O tradicional «dar aulas», apesar de alguma vox populi, é muito mais do que parece. É um lugar comum, mas nem por isso deixa de ser negligenciado. Em muitos momentos, é necessário olhar para dentro dos alunos, para tentar entendê-los, aos seus bloqueios, aos seus dramas, às suas capacidades, a todo um vasto conjunto de factores que estão muito para além de qualquer fórmula que se possa traduzir de forma objectiva e mensurável.

Em termos humanos, isso exige um esforço inquantificável, um investimento emocional profundamente desgastante.

Por isso mesmo, o sucesso da relação pedagógica, no seu sentido pleno, do educador/professor com os seus alunos é algo que transcende a mera meta quantitativa do nível atribuído ou do número de alnos que concluem um determinado ano. Muitas vezes passa pela capacidade de fazê-los compreender o mundo que os rodeia, a vida que os vai atravessando, o futuro que podem destruir.

  • Casos há em que, anos passados, a satisfação interior é enorme, quando se percebe que uma conversa mais ou menos dura, uma sensibilização mais ou menos oportuna, permitiu que um(a) aluno(a) evitasse comportamentos de risco que pudessem colocar em risco a pluralidade de vias desse mesmo futuro.
  • Em outras situações, instala-se o desânimo perante a inutilidade do tempo e esforço dispendidos em torno da tentativa de solução de um problema, do desejo vão de evitar aquilo que se adivinha ser o curso natural dos acontecimentos.

Acredito que existam professores que consigam fazer boa parte da carreira sem passarem por este tipo de dilema, assim como médicos sem se preocuparem muito com o destino dos seus doentes ou advogados em relação aos seus clientes, mas acho que são poucos.

Reduzir a docência ao «dar aulas» quantitativo ou a quaisquer outros elementos comodamente mensuráveis para medir o «sucesso» é um erro tremendo, uma injusta redução do investimento realizado pelos professores na sua relação com as pessoas que tentam colocar em contacto mais estreito com o mundo.

Concretizar os dois tipos de situação é muito fácil para cada um de nós. No meu caso, e por fortuitas circunstâncias, acabei a pensar em dois desses casos, cada um de seu tipo e género. Daqueles casos que nos ficam na memória para o resto da vida.

A única recompensa esperada nos casos de real e humano «sucesso» é que o(a) tal professor(a) também não fique esquecido.