Um argumento demagógico, digo, dois argumentos demagógicos contra as posições críticas dos professores relativamente a este modelo de avaliação são as seguintes:

  • Ah! Eles estariam contra qualquer modelo de avaliação. Dizem mal deste como diriam de outro qualquer.
  • Do que se queixam, não querem ser avaliados como os alunos? E não estão eles habituados a fazer avaliação?

Pois, quem anda por fora desta lides tem tendência para estas certezas de tertúlia arrogante e mal-informada.

Normalmente estes argumentos surgem das mesmas bocas e penas dos opinadores que se dizem «liberais», mas depois defendem modelos monolíticos e padronizadores de avaliação. Defendem a «liberdade» individual, de escolha, de iniciativa, mas são todos por uma centralização homogeneizadora da avaliação dos docentes.

São contra o papel «pesado», «centralizador», «opressivo», da máquina estatal, mas batem-lhes palmas a qualquer curva das conveniências.  Nem fale a pena fulanizar, para não proferir qualquer blasfémia de proporções atlânticas.

Aprenderam o liberalismo nos livros, há que entender-lhes as limitações.

O que não parecem compreender, é que o Estado que defende este modelo robotizado de avaliação – não nos iludamos muito com flexibilidades pontuais -,  o Partido que o quer colocar em prática e mesmo alguns dos actuais protagonistas que o legitimam, são exactamente os mesmos que levaram 20 anos a vender o Eduquês como ideologia e retórica oficiais da avaliação dos alunos.

A verdade é que, se os professores foram bem doutrinados em matéria de avaliação e estão em condições de o fazer aos seus pares de acordo com o credo que lhes foi despejado desde finais dos anos 80, são obrigados a acreditar em coisas como esta:

Nasce a qualidade de uma avaliação em que assegura a aprendizagem contínua de todos quantos aprendem, sem discriminar supostos melhores alunos de outros que o não são, ou o são em menor medida. Aceitá-lo como critério natural levaria ilegitimamente, do ponto de vista da selecção, a justificar procedimentos de exclusão daqueles que se situam à margem ou não chegam aos níveis imaginários que arbitrariamente a pertença a categorias inventadas exige. Lógica da selecção muito próxima da lógica de mercado, distinta e distante daquela busca de formação para todos.

A obra chama-se aproriadamente Avaliar Para Conhecer, Examinar Para Excluir, é de J. M. Álvarez Méndez e foi publicada em 2002 pela Asa.

Este é ainda o credo vigente na avaliação dos alunos. Ganhou foros de Escritura Sagrada no 98-A/92 e ainda hoje continua pujante, mesmo se vertido em versões mais suaves.

Esta foi a mensagem veiculada a partir da 5 de Outubro e anexos de há 20 anos para cá. Nela estiveram envolvidos muitos dos que agora dizem o contrário. Nesse particular, Valter Lemos antecedeu Ana Benavente e existe prova documental em forma de livro para prová-lo. Aliás a ligação de ambos ao IIE, embora em contextos diversos está também aí para mostrar as covergências em termos de ideologia nestas matérias.

Ouvir agora essas mesmas pessoas a defenderem exactamente o contrário para os professores – quando mantêm o mesmo discurso para os alunos – é patético.

Claro que não defendo que a avaliação de alunos e docentes deve ser feita exactamente com as mesmas metodologias e conceitos.

O que não pode é, às 2ª, 4ªs e 6ªs ser fundamentada com o discurso da inclusão, justificado com a natural exigência de todos serem avaliados numa perspectiva positiva e serem integrados num húmus comum apesar das diferenças, enquanto às 3ªs, 5ªs e sábados com a lógica da sobrevivência dos melhores, com mecanismos punitivos e sistemas artificiais de forçada diferenciação, mesmo quando ela não existe.

É que são perspectivas completamente contrárias, caso não tenham reparado.