Quarta-feira, 12 de Março, 2008


Do it clean… 

Impressões dos dias seguintes

(…)
Vejo, hoje, dia 12 de Março de 2008, numa conferência de imprensa da equipa que governa o ministério da Educação, um sinal de que tudo deve ficar como está. Começou, a senhora ministra, por dizer: “tem de simplificar-se o processo e retirar a referência aos objectivos”.

Depois, voltou aos já conhecidos e estafados argumentos. Estranho, muito estranho.

Teremos um governo entrincheirado atrás de uma ministra?
Teremos uma ministra, plenamente convencida dos seus “justos” argumentos, em roda livre e a “lutar” contra tudo e contra todos?

Qualquer das situações seria uma coisa descomunal, já se vê.

Objectivos Individuais

Os colegas a quem nas suas escolas esteja a ser exigida a apresentação dos famigerados ‘Objectivos Individuais’, podem contactar-me para os coadjuvar, fundamentadamente, a ‘libertarem-se desse fantasma’.

vita.jpgOuvir Vitalino Canas a debitar pela enésima vez a mensagem «Antes de nós, o caos!» na RTPN.

Por favor, não cometi assim tantos pecados nesta vida para merecer tamanho castigo!

Imagem recolhida aqui.

A política da educação e a educação da política

Ainda que mal pergunte: existe algum país democrático onde um Governo tenha desejado e conseguido instituir uma reforma em qualquer das suas áreas vitais sem a participação maior ou menor dos seus protagonistas?
(…)
Mas, como é depois possível que a melhoria do sucesso educativo vislumbrado nas estatísticas possa coincidir com o sucesso científico, educacional, técnico e artístico intrínseco obtido por cada aluno? Decididamente, esta é uma questão que os amanuenses do ME, a sua infalível ministra e o rigoroso engenheiro Sócrates desprezam e devolvem aos professores. De facto, esse não é um problema digno de ocupar os espíritos dos governantes portugueses, os quais vivem tragicamente divorciados do mundo real e são desprovidos de qualquer imaginação e sentido prospectivo.

Entretanto, enquanto estes se entretêm com as suas diáfanas jogadas políticas, os professores lá vão continuando a desenvolver estoicamente o seu trabalho de campo em condições cada vez mais insuportáveis – turmas mais numerosas; alunos mais desmotivados e mal-educados; apoio psico-pedagógico insuficiente prestado aos alunos necessitados; professores com horários de trabalho formais mais repletos, mais níveis, mais turmas, mais alunos e menos horas semanais para leccionar a cada turma; burocracia inútil e esquizofrénica (torrentes de reuniões, mais grelhas, matrizes, relatórios, actas, planificações, planos educativos e uma panóplia de outros documentos inenarráveis para elaborar); nenhum tempo para pensarem e planificarem as aulas; nenhum tempo para actualização científica; tempo e paciência esgotados para descodificarem a forma, o conteúdo e o alcance metafísicos das sucessivas leis evacuadas pelo ME; serões perpétuos passados a elaborarem e corrigirem resmas de fichas de avaliação; ambiente escolar mais arrebatado e, em certos casos, violento; indisponibilidade de tempo para a família.

Quando estará este Ministério da Educação disponível para reflectir e debater com os professores as questões de fundo e disfunções da escola pública (currículos, programas, práticas pedagógicas, a obscena burocracia em que as escolas soçobraram, qualidade e caminhos do ensino profissional, obviamente, processos de formação e avaliação de professores, etc.)? Até quando estarão os professores dispostos a consentir que a arrogância e o folclore pseudo-reformista das políticas educativas deste Governo abastardem irremediavelmente as suas vidas e penhorem o futuro do País?
(Luís Filipe Torgal)

Fenprof ameaça novas formas de protesto se ministra não recuar até sexta-feira

A Fenprof já reagiu às declarações da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, e garantiu que “ se não houver um recuo até sexta-feira serão desencadeadas novas formas de protesto”.
O secretário-geral da federação, Mário Nogueira, disse mesmo que este prazo “é a última oportunidade” dada à ministra “para provar se merece ou não estar à frente do Ministério”, ainda que tenha sido peremptório: “Na nossa opinião não merece”.
Para a Fenprof, só haverá acordo se o processo for suspenso este ano lectivo e aplicado a título experimental em 2008/2009. “Qualquer documento de natureza política que seja construído a partir da reunião de sexta-feira com o Ministério da Educação só terá a concordância da Fenprof se for inequívoca a suspensão da avaliação de desempenho este ano lectivo e que nenhum professor seja prejudicado por isso”, afirmou o secretário-geral.

Na minha modesta opinião, a escalada verbal, em público, nesta matéria não adianta a ninguém. Estas coisas não se resolvem com o chamado bate-boca, a ver quem ameaça mais forte.

O que está em jogo é demasiado sério para se resolver na base do bater no peito e tentar amedrontar e tentar fazer perder a face ao adversário.

Em muitos casos, a coisa faz ricochete.

Ainda ontem iam todos tão bem e hoje já começaram a disparatar dos dois lados.

E o problema das deadlines muito rígidas é que elas chegam e depois…

Ministra garante que a avaliação não será adiada

Maria de Lurdes Rodrigues assegura que «tudo se resolverá» e que «a avaliação não está adiada e não está suspensa». A ministra admite, porém que haja uma «simplificação do processo», que pode passar, em algumas escolas, por não haver aulas observadas e por uma alteração dos prazos.

Sinceramente, para se embrulhar em declarações sem grande nexo, incoerentes, confusas e, em última instância, desnecessárias porque geradoras de ruído inútil, seria interessante que MLR se abstivesse de se pronunciar sobre este assunto.

Porque se é para fincar o pé, não há necessidade.

Para além disso, continua a ser incompreensível a sua selectividade quanto aos interlocutores com os quais se digna reunir.

Oito presidentes de conselhos executivos do Centro vestiram de negro no Parlamento

Eram para ser 33, mas o presidente da Assembleia da República pediu para que a comitiva se reduzisse a oito. O certo é que os presidentes dos conselhos executivos de todas as escolas da região Centro partilham preocupações e críticas em relação à política do Governo para a educação. Esta tarde, durante o plenário, os oito que os representaram manifestaram o seu protesto silencioso nas galerias do Parlamento, vestindo de negro.

Na audiência com a comissão de Educação, pedida em inícios de Fevereiro e que decorreu esta manhã, a comitiva expôs as suas “angústias” face à “hemorragia legislativa” que “tem perturbado imenso o funcionamento das escolas desde Janeiro”, contou ao PÚBLICO Rosário Gama, militante socialista e presidente do conselho executivo da Infanta D. Maria, em Coimbra, a escola pública mais bem cotada no ranking oficial.

“Tivemos de criar montes de equipas de trabalho” para lidar com a legislação que vai chegando, explicou. Além disso, o facto de as mudanças estarem a decorrer “a meio do ano” e “sob pressão” tem feito com que “os professores não estejam dedicados ao seu trabalho nas escolas, que é dar aulas”.

A comitiva das escolas do Centro queixou-se ainda da “falta de formação para avaliadores” e manifestou-se contra as alterações a nível da gestão escolar. “Vamos voltar à figura do velho reitor, com uma absurda concentração de poderes num órgão unipessoal. É o fim do órgão colegial. A eleição pelos pares foi uma conquista democrática, agora volta-se para trás”, afirmou Rosário Gama, reconhecendo que as alterações “doem mais porque vêm do PS”.

Os presidentes dos conselhos executivos saíram da reunião com a comissão com a impressão de que os deputados “ficaram sensibilizados para as questões levantadas”. Mas fizeram questão de realçar que apenas “três deputados socialistas” estavam presentes (são 22 ao todo), porque “os restantes abandonaram a sala”. “Queríamos que os outros [deputados socialistas] lá estivessem para nos ouvir”, frisou Rosário Gama. Apenas a socialista Teresa Portugal usou da palavra, sendo já conhecida a sua oposição a muitas das políticas do Governo para o sector da educação.

Em nada terá adiantado a luta dos Professores se não forem, de uma vez por todas, resolvidas as situações anómalas do Estatuto da Carreira Docente (ECD), porque é isso que, na essência de todos os problemas, está em causa.

PROPOSTA DE TRABALHO

Carreira

  • Abolição da figura de professor titular;
  • Abolição imediata das quotas para progressão;
  • Constituição de carreira docente única constituída por 10 escalões;
  • Permanência nos escalões por períodos de 4 anos (10 escalões x 4 anos = 40 anos de serviço).

Progressão na Carreira

  • Abolição da avaliação de Excelente. Não tem justificação científico-pedagógica.
  • Para progredir, o docente deverá apresentar competente relatório de actividade docente de dois em dois anos, no cumprimento exemplar de parâmetros a regulamentar.
  • O relatório de actividade docente deverá ser submetido à apreciação e decisão de Comissão Científica e Pedagógica Especializada constituída por:
    • Presidente do Conselho Pedagógico;
    • Presidente do Conselho Executivo;
    • Coordenador do Departamento do docente em avaliação;
    • Coordenador dos Directores de Turma;
    • Director do Centro de Formação;

· Para progredir, o docente deverá ter na avaliação a menção de Bom, no cumprimento de critérios a regulamentar;

· Garantir a possibilidade de o docente poder progredir mais rapidamente no escalão, de acordo com critérios a regulamentar, se tiver a menção de Muito Bom.

Para o efeito, o docente deverá requerer avaliação extraordinária de desempenho, que implicará a exposição e defesa da sua actividade docente, sustentada no seu relatório, perante a Comissão Científica e Pedagógica Especializada, que para além dos elementos já indicados deverá ser complementada por:

  • Técnico Pedagógico da Direcção Regional de Educação;
  • Inspector Pedagógico da IGE;
  • Professor da disciplina, do 8º, 9º ou 10º escalão, a indicar pelo docente em avaliação;
  • Presidente da Associação de Pais da Escola.
  • O docente não poderá progredir para escalão superior, enquanto não tiver duas (2) menções de Bom no escalão em que se encontra posicionado.
  • A menção de Suficiente implicará a obrigatoriedade de frequentar formação complementar adequada, a regulamentar.
  • A menção de Insuficiente implicará a abertura de processo de averiguações para apuramento de responsabilidades, podendo conduzir a processo disciplinar.
  • Esta menção só poderá ser atribuída em avaliação subsequente a uma menção de suficiente e em caso limite, devidamente justificada em relatório bem fundamentado pela Comissão Científica Pedagógica Especializada. Da avaliação, poderá recorrer o docente avaliado ao abrigo do CPA.

    Creio que um processo como o exposto

    • Reduz drasticamente a burocracia;
    • Responsabiliza mais o professor no desenvolvimento da sua actividade docente, valorizando o processo ensino-aprendizagem e favorecendo o sucesso dos seus alunos;
    • Envolve todas as partes efectivamente interessadas no sucesso dos alunos e na boa imagem da Escola, que se quer construtora positiva e activa da excelência na sociedade portuguesa.

    Viana, 12 de Março de 2008

    F. Manuel Rodrigues

    (Professor EB 2,3 Dr. Pedro Barbosa)

     

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    Para que não digam que ando a tentar caçar um tacho na Fenprof, eis um comunicado da área da UGT. Agora já os críticos poderão dizer que aceito qualquer tacho.

    Resolução do Departamento de Humanidades da Escola Secundária de Barcelos

    12 de Março de 2008


     O Departamento de Humanidades, na sua reunião ordinária de 12 de Março, após discussão referente ao processo de avaliação de Desempenho dos Professores, redigiu o seguinte documento, aprovado por unanimidade:

    – Atendendo a que as recomendações sobre a elaboração e aprovação, pelos Conselhos Pedagógicos, de instrumentos de registo normalizados, previstos no Decreto de Avaliação do Desempenho, emanadas pela Senhora Presidente do Conselho Científico de Avaliação dos Professores, se encontram, neste momento, suspensos por providência cautelar intentada, a 8.Fevereiro.2008, pelo Sindicato dos Professores do Norte,

    – Considerando que, até ao momento, não há notícia de provimento a eventuais recursos interpostos pelo ME,

    – Desconhecendo qualquer documento legal que legitime a constituição de apenas quatro departamentos curriculares para efeitos de avaliação,

    – Divergindo profundamente dos critérios que regulamentaram o primeiro concurso de acesso a professor titular, contemplando essencialmente os cargos ocupados nos últimos sete anos, que deixaram de fora professores com um vasto currículo e trabalho produzido na escola ao longo de muitos anos de carreira,

    – Tendo em conta que alguns professores deste departamento estão na estranha situação de uma liderança bicéfala, ao pertencerem, simultaneamente, a este departamento e a um outro para efeitos de avaliação, cujo representante legítimo não tem assento legal no Conselho Pedagógico,

    – Afirmando que o processo de avaliação, pelo excesso de procedimentos burocráticos, pelo momento em que foi instituído, pelo não conhecimento atempado de todos os requisitos legais e procedimentais indispensáveis para o concretizar, tornam a avaliação inexequível,

    – Acentuando a inexistência de preparação adequada dos professores avaliadores para garantirem uma avaliação justa, objectiva e tecnicamente rigorosa,

    – Sublinhando que aos professores avaliadores é pedido que avaliem, em muitos casos, dezenas de professores, sem que para o efeito haja disponibilidade de horário ou concessão de horas em número suficiente,

    Consideram ainda

    – Que o DR 2/2008 regulamenta um Estatuto da Carreira Docente no qual os professores não se revêem, ao fragmentar a carreira única, de um modo artificial, em duas carreiras,

    – Que não há mérito nem excelência suficiente que permita ao docente chegar ao topo da carreira, quando ela está praticamente vedada a dois terços dos professores, traduzindo a perspectiva de futuro profissional numa ilusão,

    – Que a exigência de 50% da formação na área disciplinar, pela ausência de oferta no Centros de Formação, obriga os professores a pagarem do seu bolso essa formação,

    – Que o referido Estatuto pune qualquer excelência, bem como a dignidade das pessoas, por faltas a funerais de familiares, idas a tribunal, reuniões escolares dos filhos e várias outras situações,

    – Que pune os professores quando os alunos ou os pais dos alunos decidem, bem ou mal, que chegou a hora de abandonar a escola,

    – Que transforma a avaliação numa competição excessiva pelas quotas e depois exige que os docentes sejam avaliados pelo trabalho cooperativo,

    – Que avalia os professores pelos resultados dos alunos, criando uma situação de perversidade e de uma previsível mentira no sucesso educativo num espaço, que é a escola, que deve ser um espaço de verdade, quando

    a) é de senso comum o conhecimento que os resultados dos alunos avaliam os alunos, não os professores,

    b) é impossível aferir com rigor e justiça o contributo do professor na classificação final do aluno,

    c) é arbitrário e injusto fazer essa aferição pelos resultados dos anos anteriores ou pelo progresso dos alunos, responsabilizando o professor por aquilo de que não pode ser responsabilizado,

    d) não o é menos, fazendo-o pelo resultados da avaliação externa, dada a discrepância de aproveitamento que há entre os diversos alunos,

    e) é perverso porque pode e irá, seguramente, criar situações de classificações inflacionadas,

    f) é ilegal porque o docente não pode ser responsabilizado individualmente pela classificação, caso assim fosse desrespeitaria o Despacho Normativo 1 de 2005 que diz: “Artigo 31 – A decisão quanto à avaliação final do aluno é da competência: b) Do conselho de turma sob proposta do(s) professor(es) de cada disciplinar/área curricular não disciplinar, nos 2ºe 3º ciclos.”; bem como o Despacho Normativo 10/2004, de 2 de Março, que regula a avaliação no ensino secundário, “capítulo II, nº 3.5 – A decisão final quanto à classificação a atribuir é da competência do Conselho de Turma, que, para o efeito, aprecia a proposta apresentada por cada professor, as informações justificativas da mesma e a situação global do aluno.”

    Delibera

    Não participar na realização dos instrumentos de registos normalizados por entender, pelo que foi dito antes, não estarem reunidas as condições mínimas para a execução de uma avaliação justa e dignificadora do ofício docente,

    Exigir que o Conselho Pedagógico pondere a suspensão de todo o processo de avaliação até estarem reunidas essas condições,

    Propor, aos órgãos competentes da escola, a convocação de uma reunião geral de professores para discutir esta questão,

    Arrogar-se o direito de divulgar publicamente esta resolução para que outras escolas e as suas instâncias decisórias assumam também a responsabilidade de tomar em suas mãos um processo que, como diz povo, se “nasce torto tarde ou nunca se endireita”.

    Em nome dos professores que integram este Departamento,

    A coordenadora,
    Fátima Inácio Gomes.

    O PODER DA ‘RUA’

    As impressionantes manifestações registadas nas últimas semanas, e continuadas um pouco por toda a parte, assumem a forma e o conteúdo de um severo depoimento contra o Governo. Não se trata de turbulências comunistas, como já o disse José Sócrates e, iradamente, o repetiu Augusto Santos Silva, cujas “verdades” surgem cada vez mais avariadas. A “rua” foi a demonstração categórica do desequilíbrio entre quem pensa em termos estatísticos e quem é vítima desse equívoco. E uma vigorosa afirmação de civismo. Há dias, conversei com Raul Solnado sobre a natureza do Estado e o domínio pelo domínio exercido, repetidamente, pelo Governo, esquecido de que a força da República é a virtude, e a sua fraqueza a soberba. Sobre ser um amigo de há mais de 40 anos, Solnado é homem sábio, de frase pensada e advertida inteligência, com quem apetece discretear. Disse: “Gostaríamos de sentir que este Governo tem vontade de transformar e de modernizar o País. Por outro lado, a sua arrogância e autismo quer arrastá-lo para uma democracia musculada, o que é assustador. Eles distanciaram-se de nós.”

    A tentação de se construir contra o outro destrói o laço social, fonte e apoio do tecido colectivo, assinalado por Solnado como silogismo. E essas regras perturbadoras têm por objectivo limitar a interferência cívica e proteger o autoritarismo governamental. O facto de este Governo dispor de maioria absoluta não significa que actue em absolutismo. Há, manifestamente, ausência de diálogo e um poderoso dispositivo autoritário que liquidam a coexistência de duas sinalizações fundamentais em democracia: a dos governantes e a dos governados.

    Perdeu-se de vista o reconhecimento da igualdade, do direito de protesto e do dever de memória. Este Governo criou uma tensão dramática de tal ordem e um destempero de tal jaez que levaram o primeiro-ministro a afirmar-se indiferente para com a imponente manifestação dos professores, invocando uma “razão” cuja natureza só poderá ser explicada através da nebulosa em que ele parece viver.

    A arrogância é uma deformação moral; o preconceito, uma doença de educação; o desdém, uma chaga de quem se presume superior. Sócrates criou uma criatura que escapou ao seu controlo. Não pode mudar: de contrário, deixa de ser quem julga ser. E, sendo-o, na obstinação de quem não tem dúvidas, perde o respeito daqueles para os quais a democracia não existe sem comunicação.

    Ao contrário de alguns preopinantes, suponho que, se a ministra da Educação fosse embora, abrir-se-iam as portas ao diálogo. Porque (é inevitável) irão aparecer novas regras de jogo e outras instâncias de organização que terão em conta as específicas oscilações históricas. Nascidas, não o esqueçamos, da “rua”.

    Esse é um risco que não corres. Já disse que nem que o Goscinny desça à terra para fazer o argumento do novo Astérix me apanhas numa dessas.

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    (c) Antero Valério

    Até que tinham razão…

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    Igreja sugere calma e elogia professores

    A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) apelou ontem ao consenso na educação e a uma cultura de exigência no sector, considerando que as tensões actuais prejudicam os alunos.

    “Acompanhamos com interesse e alguma preocupação a situação dos professores, como grupo mais decisivo para o futuro de Portugal”, e “temos grande estima pela sua acção”, afirmou o porta-voz da CEP, D. Carlos Azevedo, que, no entanto, não quis tomar posição sobre a polémica que divide os docentes e a tutela.

    Considerando que a sociedade deve assegurar “esse reconhecimento da sua função de professores”, o prelado salientou a necessidade de uma “cultura de exigência que deve nortear a sociedade portuguesa” nesta área.

    “A Igreja não pode deixar de acompanhar toda esta polémica”, mas “não queremos tomar uma posição mais detalhada porque o assunto é muito complexo”, disse à Lusa D. Carlos Azevedo.

    “Os professores e educadores são um grupo decisivo para o futuro do País, mais decisivo do que os políticos, técnicos e financeiros”, sustentou ainda D. José Policarpo, em declarações à Rádio Renascença, à margem do lançamento das Obras Escolhidas de D. António Ribeiro, em Lisboa.

    Vitalino Canas diz que “o PS tem de saber ler as agendas de contestação ao Governo”

    (Público, sem link permanente)

    Um argumento demagógico, digo, dois argumentos demagógicos contra as posições críticas dos professores relativamente a este modelo de avaliação são as seguintes:

    • Ah! Eles estariam contra qualquer modelo de avaliação. Dizem mal deste como diriam de outro qualquer.
    • Do que se queixam, não querem ser avaliados como os alunos? E não estão eles habituados a fazer avaliação?

    Pois, quem anda por fora desta lides tem tendência para estas certezas de tertúlia arrogante e mal-informada.

    Normalmente estes argumentos surgem das mesmas bocas e penas dos opinadores que se dizem «liberais», mas depois defendem modelos monolíticos e padronizadores de avaliação. Defendem a «liberdade» individual, de escolha, de iniciativa, mas são todos por uma centralização homogeneizadora da avaliação dos docentes.

    São contra o papel «pesado», «centralizador», «opressivo», da máquina estatal, mas batem-lhes palmas a qualquer curva das conveniências.  Nem fale a pena fulanizar, para não proferir qualquer blasfémia de proporções atlânticas.

    Aprenderam o liberalismo nos livros, há que entender-lhes as limitações.

    O que não parecem compreender, é que o Estado que defende este modelo robotizado de avaliação – não nos iludamos muito com flexibilidades pontuais -,  o Partido que o quer colocar em prática e mesmo alguns dos actuais protagonistas que o legitimam, são exactamente os mesmos que levaram 20 anos a vender o Eduquês como ideologia e retórica oficiais da avaliação dos alunos.

    A verdade é que, se os professores foram bem doutrinados em matéria de avaliação e estão em condições de o fazer aos seus pares de acordo com o credo que lhes foi despejado desde finais dos anos 80, são obrigados a acreditar em coisas como esta:

    Nasce a qualidade de uma avaliação em que assegura a aprendizagem contínua de todos quantos aprendem, sem discriminar supostos melhores alunos de outros que o não são, ou o são em menor medida. Aceitá-lo como critério natural levaria ilegitimamente, do ponto de vista da selecção, a justificar procedimentos de exclusão daqueles que se situam à margem ou não chegam aos níveis imaginários que arbitrariamente a pertença a categorias inventadas exige. Lógica da selecção muito próxima da lógica de mercado, distinta e distante daquela busca de formação para todos.

    A obra chama-se aproriadamente Avaliar Para Conhecer, Examinar Para Excluir, é de J. M. Álvarez Méndez e foi publicada em 2002 pela Asa.

    Este é ainda o credo vigente na avaliação dos alunos. Ganhou foros de Escritura Sagrada no 98-A/92 e ainda hoje continua pujante, mesmo se vertido em versões mais suaves.

    Esta foi a mensagem veiculada a partir da 5 de Outubro e anexos de há 20 anos para cá. Nela estiveram envolvidos muitos dos que agora dizem o contrário. Nesse particular, Valter Lemos antecedeu Ana Benavente e existe prova documental em forma de livro para prová-lo. Aliás a ligação de ambos ao IIE, embora em contextos diversos está também aí para mostrar as covergências em termos de ideologia nestas matérias.

    Ouvir agora essas mesmas pessoas a defenderem exactamente o contrário para os professores – quando mantêm o mesmo discurso para os alunos – é patético.

    Claro que não defendo que a avaliação de alunos e docentes deve ser feita exactamente com as mesmas metodologias e conceitos.

    O que não pode é, às 2ª, 4ªs e 6ªs ser fundamentada com o discurso da inclusão, justificado com a natural exigência de todos serem avaliados numa perspectiva positiva e serem integrados num húmus comum apesar das diferenças, enquanto às 3ªs, 5ªs e sábados com a lógica da sobrevivência dos melhores, com mecanismos punitivos e sistemas artificiais de forçada diferenciação, mesmo quando ela não existe.

    É que são perspectivas completamente contrárias, caso não tenham reparado.

    Então s’tôra, sempre é verdade que tem de nos passar a todos para ter boa nota?

    Os meus ainda são, em regra, pequenos para se interessarem por isto, mas com o tempo lá chegarão, se em alguns casos não ouvirem a teoria em casa.

    A partir dos 8ºs e 9ºs a boca já corre em muitos lados.

    É um detalhe extremamente positivo para o clima das aprendizagens na sala de aula.