Sábado, 15 de Março, 2008


A equipa directiva do Expresso perdeu qualquer vago pudor em assumir o seu alinhamento nas questões da Educação e hoje volta ao ataque contra os professores e os sindicatos, usando todo o tipo de pedras para atirar, mesmo as que sabem ser pouco transparentes.

Vejamos, por ordem.

1.

Fernando Madrinha menoriza a manifestação do outro sábado, considerando-a «Uma Vitória Inútil» e daí partindo para a já habitual diatribe contra os sindicatos. Elogia a MLR (terá Madrinha sio também um velho anarquista?), ajuda acirrar os ânimos ao afirmar que o ME não cede em nada e acha que se a Ministra se conseguisse fazer ouvir nas Escolas tudo serenaria.

Não compreendo se Fernando Madrinha acredita no que escreve, se o faz já em piloto automático. Opto por esta segunda hipótese, porque a primeira implica que ele acredita que a esmagadora maioria dos docentes não passa de uma caterva de surdos que não «ouvem» a Ministra e não a «compreendem».

Depois, para exemplificar como há entre nós quem seja excelente e por isso mereça reconhecimento internacional pelo seu trabalho, destaca o caso de Nuno Crato, curiosamente um dos mais notáveis críticos da política educativa deste Governo para a sua área de especialidade.

Isto significa uma de duas coisas: ou Madrinha não percebe claramente o que se passa neste mundo da Educação ou então admite que, mesmo criticando-se a Ministra, se pode ser excelente.

2.

No editorial não assinado da página 44, escreve-se que:

É certo que 100.000 professores são dignos de ser ouvidos e compreendidos, como o são os grevistas da Função Pública. Mas não é menos certo que convém entender a perplexidade de muitos que não querem ou não têm oportunidade de se pronunciar. Daqueles que pensam que a reforma da Função Pública é urgente e dos que acham que as escolas não podem continuar a funcionar como funcionam.

Todas as opiniões são aceitáveis, quando fundamentadas e demonstradas, em especial de forma coerente. Ora o que bem sabemos é que, em matéria de opinião, o Expresso é o refúgio de todos esses pseudo-perplexos que produzem artigos de opinião, sobre artigo de opinião, defendendo essas posições que o editorialista afirma não terem «oportunidade de se pronunciar». Pelo contrário, o que é visível é que, só com muito esforço, opiniões individuais articuladas do grupo profissional dos professores passam o filtro editorial do Expresso. Opinião de profe vai directamente para um cantinho, truncada quanto possível. Houve uma excepção, da colega Dalila Mateus, mas foi arrancada a ferros e mesmo assim, meio de esquina na página. Por isso, o editorialista do Expresso teria muitas vantagens em olhar para a forma como corta a voz dos professores e, em contrapartida, a dá a quem faz parte do clube restrito dos políticos, nados e criados nos Liceus da capital e que há 35 ou 40 anos eram todos colegas, mesmo se acabaram mais de vermelho ou cinzento. Um qualquer vulto de terceira linha do PSD espirra e ai-jesus, tome lá meia página para explicar a origem da constipação.
3 .

Por fim, as três colunas em que Henrique Monteiro revela como novidades luminosas, dados que circulam há meses e anos em mails na net. Como qualquer neófito chegado a uma matéria cheia de números, Monteiro deleita-se no que é corriqueiro para milhares de investigadores e professores na matéria. Henrique Monteiro anuncia, de forma pouco modesta, «Números sobre Educação que o vão espantar». Maravilhas mil, minhas senhoras e meus senhores. Depois, percebe-se que o articulista se resumiu a respigar uns dados no site da OCDE e mesmo assim de forma pouco hábil ou então muito selectiva para acentuar três ideias: os professores ganham muito; o ensino privado devia ser mais apoiado; o Estado gasta imenso dinheiro na Educação. Claro que H. Monteiro não viu, ou não soube, ver algumas tabelas com os gastos com por aluno ou medidas de eficiência, por exemplo com relação ao desempenho em Matemática (onde os valores não são bons, mas se percebe que os gastos envolvidos são de ordem média). Só que isso perturbaria a limpidez e simplicidade da demonstração pretendida, a saber: mais ensino privado, menos investimento na rede pública, os professores são os culpados.

São opiniões, pena é que Henrique Monteiro não saiba mais do que juntar uns números, sendo incapaz de analisar a Educação na perspectiva da organização curricular dos ciclos de escolaridade, do modelo de avaliação, do tipo de perfil desenhado pelos documentos oficiais, ou mesmo das constantes inflexões legislativas, preocupadas com efeitos de curto prazo que comprometem o sucesso a médio ou mais longo prazo.

Nem sequer lhe parece ocorrer que se existe um baixo output de «sucesso» para um teórico elevado input financeiro, provavelmente não serão os professores os responsáveis pela alocação desses recursos ou pelo desenho do sistema.

Mas provavelmente, para ele, como nem sempre se podem traduzir em números (seria interessante saber se há estatísticas sobre leis produzidas na OCDE sobre Educação, por país, por cada ano lectivo), estas questões não sejam «factos».

Ou «factóides».

Raramente gosto que pensem por mim e, sem análise crítica, não faço o que me mandam, a menos que a razão seja emocional.

Neste último ano decidi, como muitos outros, meter o nariz em discussões que por regra estão reservadas a actores institucionais, discussões essas que têm regras próprias, uma coreografia estabelecida e, para conveniência de todos, uma arrumação clara em fileiras nos momentos de luta.

Só que os simplismos, em especial quando maniqueístas, entre Bem e Mal, Preto e Branco, Nós e os Outros, Heróis e Traidores, me deixam sempre um sabor a insatisfação. Por isso mesmo detesto claques desportivas e só por obrigação tenho cartão de alguma organização; por via de regra só tenho mesmo os cartões que sou obrigado a usar para funcionar em sociedade e entrar em bibliotecas.

Sei que é mais simples traçar linhas, fincar o pé e não arredar, não questionar, não perceber quando é momento de passar de um objectivo acessório não completamente atingido, para o objectivo essencial.

Neste último ano passei, para críticos diversos, por ser:

  • Antagonista do movimento sindical.
  • Um tipo armado em erudito muito dado a citações e divagações longas, mas pouco sensível à acção.
  • Um perigoso manipulador das massas ao serviço de interesses «político-partidários» ou político-sindicais». Também fui apelidado de «agitador» e «desestabilizador» do país.
  • Agora, mesmo agora, por ser alguém que revela fraquejar no momento do «tudo ou nada», preferindo ver o copo meio ou quase cheio do que meio ou quase vazio.

Eu poderia acreditar ser isso tudo, e outras coisas bem piores como já li algures, caso não fosse realmente nada disso. Até poderia ficar preocupado se, na generalidade dos casos, não achasse que essas críticas são instrumentais e estão em muitos casos alinhadas com posições irredutíveis sobre as questões em discussão.

Por isso, e para entendimento geral, cumpre-me adiantar apenas alguns detalhes, inegociáveis, quanto à minha atitude.

  • Represento-me a MIM próprio e não assumo plurais majestáticos ou colectivistas. Escrevo o meu nome por baixo, não por especial narcisismo, mas apenas para ser possível a verificação da coerência entre opiniões e actos. As pessoas, cidadãos ou docentes, revêem-se mais ou menos nas minhas posições, conforme os casos.
  • A minha opinião é o resultado da minha análise pessoal dos acontecimentos e não é permeável a qualquer pressão externa, por muito incómoda ou agressiva que seja (tanto a opinião como a pressão). Umas vezes acho que acerto, em outras errarei. acontece nas melhores famílias, quanto mais na minha feita de tipos teimosos (ou «determinados» no novo modelo terminológico).
  • Não prescindo de questionar a bondade das soluções, independentemente dos proponentes, embora sempre tendo em atenção os antecedentes e currículo de camuflagem.
  • Não sou grande fã da construção de “pontes” de entendimento sem conteúdo substantivo que não seja uma aparência de harmonia. Mas não recuso a necessidade de entendimentos para desarmadilhar situações complicadas. O «tudo ou nada» pratico-o nos jogos de xadrez. Na vida real também, mas nunca colocando terceiros na linha de tiro, sabendo que eu tenho refúgio garantido em caso de fracasso.
  • Não estou interessado em liderar ou participar na condução de qualquer movimento específico, muito menos em receber convites para este Conselho ou aquele. O meu único compromisso, publicamente declarado, é preencher este fim de semana a ficha de adesão à APEDE, que já me chegou por mail.

Portanto, não estando aqui para concursos de popularidade, para assumir responsabilidades para além de dar a minha sincera opinião sobre os factos ou para angariar este ou aquele lugarzito «confortável», não me incomodo minimamente de servir de alvo aos tiros das mais diversas direcções, consoantes as conjunturas.

Seria um bocado ridículo que, depois de exercer a crítica verrinosa como o tenho feito, me desse a especiais pruridos em levar no toutiço quando de mim discordam.

São os chamados ossos do ofício (bloguístico, no caso).

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