A ORIGEM DO MAL

A opinião pública e os média têm focado que o motivo principal da contestação dos professores se centra na avaliação que o ministério decidiu implementar. Aos olhos da opinião pública, os professores só se preocuparam quando chegou o momento de implementar a avaliação. Dar enfoque esmagador à vertente da avaliação, no momento em que contestação está no auge é, do meu ponto de vista, redutor. E parece-me que os professores têm caído nessa armadilha, uma vez que nos blogs a que tenho tido acesso, estamos a dar demasiada atenção a este assunto em vez de abordar outros assuntos que estão na origem deste mal-estar. A avaliação dos professores foi o detonador para a revolta dos mesmos, mas o problema encontra-se a montante e é bem mais preocupante que o modelo de avaliação que o Ministério da Educação quer concretizar.

Comecemos pelo actual Estatuto da Carreira Docente e ao lermos as dezenas de deveres profissionais dos professores, verificamos que ficamos à mercê dos burocratas do ME, uma vez que se tratam de deveres de seres do outro mundo. Somos como que homens e mulheres dos sete ofícios, uma espécie de marcianos, com e obrigações e deveres que não encontro em outros ramos profissionais. Este parafernália de deveres profissionais, não contribuirá certamente para com o dever principal que deveria nortear a nossa profissão: a ARTE DE BEM ENSINAR! Somos burocratas, juristas, animadores culturais, assistentes sociais, psicólogos, educadores de pais, promotores de marketing das Escolas, administrativos… depois as aulas que temos de preparar e leccionar, a avaliação dos alunos (fortemente condicionada), o cumprimento dos programas, as estratégias de recuperação dos alunos…. A quantidade desmesurado de deveres profissionais aos quais somos obrigados, fragiliza o professor do ponto de vista legal, uma vez que, qualquer gestor de uma escola, qualquer director geral da educação, qualquer superior hierárquico, tem margem de manobra para escravizar e sujeitar o professor a uma tarefa humilhante e desadequada, porque sempre encontrará, numa alínea k do artigo nº X, um dever, para nos vergar!

Mas o “cancro” que poderá causar danos sérios à “saúde” da função docente foi a criação da figura do professor titular. A criação desta figura e o subsequente concurso, espécie de lotaria, que esteve na base do recrutamento desta categoria, começa a inquinar e irá desestabilizar definitivamente a colaboração entre professores. Colegas relataram-me factos muito desagradáveis que ocorreram entre docentes em algumas Escolas e que são premonitórios de mal-estar que irá advir. Não tenhamos dúvidas, uma espécie de “cortina de ferro” irá dividir, ainda mais, os professores, promovendo o individualismo em detrimento do trabalho de equipa.

A obra de engenharia social, configurada por um governo centralista, promoveu para o mesmo saco, bons e maus professores para a figura de professor titular. Formatando a cultura própria de cada escola, desconfigurando as respectivas lideranças, substituindo os líderes, que eram aceites dentro da dinâmica do grupo-escola por uma liderança formal e estranha à dinâmica da mesma, por um decreto-lei, podemos afirmar que este governo promoveu o “saneamento” à velha maneira estalinista.

Negociar um novo estatuto, onde haja somente a carreira única de professor é pois a primeira prioridade. As outras situações são as regulamentações: progressão na carreira e avaliação dos docentes.

Não vamos ser hipócritas:

Gostam de ser avaliados por alguém na vossa ESCOLA, que, devido ao seu historial nessa ESCOLA, seja considerado de competência duvidosa ou sem capacidade para liderar?

Um abraço

Até 8 de Março

Pedro Castro (Esc. Secundária da Maia)