Quinta-feira, 13 de Março, 2008


Prioridades em matéria de contestação, por ordem decrescente de gravidade, mesmo se não for por ordem sequencial de calendário.

  • O Estatuto da Carreira Docente e a sua forma de garrotar horizontalmente a progressão.
  • A municipalização das políticas educativas (que vou subtilmente distinguir de uma verdadeira territorialização das ditas).
  • O modelo de avaliação que ou se transforma num pesadelo burocrático ou numa piedosa ficção para auto-satisfação de alguns fanáticos de grelhas de observação e registo em Excel.

O facto desta última questão ser a que está agora em cima da mesa, mais à vista, não deve ocultar todo o resto.

A prestação de José Sócrates na SIC. Estou cansado, não cometi assim tantos pecados nesta vida. Já não tenho paciência para ouvir um PM de circunstância a auto-elogiar-de de forma impúdica.

Para quem costumava abjurar a cassete do camarada Cunhal e derivados, o que dizer deste novo modelo em cd?

Corre por aí um mail que levanta uma questão deveras interessante:

Se o professor-titular avaliador também está incluído nos candidatos ao preenchimentos das quotas para Excelente e Muito Bom, como é que este pode ser um processo de avaliação globalmente neutro, objectivo e imparcial, por muito santa ou santo que seja o(a) dito(a) docente?

Imaginemos um Departamento com 20 pessoas, em que o Coordenador avalia 10 ou 12 colegas e delaga em outro eventual titular (ou equipado) a avaliação dos restantes, sendo que uma quota de 10% para Excelente e Muito Bons corresponde exactamente a dois. Mesmo elevando para 15, temos três vagas.

Imaginemos ainda que, por absurdo muito provável, na Comissão de Avaliação criada na escola, estão docentes candidatos a essas mesmas vagas, cuja validação passa por eles…

Imaginemos que isto não é ficção, mas a realidade em muitas escolas.

Digam-me lá então se estou a ver mal a coisa e me está a escapar alguma alínea de algum decreto 8já lhes começo a perder o rasto), ou se a coisa é mesmo assim?

Adenda: O colega Gualter C. chama-me a atenção para o artigo 48º do ECD ministerial que apenas prevê ganhos na progressão para os não-titulares devido à atribuição daquelas classificações. É certo, mas nada impede que um titular-avaliador se ache no direito de ter classificação superior aos avaliados.

Estamos na recta final do período, em que a questão da avaliação dos alunos se torna central no quotiano das escolas e dos professores, assim como, obviamente dos alunos.

Quando leio e ouço muita gente debitar fórmulas infalíveis sobre o tema da avaliação, gostaria de saber quantos deles seriam capazes de, em poucos dias, olhar numas dezenas, ou uma centena, ou mesmo duas centenas ou mais de crianças e jovens e explicar-lhes, olhos nos olhos, que estamos avaliá-los e qu isso terá consequências na sua vida a curto, médio ou longo prazo.

Não falo da avaliação por memorando, comunicada a um subordinado.

Falo da avaliação, olhos nos olhos, resultado de um misto de medição e intuição, que milhares e milhares e milhares de professores estão por estes dias a comunicar aos seus alunos, das mais variadas idades, formatos e cores.

Especialmente em relação aos mais pequenos – e falo da minha experiência mais longa com o 2º CEB, marcado pela transição da infância para uma pré-adolescência – que ainda não compreendem bem o que são os “níveis”, o “1 a 5”, que tem de ser desmontado, explicado, fatiado e justificado, num processo que nada tem de semelhante às avaliações rotineiras das estruturas burocráticas.

Os teóricos da avaliação pura, abstracta, lidam com estas questões de forma asséptica, olhando para números, fórmulas, tabelas.

Os que praticam a avaliação como parte integrante do seu trabalho pedagógico enfrentam pessoas, olhares quantas vezes que não compreendem bem o que se passa, que se tentam orientar num emaranhado que lhes escapa. Ou, em alternativa, que se revelam impassíveis e indiferentes perante a situação, não lhe dando aparentemente especial valor.

Eu, por regra, e quando a situação é pior do que o desejável para todos nós, tento a abordagem do humorista amador, que faz os possíveis por apresentar em traços de caricatura as más notícias, tentando sempre que a culpabilização seja relativizada e a esperança permaneça.

Hoje, na sequência de uma hora de complicadas más notícias, pediam-me alguns alunos para parar, porque já lhes doíam os maxilares de tanto se rirem.

Porque perante um razoável descalabro, assumo a responsabilidade por ser aquele que desdramatiza a situação e alivia a tensão.

Mesmo se isso implica que, no fim, seja eu o principal desanimado.

Porque é verdade que o insucesso dos nossos alunos é também, em boa parte, o nosso insucesso, sem que seja preciso vir alguém lembrar-nos isso, à laia de chantagem. Assim como eu, e tantos entre nós,  a larguíssima maioria, ainda nos recusamos a fabricar sucesso, só para criarmos uma ficção em torno do nosso sucesso.

Fica aqui o editorial da revista Focus desta semana, assinado por Carlos Ventura Martins e a resposta que foi enviada pelo José Luís Sarmento Ferreira.

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O editorial de Carlos Ventura Martins na Focus nº 439 começa com uma verdade – a de que os professores se sentem mal amados e desconsiderados – mas a partir daí transforma-se numa sucessão de meias-verdades e mal-entendidos que deixa os leitores ainda mais mal informados do que já estavam sobre o que se está a passar nas escolas.

É para mim novidade, para começar, que nas grandes manifestações se exija aos participantes “uma particular sofisticação intelectual”. Talvez Carlos Ventura Martins já tenha coberto, ao longo da sua vida de jornalista, uma grande manifestação em que as pessoas primassem pela frieza, pela racionalidade e pela «sofisticação intelectual». Se assim foi, agradeço que me diga onde e quando publicou essa reportagem, porque eu nunca vi uma manifestação assim e estou curioso de saber como é. Ou então talvez caiba aqui o ditado popular segundo o qual quem quer pegar pega por tudo.

Escreve a seguir que os professores discordam do modelo de avaliação «apenas» pelo método e pelo timing; e dá como contra-exemplo os contribuintes que não protestam por o formulário do IRS ser difícil de preencher. Gostava de saber como é que os contribuintes reagiriam se tivessem que preencher o formulário do IRS, não uma vez por ano, mas duas ou três vezes por dia… E além disso CVM está enganado: os professores discordam não só do método e do timing, mas também, e sobretudo, do critério – que não beneficia os professore que ensinam bem sobre os que ensinam mal, mas sim os que colaboram nas sucessivas fraudes perpetradas pelos sucessivos ministérios – em detrimento dos verdadeiros professores que ainda conseguem roubar algum tempo de ensino ao tempo de entretenimento e burocracia que lhes é imposto.

Mas o que mais me custou ler, como professor, foi que nunca ninguém nos ouviu protestar contra os erros da educação e que fomos coniventes com eles. E custou-me porque com esta afirmação CVM está a acusar-nos de um «crime» do qual ele próprio, enquanto jornalista, tem mais culpas do que nós. É que lá protestar, protestámos, repetidamente e com veemência; mas este protesto nunca passou pelo crivo dos media e nunca chegou à opinião pública.

Os jornalistas portugueses, entre eles Carlos Ventura Martins, sempre estiveram demasiado ocupados a dar seguimento a notas de imprensa para irem às escolas ouvir os professores; e têm agora alguns a desfaçatez de escrever que os professores nunca se fizeram ouvir!

Conclui CVM que a ministra tem razão no essencial. Errado, outra vez. Precisamente no essencial é que a ministra não tem razão. Poderá tê-la, ocasionalmente, no acessório. Mas nunca tocou nem tocará nos três vícios essenciais do sistema, vícios estes dos quis decorrem todos os outros. Esta ministra nunca atacou, antes favoreceu, a burocracia bizantina que quase não deixa margem ao ensino. Nunca atacou, antes favoreceu, o incivismo endémico que quase não deixa margem à aprendizagem. Nunca atacou, antes favoreceu, a pedagogia delirante que desvaloriza a reflexão e o conhecimento e interage, numa sinergia perversa, com a burocracia e o incivismo.

Se Maria de Lurdes Rodrigues leu ou não o «mestre de Viena», não sei. Custa-me a acreditar que o genial charlatão não faça parte dos planos de estudo em Sociologia. Mas se o leu, talvez esteja aí uma pequena parte do mal.

José Luiz Sarmento Ferreira
Professor do Ensino Secundário

Tenho recebido de inúmeras origens o seguinte mail:

“O comício nacional do PS marcado para o dia 15 de Março no Porto, que levará José Sócrates ao reencontro com as bases, foi transferido da Praça de D. João I para o Pavilhão do Académico, uma mudança que “protegerá” o líder socialista de qualquer imprevisto vindo da rua.” (Público, 06.03.08)

Convocam-se todos os professores para estarem presentes à porta do Pavilhão, não para “atacar” sua excelência, que os professores não são arruaceiros!

Vamos dar-lhes mostras da nossa DIGNIDADE mas IRREDUTIBILIDADE… todos de NEGRO e em SILÊNCIO!!!!.. os cartazes dirão o que se tiver a dizer!…. e os meios de comunicação serão a nossa voz!!!!

Acima de tudo, tem de se mostrar que os vilões são eles!!!!!!!!!!!!

REENVIA PARA TODOS OS TEUS CONTACTOS!!!!! OS PAIS E ALUNOS TAMBÉM SÃO BEM-VINDOS!!!!!!!!!

Em off, este mail tem sido objecto de discussão entre vários colegas, assim como a iniciativa proposta, que os proponentes pedem para divulgar.

Confesso que a coisa me provoca sentimentos mistos.

  • Por um lado, seria uma forma de manter a manifestação do desagrado bem presente, em especial para a opinião pública, pois Sócrates, o PS e o ME sabem bem que foram da manifestação de sábado ficaram muitos outros professores que não puderam ou não quiseram ir, embora estivessem solidários com os presentes.
  • Por outro, acho que se for mal conduzida, esta forma de manifestação do desagrado, pode dar a Sócrates uma hipótese para se vitimizar e apontar a outrém perturbações que só ele causou. Além disso, a manifestação de dia 8 correu com toda a normalidade e civismo, sem contra-manifestações de qualquer tipo.

Por isso mesmo, e caso a iniciativa avance, que seja estritamente nos moldes apresentados, sem arruaça, sem palavras de ordem, sem ruído que justifique qualquer tipo e sem declarações à comunicação social que fujam ao tom certo. E que não justifiquem que o PM apresente aquele cenho franzido e encrespado que ele toma por manifestação de «determinação reformista» e «coragem política».

De qualquer modo, a verdade é que a iniciativa do PS no Porto já caiu no anedotário político e quem a concebeu deveria ser sumariamente despedido do cargo por manifesta inépcia política.

Por isso, também não seria de desprezar a hipótese de mostrar até que ponto Sócrates está reduzido a comícios de desagravo em pavilhão com capacidade bem limitada.

Ahhhh…. e seria interessante saber como estão a ser recrutados os presentes em tal evento.

Menezes quer avaliação feita por agências externas seleccionadas por concurso público

O presidente do PSD, Luís Filipe Menezes, defendeu hoje um modelo de avaliação dos professores cujo controlo “seja desestatizado e desgovernamentalizado através de agências externas seleccionadas por concurso público”. Para o líder social-democrata, o sistema deve ser, ao mesmo tempo, controlado pelos professores.
Durante uma sessão de balanço dos três anos de governação do PS, Luís Filipe Menezes defendeu que o actual modelo de avaliação dos professores dá ao Governo o controlo desse processo e anunciou a alternativa proposta pelo PSD.
Menezes acrescentou que o modelo proposto pelo PSD tem “uma nuance”, que é o processo ser feito “com o acompanhamento e com o controlo dos professores através dos seus legítimos representantes, que têm de ser inseridos de raiz no processo da sua própria avaliação”.

Não gosto de recusar ciências que desconheço, por isso esta não estou a recusar. Apenas tento perceber o que significa.

Uma avaliação externa de 140.000 professores não é coisa pouca para ser feita por uma agência externa e sai certamente muito cara, em especial se atendermos a que o Ministério da Educação tem muita gente ao seu serviço e tem uma Inspecção Geral para este efeito. Subdimensionada em termos humanos e a necessitar urgentemente de formação prática, é bem certo, mas tem.

De qualquer modo, gostava de perceber o que este PSD tem para oferecer. Porque o controle da avaliação no modelo ministerial não está propriamente fora do controle dos professores, nem esse é o grande problema.

O problema é ser um modelo que se presta à instalação de pequenas ditaduras á escala de escola e/ou agrupamento.

O problema é ser um modelo extremamente burocrático.