficiais, Maria Beatriz mostra-se “muito preocupada” com a forma como o bullying, a agressão continuada e sem motivo, está a atingir os professores.
“Tenho acompanhado casos em que os professores esperam ansiosamente que o ano escolar termine”, referiu a investigadora à margem do Fórum Educação para a Saúde, organizado pela Câmara de Famalicão.
No fórum, a docente apresentou a comunicação “O bullying na escola. Que tipo de intervenções?”, remetendo-se apenas à violência entre pares, “de crianças e jovens para crianças e jovens”.
“Os professores têm dificuldade em controlar os alunos, não conseguem incentivá-los e ficam cada vez mais desmotivados”, frisou Maria Beatriz Pereira.
Dos estudos desenvolvidos há, para a investigadora, uma certeza: “quanto maior é o insucesso escolar maior é a incidência de bullying”.

Apesar da demonstração de algo óbvio mas que algumas entidades preferem manter escondido (relembro aqui a forma como o bullying foi algo varrido das fichas de registo de actos de violência nos recintos escolares) é sempre curiosa esta tentativa de colagem do fenómeno ao insucesso escolar, como que culpando este por aquele acontecer.

Ora esta é uma armadilha intelectual que deve ser evitada.

O bullying não resulta do insucesso, mas da falta de civismo, de regras e de respeito pelos outros.

Os acidentes por excesso de velocidade não acontecem por causa das pessoas estarem atrasadas e existirem outros carros no caminho, mas por não respeitarem as regras de trânsito e os direitos dos outros.

O bullying, como a condução agressiva, não resultam do insucesso escolar ou do despertador não ter tocado tarde. Resultam da má formação de quem os pratica.

Ponto final.

Só não é parágrafo, porque a ilação óbvia de tal associação (insucesso escolar=desmotivação=bullying sobre os docentes) é que se os professores garantirem o sucesso aos alunos estarão a «incentivá-los», a «motivá-los» e a prevenir o bullying e, de certa forma, a protegerem a sua própria integridade.

Ora isto já é legitimar, mesmo se indirectamente, a coacção e a chantagem a um nível insuportável.

Pode não ser a intenção, mas a mensagem implícita está lá.

Para a próxima, talvez fosse melhor explicitar um bocadinho melhor a relação de causalidade.

Parágrafo, agora.

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Acabo de ver, mesmo na parte final, as declarações da pedopsiquiatra Ana Vasconcelos no noticiário da SIC, acerca do problema ocorrido com uma professora e uma aluna por causa do malfadado telemóvel. Felizmente as imagens foram tratadas para ocultar (mas pouco) a identidade dos envolvidos

Posso estar a ser injusto para com a doutora em causa, mas o que consegui reter foram duas declarações mais ou menos do seguinte tipo:

Temos de ajudar e compreender estes jovens.

e

Provavelmente a Escola não é interessante para estes jovens.

Pronto.

Só cá faltavam as fórmulas habituais do politiquinho correcto, mesmo se envolvidas com um manto de reprovação muito geral quanto à ocorrência.

O Rodrigo Guedes de Carvalho ainda tentou dizer que os colegas da aluna deveriam ter intervindo no sentido de afastá-la da professora, mas foi afastado com um «mas eles depois até pareceram querem intervir». Só que foram bons minutos depois de tudo ter começado e do Copolla de pacotilha ter mandado alguns colegas desviarem-se para filmar melhor.

Isto é inadmissível.

Esta postura de transigência e «compreensão» com a absoluta falta de regras mínimas de respeito pelos outros não é aceitável.

Não sei se é deformação profissional.

Mas não é suportável ouvir estas inanidades sem sentir revolta.

Se a situação se passasse fora da Escola e com outro tipo de intervenientes a reprovação seria imediata.

Assim, temos de «compreender», temos de «interessar» os jovens para a Escola pois, caso contrário, parece justificável que nos apliquem a nós um par de tabefes por estarmos a cumprir as nossas obrigações.

Irra, pá!

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(c) Antero Valério

Por acaso já tinha pensado responder em forma de post a este comentário/questão da Rita L. sobre a relativa ausência de referências ao meu quotidiano escolar e relação pedagógica ou pessoal com os meus alunos.

O episódio do dia que deu origem ao post anterior e a outro antes, acabaram por adiá-lo um pouco e até por mudar o seu contexto.

As razões para uma relativa invisibilidade da minha vida diária profissional no blogue são várias, mas eventualmente sumariáveis de forma compreensível:

  • O registo deste blogue não é do tipo confessional. Nada contra, poderia ser, mas não é.
  • Mesmo que fosse, existem reservas de privacidade que aconselham que certos assuntos sejam abordados de forma não demasiado específica, permitindo identificações fáceis, sendo mais aconselhável abordá-las como ilustrações de argumentos.
  • É necessário que quem tem um espaço que é razoavelmente público de exposição (mesmo que tenha só dezenas ou centenas de visitas) não o use de forma que pode ser abusiva para com aqueles com quem partilha uma relação semi-privada, como é o mundo do trabalho ou da sala de aula.

De qualquer modo, isso não me inibe de aflorar alguns casos ou situações que ache dignas de menção, ressalvadas as condições acima.

Aliás, os temas do quotidiano, pela sua maior humanidade e emoção, até são passíveis de abordagens eventualmente mais ricas em termos de escrita, podendo mesmo atrair certo tipo de atenção, como demonstram as vendas das obras desse tipo por parte de psiquiatras e psicólogos.

Embora só tenha lido excertos, por nem sempre me agradar o género, há coisas bem mais difíceis do que escrever um Pedro Strecht, um Daniel Sampaio ou mesmo um Eduardo Sá por trimestre, tamanha é a riqueza de casos que um professor regular encontra na sua vida profissional.

Basta acertar num estilo mais sofrido (PS), mais doutoral (DS) ou mais açucarado (ES) e apontar a um nicho certo de mercado.

Com a aceleração dos tempos e comportamentos até se pode ensaiar um Júlio Machado Vaz por ano. Estilo mais a oscilar entre o brilhozinho nos olhos e a pretensão mal escondida, com pitadas de situações de risco e sexo adolescente pelo meio.

Mas como digo, não faz bem o meu género, do ponto de vista da estética sentimental. Ou da estratégia exibicionista.

Não é inveja. Ou até é pela parte comercial, que os tempos estão maus e todo o cêntimo é necessário para a gasolina.

Feitios. Gostos.

Eventualmente maus uns e outros.

Os meus, entenda-se.

Nada de confusões.

O Expresso não tem os meus pruridos e vai daí já colocou tudo na sua edição online: notícia e acesso directo ao vídeo em que uma professora é agressivamente confrontada por uma aluna, quando lhe tenta retirar o telemóvel (cujo uso nas aulas a maioria do Regulamentos Internos proíbe, salvo em casos excepcionais), enquanto outro aluno filma a ocorrência e os outros assistem divertidos ou inactivos:

Na Escola Secundária Carolina Michaelis
Professora brutalizada por tirar telemóvel na aula
Numa escola do Porto, uma aluna resistiu à professora que tentou retirar-lhe o telemóvel durante uma aula. (Veja vídeo no fim deste texto)

Aguardam-se agora os comentários doutorais de Fernando Madrinha e Henrique Monteiro sobre:

  • A substância dos actos (a culpa deve ter sido da professora, que tentou limitar a liberdade da aluna e mesmo o seu direito à propriedade).
  • A forma da notícia (nada sensacionalista e perfeitamente respeitadora de todos os princípios deontológicos em curso).

Porque eu concordo com a notícia dos factos e acho que devem ser amplamente conhecidos e não reduzidos a episódio singular que não é.

Mas outra coisa é a apetência por colocar o «vídeo no fim deste texto».

Espero igualmente a reacção indignada, nos dois planos, do ministro Augusto Santos Silva.

Quanto à ME, se for muito instada a pronunciar-se, deverá considerar o caso como «caricatural» e um mero «caso dramático individual».

Os exercícios de reescrita da história e ocultamento dos factos foram e são comuns na vida política, estendendo-se dos currículos pessoais ao balanço das realizações colectivas.

Entre nós são recorrentes, embora nunca tenham atingido o grau de pretensa “sofisticação” que o actual Governo e o PS têm ensaiado em seu redor. Perante o actual balanço de 3 anos de Governo, em geral, e política educativa, em particular, percebe-se como a abortada “Central de Comunicação” do Governo Santana/Portas era um exercício de puro amadorismo.

Actualmente, o «passar a mensagem» tornou-se o objectivo essencial da governação. Não o «fazer», mas sim o dar a entender que se fez e se fará. Não interessam os factos, a menos que possam ser úteis ou retorcidos até o parecerem. Na sua ausência fabricam-se «factos», numa escala que faria corar o inventor da fórmula do «facto político» – enquanto facto artificial, resultante de mera construção retórica ou dedução parcialmente fundamentada – há mais de 25 anos atrás.

Vem isto a propósito da necessidade que o Governo tem demonstrado ter no sentido de proteger Maria de Lurdes Rodrigues e de fazer «passar a mensagem» da Educação para dentro do próprio PS, onde os anticorpos que criou são tão fortes como os que existem cá por fora. A estratégia é dar a entender que os fins são os mais belos e benéficos para o país, justificando os meios mais atribiliários ou opacos para os conseguir.

Neste particular, a edição nº 1301, com data de 18 de Março passado, do jornal Acção Socialista destaca-se pelo espaço dado a MLR para expor em aparente clima de abertura a sua «mensagem», com recurso a questões colocadas por militantes socialistas. Claro que o resultado é algo semelhante ao de um panfleto de vulgarização das posições do ME, pois as questões são recortadas para cobrir as áreas que interessa abordar a gosto e as respostas dadas sem contraditório.

Por isso convém repesar aqui algumas questões e respectivas respostas, anotando onde estas últimas descolam da realidade, procurando negá-la aos olhos de todos.

Vejamos o caso de uma questão bem concreta (e longamente exposta) que fica sem qualquer tipo de resposta convincente:

Senhora ministra, os professores de Português-Alemão que ficaram no quadro, há anos, no antigo grupo 22 (Inglês – Alemão) foram retirados deste grupo e incluídos no grupo 340 (Alemão). (cf. M.A.R.E. – Movimento Anual da Rede Escolar 2006; pág. 3, ponto 2). E os professores de Português-Francês (antigo grupo 21) são colocados no grupo 300 (Português).
Ora, sabendo que há um número muito reduzido de alunos de Alemão, o que fazem estes professores, quando o próprio ministério, no outro documento de 2007, remete as horas de Alemão para os professores de Inglês?
A distribuição de serviço entre docentes com formação adequada para leccionar Inglês e/ou Alemão deve ser realizada de forma a que sejam indicados para concurso apenas horários relativos à disciplina de Inglês. A actividade lectiva da disciplina de Alemão deve ser assegurada pelos docentes em exercício de funções na escola/agrupamento de escolas. (Cf. Orientações a Observar pelos Órgãos de Gestão das Escolas e Agrupamentos de Escolas Quanto à Distribuição do Serviço Docente, Plurianualidade das Colocações e Renovação da Contratação – 2007)
Deste modo, uma escola nunca poderá pedir para concurso um professor de Alemão!
Mas o mais surpreendente é que estes professores de Português-Alemão não podem concorrer ao grupo 300 (Português) cuja habilitação é a mesma que a dos professores de Português-Francês. Se o quiserem fazer devem concorrer para mudar de grupo (o que nunca conseguirão porque concorrem na 4.ª prioridade). Dirá o Ministério: Mas estes professores podem leccionar Português. Mas como podem leccionar Português, se há os professores do grupo 300 que têm prioridade nas Escolas e nos concursos? (Júlia Sanches)

É importante afirmar que a prioridade do recrutamento dos professores deve ser a de assegurar às escolas as condições para efectuar uma melhor gestão dos seus recursos humanos, e não, como aconteceu nos últimos anos, desenvolver um sistema de recrutamento e selecção de professores centrada nas lógicas de organização do ensino superior. Foi esse o princípio que orientou as alterações que fizemos aos grupos de recrutamento de professores e às habilitações profissionais para a docência.

Vejamos agora a questão dos critérios do concurso para professor titular:

Acha, sr.ª ministra, correcto que os professores que, no princípio dos anos 90, exerceram lugares de chefes de departamento, no conselho pedagógico, foram directores de turma, pertenceram até aos órgãos de gestão e que em 1996/97 fizeram o mestrado, mas não tiveram lugares de destaque nos últimos sete anos, e portanto não são professores titulares, repito, é justo estes professores serem avaliados pelos colegas com menos anos de serviço? (Joaquim Caramelo)
O primeiro concurso para professor titular procurou valorizar os professores que estão nas escolas e que desempenham cargos de coordenação pedagógica. Foram contabilizados os últimos sete anos por um constrangimento técnico inultrapassável, mas o fundamental é que a grande maioria dos professores, que são hoje professores titulares, estava em melhores condições para ocupar estas funções. E este é o primeiro concurso, no qual foram providas apenas 50 por cento das vagas disponíveis. Abrirá um novo concurso para professores com mais de 18 anos de serviço (7.º, 8.º e 9.º escalão). Os professores do 10.º escalão contarão com um regime de transição que beneficiará todos os professores que neste ano lectivo estão nas escolas.

Constrangimento técnico inultrapassável? O quê? Desculpe?

Mas então não existem registos biográficos fiáveis anteriores nos anos 90? O meu – iniciado em Março de 1987 – está bem detalhado e como o meu muitos outros, ouso mesmo dizer que quase todos os outros, com destaque para os de todos aqueles que exerceram cargos relevantes nas Escolas.

Este tipo de argumento é perfeitamente anedótico e intelectualmente pouco honesto, digo, pouco arguto, pois basta qualquer professor agarrar no seu registo biográfico e verificá-lo: se falta alguma coisa pede declaração ao estabelecimento de ensino em causa.

Agora vejamos uma resposta sem sentido:

Um docente que leccione em duas diferentes escolas terá que ser avaliado em ambas. Caso obtenha uma nota diferente em cada uma delas, qual é a que prevalecerá? (Ana Margarida Ferreira da Silva)
Prevalecem as duas, dado que a avaliação tem sempre consequências. O docente será avaliado nas duas escolas e o seu tempo de serviço será contabilizado em cada uma delas em função da sua avaliação. O tempo só não será contabilizado no caso da escola na qual ao professor for atribuída a classificação de Insuficiente.

Como prevalecem as duas? Se for Regular e Muito Bom, como prevalecem as duas? Só interessa o tempo de serviço? E já agora porque será que este ano há tantos professores contratados com meios horários a necessitar de completarem horário em duas escolas?
Façamos novo interlúdio non-sense para nos divertirmos com esta pergunta/resposta:

O decreto regulamentar prevê que para se ser avaliado é necessário que se tenha leccionado no mínimo seis meses. Mas isto independentemente do número de horas? (é porque se isto é assim pode cair-se no ridículo de se ter de avaliar um professor que leccionou seis meses com oito horas e não tem que se avaliar um professor que leccionou três meses mas com horário completo, quando este último, de facto, deu um número bastante maior de aulas embora num menor espaço de tempo!!!). (Ana Margarida Ferreira da Silva)
Considerou-se que seis meses é o período mínimo para um professor que está com alunos tenha o seu desempenho avaliado. O fundamental é compreender que não está aqui em causa tanto o número de horas, mas sim a importância do trabalho continuado com um grupo de alunos de planeamento, desempenho de actividade lectiva, avaliação, etc.

Ou seja, se em seis meses um professor tiver dado 100 aulas a duas turmas tem um «trabalho continuado», enquanto um professor que tenha dado 300 aulas em cinco meses e meio a 6 turmas se supõe que tenha desempenhado um «trabalho descontinuado». Não interessa a quantidade, mas sim a «continuidade», mesmo que a diferença seja de 5 dias.

Vejamos agora com quem a Ministra acha que deve negociar as reformas educativas de forma preferencial:

É um facto inquestionável que a nova reforma do ensino vai colocar em prática velhas exigências dos pais e encarregados de educação, daí o seu efectivo apoio à reforma em acção. E sendo assim, porque razão a sr.ª ministra não aborda a questão com os pais? Deveria explicar aos pais a importância da reforma nas suas diversas áreas. Os pais merecem ser elucidados e colocados ao lado deste processo de forma inequívoca. (Bernardino Silva Gaspar)
Se há esforço que considero que foi conseguido foi o envolvimento de outros actores na política educativa. As associações de pais e as autarquias são o melhor exemplo desse esforço. Temos hoje a CONFAP como parceiro essencial do Ministério da Educação e, no novo modelo de gestão, procurámos alargar a participação dos pais na vida escolar. Aliás, o próprio modelo de avaliação prevê que a opinião dos pais seja contabilizada – se o professor assim concordar – para a avaliação dos docentes.
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(continuará… graças à abundância de material)

Logo pela manhã abro o Umbigo e nos comentários deparo com várias referências para filmagens ocorridas em salas de aula, com situações absolutamente pavorosas, embora não inéditas.

Por razões que adiante exporei, acho que não devo aqui amplificar as imagens. Mas já lá vamos.
Sobre a substância dos factos só poderei dizer que não sendo novidade – para além o fácil registo audiovisual que agora é possível – muito está por fazer para verdadeiramente inculcar uma cultura de civismo nas Escolas e essa responsabilidade atribuo-a, sem qualquer hsitação, à ideologia dominante na 5 de Outubro na maior parte dos últimos 20 anos, com destaque para a década de 90, a mais catastrófica nesse aspecto.

Eu fiz os meus estudos equivalentes ao preparatório e secundário no imediato pós-25 de Abril, em plena zona revolucionária e em explosão de liberdades. Sei o que é clima de turbulência na sala de aula e em todo o redor. Sei o que foi passar boas horas em Conselhos Disciplinares, enquanto delegado de turma empurrado quase sempre para a defesa do indefensável, ouvindo abismado muitos professores a compreender condutas atrozes que os visavam. Vejam lá que «a família dele isto e aquilo», o «coitadinho até que…», «ela não estava a medir as consequências».

Nesse aspecto 30 anos depois estamos quase no mesmo ponto. Os Conselhos Disciplinares continuam um pouco nesse registo. Quase todos queremos «compreender» os comportamentos disruptivos, evitando querer ficar com o ónuc da «repressão» ou «punição». Parece que todos leram Foucault e ficaram muito sensibilizados pelos aparatos usados para constrangir os comportamentos e liberdades individuais. Não sei como o Vigiar e Punir não está nas listas de best-sellers acima dos MST’s e JRS’s da ordem.

Entretanto o que mudou foi que quase tudo evoluiu no sentido errado quando podia ter e deveria ter sido no sentido certo. Falo, obviamente da década de 90, em que se destruiu toda a parte boa da reforma idealizada por Roberto Carneiro e se deixaram quase só as partes mais equívocas ou claramente erradas, cedendo à aliança ideológica entre o nacional-porreirismo e as boas intenções do que aprendemos a designar como eduquês.

  • Depois das erupções da tal época mítica, as coisas foram caminhando para alguma normalização das condutas nas salas de aula – na minha velha Secundária a relva até começou a conseguir crescer quando lá voltei como professor – e ali por alturas da viragem para os anos 90 as coisas pareciam poder entrar nos eixos. Mas tudo correu mal. Havia dinheiro (europeu), já havia recursos humanos qualificados (foram-se definindo as regras da profissionalização dos docentes), a explosão da frequência abrandou e tudo se proporcionava para que a Educação arrancasse de forma qualitativa e não apenas quantitativa. Para que a Democratização da Educação no sentido da consolidação de uma Escola de Massas se traduzisse numa Democratização da Qualidade.
  • A via a seguir, pouco populista e vulnerável às críticas dos herdeiros das ideologia igualitaristas dos anos 60-70 que se encaixaram na perfeição no nicho das Ciências da Educação evocando Paulo Freire, Bourdieu e Foucault, entre outros a cada parágrafo, teria sido a do rigor e do centramento do trabalho pedagógico no desenvolvimento das aprendizagens (e não apenas na detecção de competências potenciais).
  • Em vez disso, surgiu a ideologia do Sucesso para todos. A ambição de garantir o Sucesso, da forma mais rápida e indolor para todos os indivíduos envolvidos. A avaliação foi re-re-reavaliada e considerada um mecanismo de exclusão (confundiram-na com classificação, mas esse é um erro recorrente ainda hoje); a disciplina foi considerada como um mecanismo de repressão (confundiram autoridade com autoritarismo, mas também é coisa comum); o esforço foi considerado inibidor da criatividade (não sei se sabem, mas alguns dos meus pintores favoritos levaram muito tempo a fazer quadros de pequenas dimensões, olhem-me o Vermeer, por exemplo) e tudo ficou às avessas. Alunos e professores tornaram-se pares na aprendizagem e perdeu-se um centro nuclear na relação pedagógica: a transmissão de conhecimentos, tanto na forma do «saber fazer» como no do «fazer» mesmo. Os professores até compreenderam – mas quando discordavam – a solução; infelizmente, os alunos e muitas famílias não estavam preparados para essa evolução ou «novo paradigma» (que «novos paradigmas» há muitos) da avaliação e da disciplina.

Apesar de considerarem que o produto se deveria subordinar ao processo, os ideólogos oficiais e oficiosos na nossa Educação queriam resultados.

Para isso criaram aparatos legislativos tendentes a controlar o trabalho de avaliação e classificação dos docentes e foram-lhes retirando progressivamente instrumentos para (se) aplicarem de forma eficaz os melhores e mais eficazes métodos de trabalho.

E assim se perdeu uma década crucial para o desenvolvimento da nossa Educação, com sucessivos remendos que só iam agravando o imenso equívoco em que tínhamos caído. Diga-se em abono da verdade que o mesmo aconteceu com a qualificação, com os fundos do FSE a escorrerem abundantemente, mas sendo agora visível que sem evidentes vantagens práticas.
Esta década também está a caminho de ser perdida. A primeira metade parecia ir estancar os erros cometidos, mas a instabilidade existente na definição de uma «nova» política bloqueou tudo. A segunda metade está a ser perdida com o regresso ao fascínio pela imposição de aparatos legislativos preocupados com a produção artificial e estatística do Sucesso. Quanto á qualificação, daqui por uma década perceberemos que as Novas Oportunidades também terão sido globalmente um logro equivalente ao dos famosos cursos do FSE, panaceia com efeitos a curto prazo.

Pior, regressou-se – e de forma mais vocal – a uma ideologia culpabilizadora dos docentes pelo fracasso do sistema.

Onde antes se desautorizavam os docentes através de um discurso mavioso e legislação armadilhada, agora desautorizam-se os professores expondo-os à sociedade como os causadores primeiros da falência da Educação nacional, como maus profissionais, absentistas, avessos à avaliação, carreiristas bem pagos mas sem mérito. A estratégia é a da intimidação para qu, desta vez, nem que seja a força, o Sucesso apareça em, forma de núemros e gráficos exibíveis para as câmaras, instâncias internacionais e eleitorado anestesiado.

Agora coloquem-se no lugar de jovens adolescentes, com todo o vigor dentro de si e o desejo natural de terem sucesso, e vejam lá se não vos apetece bater nessas Professoras e professores incompetentes, faltistas, repressores e culpados por não vos garantirem o Sucesso garantido a que têm direito de acordo com o próprio Governo da maioria?

Claro que apetece.

E gravar para a posteridade para exibirem a todos os colegas e ao mundo como colocam essa corja no lugar.

Mas é por isso mesmo que não devo, e por reservas de pudor pela privacidade alheia (já bastante destruída) e ética, amplificar as imagens que existem. Para isso temos sempre as televisões e os órgãos de comunicação social.