Quarta-feira, 19 de Março, 2008


Da intervenção de MLR no Parlamento ou a rábula do disco riscado:

Mas, Senhoras e Senhores deputados,
Os relatórios da OCDE apontam também a desigualdade escolar do sistema educativo português como um dos factores explicativos do insucesso escolar.
Não apenas a desigualdade social mas também a desigualdade escolar que, se não for combatida, impede a escola pública de cumprir a sua missão.
A desigualdade escolar manifesta-se na qualidade dos edifícios, mas também no funcionamento e organização das escolas, bem como na afectação de recursos.
Muitas medidas de política educativa, ao longo dos últimos anos, contribuíram para reforçar a desigualdade escolar.
Para dar apenas um exemplo, o sistema de concurso de colocação de professores cego, centralizado e anual foi talvez das medidas que mais contribuiu para reforçar a desigualdade escolar.
Não apenas porque considerava as escolas como sendo iguais, como sujeitava à instabilidade muitas escolas em meios difíceis ou isoladas, onde, por ano, chegavam a ser colocados, para a mesma turma, 12, 15 ou 18 professores.
E assim se reforçava a desigualdade das escolas mais desiguais.

Não sei se a ideia era mesmo massacrar pela repetição. Se era o objectivo foi quase conseguido pois, só para evitar reler a passagem as pessoas podem ter a tentação de não contestar o que aqui é afirmado.

Antes de mais, confesso que estou demasiado cansado para (e)laborar texto muito profundo sobre passagem tão caricata onde falta – desde logo – a explicitação do que se entende como «desigualdade escolar». Eu acho que sei o que é. Mas confesso que não tenho a certeza se acharei o mesmo que outro(a)s acharão.

Porque pelos vistos a «desigualdade escolar» resulta(va) de tratar «as escolas como sendo iguais», de onde se poderá inferir o simétrico oposto da «igualdade escolar» resultar de tratar as «escolas como diferentes».

Pelo que fico sem perceber se é desejável a «igualdade escolar» que atende às diferenças ou mesmo a diferença de tratamento que visa a igualdade escolar.

Ou vice-versa.

Ou não sei.

Ou.

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O tradicional «dar aulas», apesar de alguma vox populi, é muito mais do que parece. É um lugar comum, mas nem por isso deixa de ser negligenciado. Em muitos momentos, é necessário olhar para dentro dos alunos, para tentar entendê-los, aos seus bloqueios, aos seus dramas, às suas capacidades, a todo um vasto conjunto de factores que estão muito para além de qualquer fórmula que se possa traduzir de forma objectiva e mensurável.

Em termos humanos, isso exige um esforço inquantificável, um investimento emocional profundamente desgastante.

Por isso mesmo, o sucesso da relação pedagógica, no seu sentido pleno, do educador/professor com os seus alunos é algo que transcende a mera meta quantitativa do nível atribuído ou do número de alnos que concluem um determinado ano. Muitas vezes passa pela capacidade de fazê-los compreender o mundo que os rodeia, a vida que os vai atravessando, o futuro que podem destruir.

  • Casos há em que, anos passados, a satisfação interior é enorme, quando se percebe que uma conversa mais ou menos dura, uma sensibilização mais ou menos oportuna, permitiu que um(a) aluno(a) evitasse comportamentos de risco que pudessem colocar em risco a pluralidade de vias desse mesmo futuro.
  • Em outras situações, instala-se o desânimo perante a inutilidade do tempo e esforço dispendidos em torno da tentativa de solução de um problema, do desejo vão de evitar aquilo que se adivinha ser o curso natural dos acontecimentos.

Acredito que existam professores que consigam fazer boa parte da carreira sem passarem por este tipo de dilema, assim como médicos sem se preocuparem muito com o destino dos seus doentes ou advogados em relação aos seus clientes, mas acho que são poucos.

Reduzir a docência ao «dar aulas» quantitativo ou a quaisquer outros elementos comodamente mensuráveis para medir o «sucesso» é um erro tremendo, uma injusta redução do investimento realizado pelos professores na sua relação com as pessoas que tentam colocar em contacto mais estreito com o mundo.

Concretizar os dois tipos de situação é muito fácil para cada um de nós. No meu caso, e por fortuitas circunstâncias, acabei a pensar em dois desses casos, cada um de seu tipo e género. Daqueles casos que nos ficam na memória para o resto da vida.

A única recompensa esperada nos casos de real e humano «sucesso» é que o(a) tal professor(a) também não fique esquecido.

Mensagem chegada por mail, com identificação da proveniência que, obviamente, omito:

Na entrevista à jornalista Judite de Sousa, que lhe colocou algumas perguntas pertinentes, a Sr.ª Ministra da Educação escondeu a verdade, fazendo imensas perguntas à entrevistadora. A certa altura não percebi quem era a entrevistada.

As inverdades ditas pela Sr.ª Ministra:

1.º *Os professores serão avaliados pelos resultados em função do contexto escolar em que estão*.

Toda a gente sabe que os Exames Nacionais são iguais em todo o país (excepto a Sr.ª Ministra).

2.º *Um professor que tenha alunos que mereçam 8 será mais beneficiado na sua avaliação do que um que tenha discentes a quem possa dar 18, se inicialmente estes já tivessem 18*.

Se o professor é avaliado pelo sucesso dos seus alunos, o que a Ministra disse *significa que 8 será sucesso? Façafavor de dizer isso a quem vai avaliar o professor que tenha alunos que mereçam 8.

3.º *Os resultados dos alunos só contam 6,5 % na avaliação dos professores*.

Os resultados dos alunos na avaliação interna contam 6,5 %, os resultados dos alunos na avaliação externa contabilizam mais 6,5 % e o abandono escolar ainda outros 6,5 %, o que soma 19, 5 % de factores que dependem da sorte do professor na atribuição das turmas.

4.º *A avaliação dos professores é menos rigorosa do que a dos outros funcionários públicos*.

Essa é mais uma tentativa da Sr.ª Ministra virar a opinião pública contra os professores. Em mais nenhuma profissão, as pessoas são avaliadas pelo desempenho dos *outros*. É verdade: os professores vão ser avaliados pelo desempenho dos alunos, não importando se os alunos têm capacidade, vão à escola ou se emigraram. Se um aluno acompanhar os pais para outro país, será obrigação dos professores ir buscá-lo e ficar com ele em sua casa até que termine o ano lectivo? Imaginemos que os médicos eram avaliados pelas mortes que evitavam, também estariam tão desgraçados como os professores estão agora, pois todos acabaremos por morrer um dia. É um milagre o que a Ministra pede aos professores e pode haver quem os consigafazer, mas a maior parte dos professores ainda não tem esse poder.

5.º *A avaliação foi negociada*.

As subjectivas e burocráticas grelhas que foram aprovadas pelo governo são idênticas às que foram contestadas.

6.º *Os professores que têm Bom podem sempre progredir*.

Esqueceu-se de que,quando as vagas de professores titulares estiverem preenchidas, ninguém poderá progredir nem que tenha “Excelente”, a não ser que mate quem esteja a ocupar a vaga, mas se não tiver um bom advogado corre o risco de ir parar à cadeia e a vaga deixada pela vítima será ocupada por um terceiro.

7.º *Os professores titulares podem delegar a avaliação noutros que sejam mais competentes*.

Só seria assim se a competência fosse sinónima de antiguidade, como aconteceu no 1º concurso de professor titular.

8.º *Não há professores de Educação Visual a avaliar professores de Educação Física*.

A Sr.ª Ministra não sabe mesmo o que se passa nas escolas, nem mesmo os grupos que integram o departamento de expressões. Sr.ª Ministra, venha à nossa escola, trabalhe connosco durante uma semana e aperceba-se do que se passa no terreno! Certamente, a sua opinião acerca dos professores mudará, perceberá que este modelo de avaliação é injusto e, na semana seguinte, negociará um novo modelo de avaliação ou demitir-se-á por perceber o mal que tem feito ao Ensino Público. O regime de assiduidade do Novo Estatuto do Aluno não tem aplicação prática no Ensino Básico, pois a aprovação é consequência da avaliação de todas as disciplinas e não de disciplinas consideradas individualmente como acontece no Ensino Secundário.
Além disso, os alunos que perderam o estatuto de NEE nunca concluirão o Ensino Básico, porque deixaram de poder usufruir de exames a nível de escola e terão de realizar Exames Nacionais iguais aos de outros alunos. É pena que o presidente das associações de pais, Albino Almeida, não se preocupe com estes alunos, mas, como (felizmente) os seus filhos não têm problemas de aprendizagem, decidiu colar-se a quem tem poder e têm de ser os professores a escreverem cartas ao surdo ministério para tentar defender os alunos com graves dificuldades de aprendizagem que, no passado, tiveram testes adaptados e agora têm de realizar exames iguais aos seus colegas. Onde está o ensino individualizado?

9.º *A avaliação dos professores é feita pelos seus pares*.

Se assim fosse, qualquer professor poderia ser eleito coordenador e avaliador, mas isso não acontece, porque só os professores titulares é que podem avaliar e faltar às suas aulas para avaliar os outros (imagine-se!). Os alunos do professor titular têm aula de substituição, enquanto este assiste à aula de um
subalterno. É um paradoxo! Nunca pensei que as pessoas fossem tão loucas, a ponto de aceitarem esta situação como positiva! Os professores não podem faltar para fazerem formação, acompanharem alunos em visitas de estudo ou assistirem a um funeral de um familiar próximo, sob pena de derem prejudicados na sua avaliação, mas os titulares podem faltar e abandonar os seus alunos para assistirem a aulas!!!… Está mais do que provado que a Sr.ª Ministra não se preocupa com a aprendizagem dos alunos, mas sim com as
estatísticas.

Houve um ponto em que a Sr.ª Ministra teve razão:

*Grande parte dos professores ainda não teve tempo para ler os documentos e ainda não percebeu
o que está em causa*.

Se todos os docentes tivessem lido todos os documentos, a Manifestação do dia 8 de Março não seria “só” de 100 mil professores, mas de 150 mil. Está provado que nas escolas, em que o injusto e ilegal processo de avaliação está mais adiantado, a adesão dos professores é de praticamente 100%, incluindo entre os avaliadores. É claro que alguns não deram o nome nas suas escolas por causa das represálias dos “mais que
papistas” presidentes de alguns conselhos executivos, que ambicionam lugares de deputados nas próximas eleições! Pouca gente tem coragem de dizer, mas vive-se um clima de intimidação em algumas escolas e também há alguns titulares que se embriagaram com o poder e estão a tornar os avaliados escravos pessoais.

Não posso assinar este documento para evitar que o estabelecimento de ensino onde lecciono seja perseguido pela Inspecção Geral de Educação, como tem acontecido noutros casos. No entanto, deixo e-mail:

salvarescola@gmail.com que pode ser utilizado por quem quiser provas e exemplos do que é referido.

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Visão, nº 785, p. 28

Cai conselho com avaliação polémica

A Assembleia do Agrupamento de Escolas Correia Mateus, Leiria, ratificou anteontem a demissão de dois vice-presidentes do Conselho Executivo, fazendo cair o órgão de gestão do estabelecimento de ensino, depois da polémica sobre uma grelha de avaliação de docentes.

A ratificação foi confirmada à agência Lusa por uma fonte deste agrupamento de escolas, apna sequência da demissão destes docentes, apresentada na semana passada, pelo que, do Conselho Executivo eleito, demitiram-se já os três vice-presidentes, gerando falta de quórum.

Dos quatro elementos do Conselho Executivo, apenas a presidente, Esperança Barcelos, permanece em funções, pelo que deverá ser eleito um novo órgão ou nomeada uma comissão de gestão pela Direcção Regional de Educação. De acordo com um dos docentes do agrupamento de escolas, esta decisão resulta da “quebra de confiança” que o processo de avaliação dos professores gerou no seio do Conselho Executivo.

É apenas mais um exemplo de «coragem» e «determinação».

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