Sábado, 8 de Março, 2008


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Amanhã, há mais…  que isto de manifestar-se cansa a quem não tem o hábito.

Ministra: 100 mil docentes na rua «não é relevante»

E 100.000 votos nas urnas, será relevante? Mais ou menos? Um bocadito? Quiçá uns pontinhos percentuais a menos de votos?

Oxalá, digo eu! Mas a senhora Ministra é que sabe avaliar da relevância destes fenómenos sociais. Afinal Sociologia (e da Aprofundada) é consigo e com o Secretário de Estado Pedreira. Quanto ao SE Valter Lemos, desde que seja ele a mexer todos os cordelinhos nos bastidores, não se importa com o resto.

E como se vê, MLR contribui decisivamente para o apaziguamento dos ânimos e para combater o «clima de crispação»

PSP admite presença de cerca de 100 mil manifestantes no protesto de professores

Ministra promete continuar a trabalhar para encontrar as “melhores soluções”

O que são «melhores soluções»?
Uma fórmula vazia para ganhar tempo e compreensão presidencial?

Será esta equipa ministerial capaz de admitir que o erro ou o equívoco podem estar do seu lado?
Ou acham que «determinação» e «mudança» são valores por si mesmos?

Uma «melhor solução» não é ouvir, a preceito, uns quantos elementos cooptados pelo próprio ME ou uma dezena de representantes de órgãos de gestão, receosos que sobre eles caia o poder disciplinar do Ministério caso não sigam religiosamente os ditames da tutela.

Há que saber o que é diálogo, que vai muito para além da troca de papéis ou de chavões feitos em reuniões meramente para cumprir calendário.

A Ministra deveria saber que as reformas são indispensáveis, mas que é difícil achar boas reformas a partir da 5 de Outubro, de forma enclausurada em lógicas livrescas de gabinete.

Se assim fosse há muito que as coisas estariam resolvidas na nossa Educação.

O erro fulcral foi nunca ouvir quem trabalha no terreno de forma efectiva e sem receios de parte a parte.

Se para ser Ministro da Educação não é preciso ser professor, será que é obrigatório não ser professor para se ser considerado especialista em Educação?

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Foram excedidas as expectativas, em especial as minhas que se satisfaziam com 50.000 almas a desfilar por ali. Representação fortíssima do Norte, que todos sabemos ser um reacanto temível de comunistas e outros facínoras da mesma laia.

Extremo civismo de todos. Presença policial mínima e discreta como convinha. Um momento irrepetível que exige bom senso e inteligência a todos os envolvidos.

Devem evitar-se as reacções automáticas dos protagonistas habituais.

  • O Governo e o PS que o apoia não podem fingir que isto não foi nada e que agora os professores voltarão às Escolas e tudo será como dantes.
  • Os sindicatos não podem achar que este é o balanço para voltarem a tácticas do passado e para convocarem uma greve em pleno 3º período.
  • Todos os que participaram na manifestação de forma autónoma e independente não podem pensar que aqui se esgotou a sua mobilização e que agora não há mais nada a fazer.

E o Presidente da República não pode mandar, de forma intermitente, mensagens a pedir «sinais positivos» e «respeito pelos professores» e outros recados a dar a entender que simpatiza muito com a Ministra e a sua coragem e determinação. Lá por isso, também os professores são corajosos e determinados e hoje demonstraram-no. Há que ir apara além disso e exercer o seu magistério de influência para forçar as coisas a serem desbloqueadas.

As entrevistas hoje divulgadas de Maria de Lurdes Rodrigues Expresso e RTP (assim como várias declarações na Grande Entrevista de 5ª feira) – são tudo menos sinais positivos e em várias passagens são manifestamente ofensivas para os sindicatos, em particular, e os professores, em geral: os professores que não aceitam as suas políticas são desinformados, estão incomodados com o trabalho, sentem-se perturbados com a mudança, etc, etc. Só MLR está certa, informada, nada perturbada ou incomodada.

Sei que a ideia é forçar os professores a escalarem a «luta», apostando na ausência de alternativas bem acolhidas pela opinião pública.  Para isso conta-se com alguma opinião alinhada com o poder que está e acirrada aos calcanhares dos professores: o caso do director da TSF é quase patético na forma como passou a qualificar este conflito e quanto a MSTavares nem vale a pena rebater os longos parágrafos cheios de ideias gerais e preconceitos acumulados.

Perante isso há que imaginar alternativas e não voltar a caminhos de outrora.

Hoje estiveram em Lisboa muito mais do que os professores oficialmente sindicalizados. Por certo o dobro e quase certamente o triplo. Pensem todos nisso.

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Logo que possa (daqui por uma ou duas horas) começarei a postar as imagens recolhidas, enquanto as pilhas não se foram acabando. Alguém me deveria ter explicado que as recarregáveis precisam de ser carregadas primeiro. Por isso, foi preciso ir aos Restauradores comprar novas e voltar a subir e a descer. Resultado: fiquei entupido longe da cabeça do pelotão. E não tenho propriamente uma estampa e peso de atleta.

Balanço menos visual para amanhã, assim como hipóteses para o day after.

Aviso lateral: gosto muito de manter os comentários não filtrados e livres, mas isto não é um espaço de chat juvenil, ok? Procurem, críticos e defensores dos professores, manter um nível básico de argumentação. Outra coisa só descredibiliza quem não sabe participar num debate civilizado, mesmo que seja jocoso ou satírico. Não adianta apontar o dedo aos outros e dizer que o outro é que começou. Se um alarve ficar a falar sozinho nota-se mais.

Win Or Lose, Sink Or Swim
One Thing Is Certain We’ll Never Give In
Side By Side, Hand In Hand
We All Stand Together
Play The Game, Fight The Fight

E já volto ao fim do dia…

A menos que me arranjem um wireless ali em plena Avenida ou no Rossio.

Fotos da manifestação. Eu vou tirar as minhas mas agradecia mais para fazer um bom mosaico. Mesmo as publicadas em outros espaços. Sabem que será feita a identidade das autorias e a referência para as origens, como de costume.

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Blogosfera, uma nova arma de mobilização

Não há tempo para digitalizar ou transcrever a peça de Andreia Sanches e Isabel Leiria (que não tem link permanente), mas é interessante, em especial pela variedade de propostas, que têm o condão de cobrir o espectro opinativo e estilístico: Anterozóide, Cartel, Defesa da Escola Pública, Memória de uma Prof, Professorinha, Sinistra, Tempo de Teia, Terrear, Umbigo, cada um com a sua forma de registo característica

Quanto a mim, apenas o facto das coisas se atropelarem a si mesmas, o número máximo de entradas ali assinalado já foi cilindrado três vezes desde então e está agora acima das 25.000 visualizações, valor alcançado na passada 5ª feira.

Hoje tanto me poderei cruzar com a educadora da minha filha como com mães de alunos meus.

That’s the beauty of it.

É interessante notar como mesmo em muitos daqueles que, nas suas intervenções, se mostram críticos dos professores e da sua forma de actuar nestas semanas – a qual tem sido irrepreensível, sabendo conjugar luta política e cumprimento dos seus deveres profissionais essenciais – muitos deles, dizia eu, não conseguem deixar de transparecer uma certa agitação, um certo entusiasmo, uma antecipação pelo dia de hoje.

Ontem no Expresso da Meia-Noite isso era visível em sorrisos mal disfarçados dos próprios moderadores, de Bettencourt Resendes, mesmo do confortável Henrique Monteiro. Mas como nesse programa, o mesmo se passou em outros.

É como se a excitação que julgavam perdida e enterrada há décadas, o que justificaria a sua conversão plena ao status quo dormente, subitamente borbulhasse de novo.

Mesmo quando não o dizem, eles querem que se passe algo. Que se passe algo que não se passou quando foram eles que andaram por estas coisas. Ou quando optaram por não andar, em nome da carreira.

E o interessante é que nem se trata de uma clivagem geracional. Quem estará hoje na rua tem a mesma idade de muitos deles. A separação foi outra.

Agora eles até querem que nós consigamos, mesmo quando não o podem afirmar.

Os que não o querem, e lembro-me de alguns opinadores colados que nem lapas ao Governo, em muitos casos não querem que outros provem que eles podiam ter conseguido e não conseguiram, acabando por desistir.

No fundo, hoje joga-se tanto o Futuro como o Passado.

Professores querem fazer história com maior manifestação de sempre

Será interessante, amanhã, tentar explicar o porquê de tamanha união, que começou por ser uma coligação pela negativa, mas que deverá continuar como sendo uma quase completa refundação, pela positiva, de toda uma classe profissional, reencontrada consigo mesma.

Seja qual for o desfecho de tudo isto, nada será como antes.

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Eu acho que já calculam por alto, para depois dizerem que são menos. É que 70.000 é metade de toda a classe docente, contratados incluídos.

PSP espera até 70 mil professores e corta circulação na zona central da cidade
A PSP vai cortar ao trânsito a zona entre o Marquês de Pombal e a Praça do Comércio, Lisboa, durante a manifestação de professores, sábado, em que são esperados entre 60 mil a 70 mil participantes
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Os professores e o relatório

Aos professores deu-lhes para arejar em magotes impensáveis. Animam o crepúsculo de capitais de distrito e de outras cidades. Prometem, no Sábado, encher a capital das capitais.

Uma senhora de voz maviosa e narizinho de sibila consegue o prodigioso feito de unir os professores. Os mesmos que, das operações de Matemática, a que melhor conheciam era a divisão. Só em sindicatos continuam decompostos por mais de vinte agremiações, não contando com os que militam em organização nenhuma.

Por força das novas tecnologias da comunicação, é vê-los a sair à rua a praticar exercício, a andar em transportes públicos, enchendo autocarros. E os sindicatos, habituados a vir à cabeça das manifestações, apressam o passo para chegar-se à frente. De velinha na mão os docentes parecem fazer preces por água. Mas nem por pão. Apenas imploram à nossa senhora de Lurdes que os deixe em paz.

Em trinta e quatro anos de democracia nunca conheci um tão profundo mal-estar nas escolas. Professores dedicados e competentes, incapazes de faltar a uma única aula lustros a fio, estão profundamente desmoralizados. Vêem que o que mudou, até agora, foi essencialmente a vinda de sobrecargas inesgotáveis de trabalho burocrático à escola. Não lhes sobra tempo para tentarem melhorar as suas práticas com os alunos. São coagidos a trabalhar apenas para o relatório. Depois de terem ficado anos à de espera do novíssimo funil de lata da progressão na carreira, apenas vergada à manha do Orçamento que só pensa pagar um pouco mais ao menor número possível.

No bracinho de ferro entre os professores e a agente da autoridade da 5 de Outubro e apesar das debilidades de alguns, no essencial, aqueles têm razão. E apreendem finalmente que fazer ponte à sexta-feira, ao abrigo da lei da greve, nada muda. Nem dá consciência tranquila a fins-de-semana prolongados. Mas têm de aceitar inequivocamente a avaliação idónea e experimentada do seu desempenho e promover, com a comunidade, uma mudança sustentada da escola em benefício dos seus alunos e dos cidadãos. Não se esquecendo de explicar, muito bem explicadinho, que a parte de leão do abandono, do insucesso e da indisciplina, entra na escola, está na escola. Mas vem coriácea, todos os dias, da casa de muitos pais distraídos da educação dos seus filhos desde o berço. E que exigem que a escola, onde os depositam, faça milagres.

A mudança, imperativa, não pode ser feita contra os professores. Também não é preciso levá-los ao colo. Mas tem de ser realizada com os que estão. É que engendrar outros, à pressa, é difícil.