Tenho estima intelectual pelo vasto trabalho de Domingos Fernandes enquanto especialista (sem aspas) na área da Educação.

Tenho o maior respeito pelas posições do cidadão Domingos Fernandes enquanto pessoa próxima do PS e que com esse partido partilha percursos durante um tempo que não sei avaliar por puro desconhecimento. Sei que foi Secretário de Estado na governação guterrista e que é um dos técnicos mais requisitados pela actual equipa do ME para a produção de estudos, mas pouco mais.

Todas elas são opções legítimas.

O que se torna difícil avaliar é até que ponto algumas avaliações dos factos, em especial quando resvalam necessariamente para a análise interpretativa, podem estar, ou não, contaminadas, com um certo compromisso pessoal ou político com a situação de poder existente.

Vejamos, Domingos Fernandes aceitou ser o presidente de um “Congresso” promovido no dia 8 de Março, quando estava a decorrer, a poucos metros da Rua Castilho, a manifestação dos professores. Essas coisas não se aceitam de ânimo leve e muito menos com ingenuidade. E, mesmo se a calendarização tivesse sido feita antes de conhecida a manifestação, teria sido aconselhável a sua desmarcação para data próxima (porque não o dia seguinte, 9 de Março?), no sentido de evitar equívocos.

Para além disso, na longa entrevista que dá ao suplemento de Educação do Jornal de Letras, Domingos Fernandes faz a seguinte apreciação – sempre muito politicamente correcta – sobre a contestação actual a políticas com as quais globalmente parece concordar e subscrever:

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Esta apreciação contém alguns aspectos paradoxais.

  • Antes de mais, a «mudança» tem sido uma constante na Educação em Portugal e, na minha opinião assumidamente menos aprofundada que a de DF nestas matérias porque as estudei menos, um dos factores de instabilidade e insucesso relativo do sistema. Por outro lado, gostava de saber se todos – e são muitos – que advogam esta mesma posição crítica quanto à aversão nacional à mudança não serão suficientes para promover essa mesma mudança. Ou se apenas gostam da «mudança» quando aplicada aos outros.
  • Apresentar a taxa de utilização de telemóveis por jovens como sinal de adesão à mudança tecnológica, como contraponto à falta de adesão à mudança na Educação, é caricato mesmo. Lá por iso, os professores também usam telemóveis, computadores e até acredito que existem uns malandros quesabem distinguir uma PS3 de um X-Box ou de uma Wii.
  • Afirmar que o clima de contestação nos afasta «de uma discussão científica, que tem de ser tranquila, rigorosa e fundamentada no conhecimento produzido nos domínios das ciências sociais, e em particular no campo da Educação» é esquecer que boa parte da contestação passa exactamente pelo facto do Ministério não ter revelado qualquer interesse e, promover essa discussão com o envolvimento os professores, tendo-os tratados como meros prevaricadores, responsáveis pelo insucesso, e receptáculos passivos das suas políticas.

Se é verdade que a «discussão científica» proposta por Domingos Fernandes é algo necessário e indispensável, seria importante que ele identificasse quem a bloqueou, quem lançou sobre o sistema de ensino discursos culpabilizadores não fundamentados e medidas em catadupa com uma mais do que deficiente demonstração da sua validade.

A bem do rigor. E da análise tranquila dos factos.