Os professores e o relatório

Aos professores deu-lhes para arejar em magotes impensáveis. Animam o crepúsculo de capitais de distrito e de outras cidades. Prometem, no Sábado, encher a capital das capitais.

Uma senhora de voz maviosa e narizinho de sibila consegue o prodigioso feito de unir os professores. Os mesmos que, das operações de Matemática, a que melhor conheciam era a divisão. Só em sindicatos continuam decompostos por mais de vinte agremiações, não contando com os que militam em organização nenhuma.

Por força das novas tecnologias da comunicação, é vê-los a sair à rua a praticar exercício, a andar em transportes públicos, enchendo autocarros. E os sindicatos, habituados a vir à cabeça das manifestações, apressam o passo para chegar-se à frente. De velinha na mão os docentes parecem fazer preces por água. Mas nem por pão. Apenas imploram à nossa senhora de Lurdes que os deixe em paz.

Em trinta e quatro anos de democracia nunca conheci um tão profundo mal-estar nas escolas. Professores dedicados e competentes, incapazes de faltar a uma única aula lustros a fio, estão profundamente desmoralizados. Vêem que o que mudou, até agora, foi essencialmente a vinda de sobrecargas inesgotáveis de trabalho burocrático à escola. Não lhes sobra tempo para tentarem melhorar as suas práticas com os alunos. São coagidos a trabalhar apenas para o relatório. Depois de terem ficado anos à de espera do novíssimo funil de lata da progressão na carreira, apenas vergada à manha do Orçamento que só pensa pagar um pouco mais ao menor número possível.

No bracinho de ferro entre os professores e a agente da autoridade da 5 de Outubro e apesar das debilidades de alguns, no essencial, aqueles têm razão. E apreendem finalmente que fazer ponte à sexta-feira, ao abrigo da lei da greve, nada muda. Nem dá consciência tranquila a fins-de-semana prolongados. Mas têm de aceitar inequivocamente a avaliação idónea e experimentada do seu desempenho e promover, com a comunidade, uma mudança sustentada da escola em benefício dos seus alunos e dos cidadãos. Não se esquecendo de explicar, muito bem explicadinho, que a parte de leão do abandono, do insucesso e da indisciplina, entra na escola, está na escola. Mas vem coriácea, todos os dias, da casa de muitos pais distraídos da educação dos seus filhos desde o berço. E que exigem que a escola, onde os depositam, faça milagres.

A mudança, imperativa, não pode ser feita contra os professores. Também não é preciso levá-los ao colo. Mas tem de ser realizada com os que estão. É que engendrar outros, à pressa, é difícil.