Sexta-feira, 7 de Março, 2008


Já não há energia para aturar mais esta gente a largar bitaites.

Mesmo quando dizem algumas coisas de jeito.

A Helena Matos está a sair-se com umas boas…

“É uma desculpa de mau pagador dizer que a responsabilidade da má imagem dos professores é da ministra”

(Maria de Lurdes Rodrigues ao Expresso na edição de amanhã)

Só é pena que MLR pareça desconhecer a tal sondagem internacional (e não dos colegas do seu departamento) da Gallup que coloca os professores no topo da confiança dos portugueses.

Seria deste tipo de «sinais positivos» que a Presidência da República estava à espera para esta semana?

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Ia perdendo no Público de ontem, que não comprei (pelo que a imagem não é das que aumenta para ler), um muito oportuno texto de João Freire com o título «A rua não tem sempre razão». Hoje, o Pedro L. fez-me chegar a transcrição do artigo que culmina assim:

Aos professores – meus colegas de missão -, eu desejaria que não se enganassem de alvo. O direito à opinião, à indignação e ao protesto são hoje irrecusáveis, mas, numa democracia, as grandes decisões de orientação política tomam-se através do voto de todos os cidadãos. E os cidadãos-professores têm de ter (e merecer) a autoridade e o respeito necessários para se apresentarem diariamente perante os seus alunos na sala de aula.

Isto é comovente na sua aparente candura, vindo de um vulto notável e notado do anarquismo português das últimas décadas do século XX. Como factos apenas relembraria, com base em documentos e testemunhos, que João Freire foi um dos esteios das publicações de índole anarquista dos anos 70 a inícios de 90, onde se estreou nas lides da escrita uma jovem Lurdes Rodrigues, redactora e editora, por exemplo, da revista A Ideia.

Mais tarde João Freire foi alguém que alumiou a então já socióloga Maria de Lurdes Rodrigues na sua carreira académica, orientando-lhe a própria tese de doutoramento.

Que, como se lê no Terrear, João Freire seja o autor de um estudo «técnico«científico» feito para o ME e que estaria na base do actual Estatuto da Carreira Docente é apenas mais um detalhe factual.

Conclusões sobre a interligação de todos estes factos alguém que as tire, porque a mim não me ocorre nenhuma que possa colocar em forma de escrita neste espaço.

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more.
People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share
And no one deared
Disturb the sound of silence.

A bem do país!!!!

(…)
Portanto não me falem de reformas, não me falem de castigos para os professores, não me falem da necessidade de intervenção de pais e forças vivas, não me falem de passagens para as autarquias (que como já vimos não cumpriram enquanto detentoras do domínio do pré-escolar e do 1º ciclo e ainda menos das AEC), não me falem de avaliações como medida de promoção do mérito, não me falem de cursos de formação (dos vários tipos) e de novas oportunidades. Falem-me, sim, do objectivo da escola, do que queremos que ela “produza”. Dêem-me o direito a ter autoridade para exigir o cumprimento de normas e de aprendizagens. Depois disto peçam-me satisfações. Até lá metam a mão na consciência e reconheçam os erros dos sucessivos ME e não acusem os professores, em praça pública, apenas com o fito de arrecadarem 30 dinheiros para poderem pagar a “especialistas em não se sabe o quê” compilações em legislação educativa, ao preço mensal do custo de um campo de jogos (que a minha escola não tem), de um laboratório, ou mesmo de uma sala de convívio que faça com que os alunos sintam a escola como sua, e para os quais dizem não haver verbas para dispender, apesar da “srª ME” dizer que o problema do seu ministério não é dinheiro!
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Quanto à nossa avaliação de desempenho, vou só referir o problema último e mais grave deste “quiproquó” (explicá-lo-ei noutro post). A avaliação entre pares é muito bonita, diz a “srª”! Pois é! Só que a “srª” não explica a ninguém que avaliadores, avaliadores/avaliados e só-avaliados são decisores e simultaneamente candidatos às MESMAS CLASSIFICAÇÕES, às MESMAS QUOTAS de notações que dão benefícios para progressão na carreira. Nas reuniões de decisão quanto às classificações só não estarão os só-avaliados. E isto é maquiavélico!
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Sim! A escola não está nada bem!
Mas não são operações de lifting, nem maquilhagens que vão mudar os resultados. Podem mudar as estatísticas, mas não alteram os resultados!

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Esta posição merece destaque, pelo historial adverso para com os professores do autor.

Escolas, e justiça pelas próprias mãos.

Ontem visitei uma escola no concelho de Sintra. Era a “semana da leitura” numa escola cuja biblioteca está permanentemente aberta das 08h00 às 22h00 por devoção dos seus professores. Os de várias disciplinas, de Português a Educação Física e Geometria – cada um faz uma escala para garantir um dos objectivos internos da própria escola: mantê-la aberta nesse período. Havia alunos a ajudar no bar e no refeitório, porque não há pessoal suficiente. Alunos, funcionários administrativos e professores promoveram uma maratona de leitura. A ministra da educação pede a estes professores para “trabalharem mais um pouco”, coisa que eles já fazem há bastante tempo; ouvi alunos portugueses, africanos, indianos, do Leste europeu, a falar com orgulho da sua escola. Falando com eles, um a um, percebe-se entusiasmo em várias coisas. Acho natural, são professores. Percebo pela blogosfera uma grande vontade de fazer “justiça pelas próprias mãos” aos professores, mas vejo poucas pessoas com disponibilidade para ouvi-los nas escolas – não nas ruas, onde as parvoíces são sempre amplificadas, mas nas escolas, nos corredores da escolas, quando fazem turnos de limpeza, quando atendem alunos em dificuldade ou fazem escalas para Português como língua estrangeira para rapazes ucranianos ou indianos que não entendem sequer o alfabeto ocidental, ou quando tratam dos problemas pessoais de alguns deles (ou porque não tomam o pequeno-almoço em casa, ou têm dificuldade em aceitar um namoro desfeito, ou andam na droga). Os professores, estes professores, são um dos últimos elos (percebe-se isso tão bem) entre os miúdos e miúdas desorientados e um mundo que é geralmente ingrato. São avaliados todos os dias pelo ambiente escolar, pelo ruído da rua, pelas horas de atendimento, pelas reuniões que o ME não suspeita. Muitas vezes, as famílias não sabem o ano que os miúdos frequentam; não sabem quantas faltas eles deram; não sabem se os filhos estão de ressaca. Os professores sabem.

Essa vontade de disciplinar os professores, eu percebo-a. Durante trinta anos, uma série de funcionários que abundou “pelos corredores do ME” (gosto da expressão, eu sei), decretou e planeou coisas inenarráveis para as escolas – sem as visitar, sem as conhecer, ignorando que essa geringonça de “planeamento”, “objectivos”, princípios pedagógicos modernos, funcionava muito bem nas suas cabecinhas mas que era necessário testar tudo nas escolas, que não podem ser laboratórios para experiências engenhosas. Muitos professores foram desmotivados ao longo destes anos. Ou porque os processos disciplinares eram longos depois de uma agressão (o ME ignora que esses processos devem ser rápidos e decisivos), ou porque ninguém sabe como a TLEBS é aplicada. Ninguém, que eu tivesse ouvido nas escolas onde vou, discordou da necessidade avaliação. Mas eu agradecia que se avaliasse também o trabalho do ME durante estes últimos anos; que se avaliasse o quanto o ME trabalhou para dificultar a vida nas escolas, com medidas insensatas, inadequadas e incompreensíveis; que se avalie a qualidade dos programas de ensino e a sua linguagem imprópria e incompreensível. Sou e sempre fui dos primeiros a pedir avaliação aos professores, porque é uma exigência democrática e que pode ajudar a melhorar a qualidade do ensino. Mas é fácil escolher os professores como bodes expiatórios de toda a desgraça “do sistema”, como se tivessem sido eles a deixar apodrecer as escolas ou a introduzir reformas sobre reformas, a maior parte delas abandonadas uns anos depois. Por isso, quando pedirem “justiça”, e “disciplina” e “rigor” (coisas elementares), não se esqueçam de visitar as escolas, de ver como é a vida dos professores, porque creio que se confunde em demasia aquilo que é “o mundo dos professores” com a imagem pública de um sistema desorganizado, oportunista e feito para produzir estatísticas boas para a propaganda.

ESCOLA SECUNDÁRIA DE BOCAGE

Setúbal

Protesto contra o modelo e o processo de Avaliação dos Docentes

Face ao absurdo de que se revestem o modelo e o processo de avaliação dos docentes que o Ministério da Educação teima em implementar, os Coordenadores de todos os Departamentos e outras substruturas da Escola Secundária de Bocage, em Setúbal, com assento no Conselho Pedagógico, transmitindo o sentir da grande maioria do corpo docente, juntam a sua ao coro das inúmeras vozes de protesto, representativas de escolas, de substruturas escolares, ou de pareceres individuais, que, com a honestidade profissional e a validade argumentativa de quem sabe o que é ser Professor, salientam:
1. O afã da implementação do modelo, sem tempo para uma preparação séria, reflectida e criteriosa.
2. A imposição da sua execução quando o próprio Ministério ainda não disponibilizou muitos e importantes suportes inerentes ao processo e consignados no Decreto Regulamentar nº 2/2008 de 10 de Janeiro, nomeadamente nos seus artigos 6º, 20º, 21º e 29º.
3. A tentativa de dar resposta ao artigo 6º nomeando uma presidente para um órgão não constituído, a qual emitiu recomendações, umas e outra de validade jurídica duvidosa porquanto geradoras de providências cautelares.
4. O sangramento das energias dos Professores e do seu verdadeiro mister numa burocracia desmedida, obrigados que ficam ao cumprimento de incontáveis horas além das que a lei geral do trabalho lhes impõe, em desrespeito de direitos elementares; e, por via disso, com o mais que certo prejuízo na preparação das actividades lectivas e, logo, o também mais que certo reflexo negativo no bem-estar afectivo, emocional e social.
5. A falta de lisura no processo, porquanto o docente será também avaliado por uma qualidade para a qual, a curto prazo, lhe será mais difícil trabalhar.
6. A preocupante carência de centros de formação que dêem resposta adequada às necessidades de todos os docentes, a quem se exige, simultânea mas paradoxalmente, certificados com aproveitamento de acções para poderem progredir na carreira (ou seja, “Tens de fazer, embora não tenhas onde”). A não ser que o Professor se prontifique a pagar do seu próprio bolso uma formação cujo ónus deve caber exclusivamente à entidade empregadora, já que se pretende que as escolas tenham uma dinâmica empresarial.
7. O perigo ético, que deriva da ausência de uma formação em avaliação de desempenho e supervisão pedagógica para os Coordenadores de Departamento, enquanto avaliadores.
8. As falhas técnicas na concepção das grelhas de avaliação, dificultando a sua operacionalização.
9. A total subversão dos valores educativos e da formação integral do indivíduo, com o rosto do controle da qualidade, e em prol das estatísticas, ao fazer depender a avaliação dos docentes dos resultados da avaliação dos seus alunos, quando é certo que nesses resultados influem muitos factores que os Professores não podem de modo algum controlar. Conviria que os que nos tutelam percebessem que, perante turmas diferentes, o mesmo Professor obtém resultados diferentes. Está na lógica. O que muda, a cada bloco de noventa minutos, não é a qualidade do Professor, permanentemente à prova de adaptação a novas realidades-turmas. Questione-se a tutela sobre a sua quota de responsabilidade relativamente a desajustamentos e extensão de programas; ou sobre as reais condições de trabalho de muitíssimas escolas. E a avaliação será muito mais fiável e idónea.

Mais haveria a salientar. E desta espécie de alucinação em que estamos mergulhados, uma evidência importa relembrar, entre todas: os erros que se cometem em política educativa, a golpes de legislação, não se corrigem de imediato com decretos; antes marcam indelevelmente uma geração, com repercussões que se propagam em exponencial. Quem assumirá a responsabilidade do erro terrível que está a cometer-se na educação portuguesa?

Escola Secundária de Bocage, 27 de Fevereiro de 2008

Os Coordenadores do Conselho Pedagógico

A ORIGEM DO MAL

A opinião pública e os média têm focado que o motivo principal da contestação dos professores se centra na avaliação que o ministério decidiu implementar. Aos olhos da opinião pública, os professores só se preocuparam quando chegou o momento de implementar a avaliação. Dar enfoque esmagador à vertente da avaliação, no momento em que contestação está no auge é, do meu ponto de vista, redutor. E parece-me que os professores têm caído nessa armadilha, uma vez que nos blogs a que tenho tido acesso, estamos a dar demasiada atenção a este assunto em vez de abordar outros assuntos que estão na origem deste mal-estar. A avaliação dos professores foi o detonador para a revolta dos mesmos, mas o problema encontra-se a montante e é bem mais preocupante que o modelo de avaliação que o Ministério da Educação quer concretizar.

Comecemos pelo actual Estatuto da Carreira Docente e ao lermos as dezenas de deveres profissionais dos professores, verificamos que ficamos à mercê dos burocratas do ME, uma vez que se tratam de deveres de seres do outro mundo. Somos como que homens e mulheres dos sete ofícios, uma espécie de marcianos, com e obrigações e deveres que não encontro em outros ramos profissionais. Este parafernália de deveres profissionais, não contribuirá certamente para com o dever principal que deveria nortear a nossa profissão: a ARTE DE BEM ENSINAR! Somos burocratas, juristas, animadores culturais, assistentes sociais, psicólogos, educadores de pais, promotores de marketing das Escolas, administrativos… depois as aulas que temos de preparar e leccionar, a avaliação dos alunos (fortemente condicionada), o cumprimento dos programas, as estratégias de recuperação dos alunos…. A quantidade desmesurado de deveres profissionais aos quais somos obrigados, fragiliza o professor do ponto de vista legal, uma vez que, qualquer gestor de uma escola, qualquer director geral da educação, qualquer superior hierárquico, tem margem de manobra para escravizar e sujeitar o professor a uma tarefa humilhante e desadequada, porque sempre encontrará, numa alínea k do artigo nº X, um dever, para nos vergar!

Mas o “cancro” que poderá causar danos sérios à “saúde” da função docente foi a criação da figura do professor titular. A criação desta figura e o subsequente concurso, espécie de lotaria, que esteve na base do recrutamento desta categoria, começa a inquinar e irá desestabilizar definitivamente a colaboração entre professores. Colegas relataram-me factos muito desagradáveis que ocorreram entre docentes em algumas Escolas e que são premonitórios de mal-estar que irá advir. Não tenhamos dúvidas, uma espécie de “cortina de ferro” irá dividir, ainda mais, os professores, promovendo o individualismo em detrimento do trabalho de equipa.

A obra de engenharia social, configurada por um governo centralista, promoveu para o mesmo saco, bons e maus professores para a figura de professor titular. Formatando a cultura própria de cada escola, desconfigurando as respectivas lideranças, substituindo os líderes, que eram aceites dentro da dinâmica do grupo-escola por uma liderança formal e estranha à dinâmica da mesma, por um decreto-lei, podemos afirmar que este governo promoveu o “saneamento” à velha maneira estalinista.

Negociar um novo estatuto, onde haja somente a carreira única de professor é pois a primeira prioridade. As outras situações são as regulamentações: progressão na carreira e avaliação dos docentes.

Não vamos ser hipócritas:

Gostam de ser avaliados por alguém na vossa ESCOLA, que, devido ao seu historial nessa ESCOLA, seja considerado de competência duvidosa ou sem capacidade para liderar?

Um abraço

Até 8 de Março

Pedro Castro (Esc. Secundária da Maia)

Cerca de 800 Professores saíram à rua em Portimão

Presidente da Câmara solidariza-se e junta-se aos protestos

Tal como tem acontecido por todo o país, em Portimão os Professores e Educadores saíram à rua contra as políticas do governo Sócrates e da ministra da Educação, fazendo uma concentração hoje, dia 6 de Março, pelas 17. 30 horas, frente à Câmara Municipal de Portimão. Este protesto convocado à margem dos sindicatos, pelo Movimento de Professores Indignados de Portimão e pelo Movimento Escola Pública pela Igualdade e Democracia, através de SMS, mails e blogues, juntou cerca de 800 docentes.

Tratou-se de um grande movimento de indignação realizado na principal cidade do Barlavento algarvio por movimentos independentes que complementam a acção dos sindicatos, tendo recebido o apoio do SPZS/FENPROF.

Os professores gritaram bem alto contra o modelo de avaliação prepotente e punitivo imposto pelo Ministério da Educação, contra todas estas políticas educativas do governo Sócrates/PS e a sua gritante incompetência. Gritaram bem alto em defesa da Escola Pública e que estava na hora da Ministra ir embora e que no dia 8 de Março estariam em peso em Lisboa na grande marcha da indignação.

Esta concentração de professores mereceu o apoio de Manuel da Luz, socialista, Presidente da Câmara Municipal de Portimão, que se juntou aos manifestantes dizendo que estava solidário com os professores e que algumas coisas tinham de ser alteradas no processo de avaliação.

Por último, João Vasconcelos, porta-voz do Movimento de Professores Indignados e fazendo igualmente parte do Movimento Escola Pública, referiu que aquele se encontra na disposição de integrar este último, por ser um grande movimento a nível nacional e que luta efectivamente em prol da Escola Pública. Estas afirmações foram proferidas a José Manuel do Carmo, um dos elementos responsáveis do Movimento Escola Pública pela Igualdade e Democracia.

João Vasconcelos – Portimão

Observação: Vê-se Manuel da Luz, Presidente da Câmara de Portimão na foto (nova) junto ao slogan: “está na hora da Ministra ir embora”.

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A assembleia de escola tinha uma maioria de 50 por cento, à partida, de professores e não docentes. Por isso, para os pais e os autarcas tanto valia ir como não ir. (Albino Almeida, Público, 7 de Março de 2008, p. 10)

Toda a entrevista suscitaria uma leitura que uma sexta-feira plena de trabalho não permite neste momento.

Mas fico desde já a saber duas coisas:

  • 50% fazem uma maioria;
  • Quando não se está em maioria não vale a pena participar.

Se alguma coisa faltasse para demonstrar que há concepções de participação cívica diametralmente opostas às minhas, estas declarações são bem elucidativas. Pelos vistos a aposta é que, estando em minoria, os professores não apareçam no futuro Conselho Geral.

De qualquer modo, apesar da maioria de 50% poderia ser que alguns professores fossem susceptíveis ao encanto de caravelas douradas.

Caros colegas:

No passado dia 5, na reunião do Conselho Pedagógico da Escola Secundária de Casquilhos (do qual faço parte) este decidiu, POR UNANIMIDADE, “suspender a aplicação do decreto regulamentar 2/2008 (o da avaliação), aguardando a decisão dos tribunais relativamente às providências cautelares interpostas”.

É interessante notar que a reunião começou com uma proposta “conciliatória” (i.e., querendo cumprir com as orientações do ME por um lado mas da maneira mais “correcta” possível e dando o máximo de margem de manobra aos profs. da escola). Ela propunha que se fizesse “apenas” a avaliação dos colegas contratados (note-se que o ME tem tentado fazer essa manobra, afirmando que os contratados “têm” que ser avaliados até ao final do seu contrato). Mas quando alguém perguntou, inocentemente… “qual é o benefício que os contratados vão retirar disso? Será que vão ser reconduzidos automaticamente, ou ter preferência nas colocações?” – e se percebeu que, de facto, os colegas, avaliados ou não, vão ficar tal como estavam, i.e, sem garantias nenhumas de nada, sem vinculação e continuando super-precários, começámos também a ver que se está a tentar fazer dos contratados “cobaias”… Afinal eles não são professores como os outros? Se forem avaliados, isso não é abrir a porta a que os outros o sejam logo a seguir?

A discussão que se seguiu posso dizer-vos que foi muito interessante, e também muito serena. Havia os que afirmavam, “mais tarde ou mais cedo este decreto será aplicado, a única vitória que podemos conseguir é o seu adiamento para o próximo ano lectivo”, e os outros (a maioria) que diziam: “Este decreto não é para adiar, e sim para afundar. E nada está jogado definitivamente.” Também foi extremamente importante o facto de os coordenadores terem transmitido, não apenas a sua posição pessoal mas fazendo-se mandatados pelos colegas dos respectivos departamentos. “No departamento tal achamos que se deve suspender o processo…”, “no meu departamento também”, etc..

Em resumo, conseguimos convencer mesmo os “conciliadores” e, no final, a votação foi unânime. Nesse dia houve concentração de profs. no centro do Barreiro (o Conselho Pedagógico até terminou mais cedo para irmos para lá todos!) e é claro que aproveitámos a oportunidade para transmitir aos colegas das outras escolas do concelho a decisão dos Casquilhos. Na conversa com os colegas constatamos que há muitas escolas onde, por medo, seguidismo ou mesmo concordância, os órgãos de gestão (conselhos executivos e pedagógicos) estão a avançar com o processo de avaliação e até a ser “mais papistas que o papa”. Está a verificar-se um grande fosso entre a maioria dos profs. nas escolas (as bases) e a gestão (sobretudo conselhos executivos), essa é uma realidade que não podemos ignorar (independentemente do sucesso da manifestação de sábado). A tomada de posição dos Casquilhos é um ponto de apoio importante para todos (note-se que o presidente do nosso CE estava presente no Pedagógico e votou a favor da suspensão, o que significa que estamos todos unidos na escola, da base ao topo). Mas certamente que existem posições semelhantes de outras escolas. Alguém sabe de mais exemplos? Nesta fase do campeonato é importantíssimo conhecermos e publicitarmos todas as posições de resistência.

Pela nossa parte (Casquilhos), vamos aproveitar a Marcha de dia 8 para divulgar a posição do C. Pedagógico e apelar a que as outras escolas façam o mesmo. A linha de força é: “suspensão de todo o processo de avaliação nas escolas, primeiro passo para impor a revogação do decreto”. Porque essa é a questão central: obrigar o ME (com esta ministra ou outra) a revogar o dec. 2/2008.

Uma última achega: fui falar com os 5 colegas contratados que existem na nossa escola, para os informar da decisão do Pedagógico, e eles estão TODOS de acordo, ficaram satisfeitíssimos! Sentem-se muito mais ameaçados se forem avaliados de acordo com este decreto do que se ficarem sem avaliação…

Um abraço para todos, e até sábado!

Ana Paula Amaral, delegada sindical da Esc. dos Casquilhos (Barreiro

Vou tentando estar a par do que se vai escrevendo ou discutindo nos comentários, mas por manifesta falta de tempo não estou em condições de fazer grande moderação dos mesmos.

Materiais com interesse e informações frescas, é melhor enviarem-nos para o mail, do que largá-los nos comentários.

Há três dias atrás, após ler um editorial de José Manuel Fernandes, escrevi:

Eu ainda não desesperei: com jeitinho daqui por um mês, já são duas as colunas a ler com interesse nos editoriais de JMF relativamente à Educação.

Todos sabem que sou pessimista: vejo as coisas pelo lado do copo meio vazio, para depois descobrir que ele está meio cheio e ficar feliz.

Por isso mesmo o editorial de hoje de José Manuel Fernandes no Público é colírio para os meus olhos e bálsamo para a alma.

Logo que possa digitalizarei a página 56 inteira para todos poderem ler que, afinal, pequei por desesperança. JMF é inteligente, mesmo quando discordamos dele há que admitir que tem lá os seus argumentos. Por vezes, basta conhecer os factos básicos correctos para alguém perceber que esses argumentos necessitam de adaptação:

Excertos:

Um objectivo correcto, criar um sistema de avaliação dos professores, não justifica métodos errados. E um sistema burocrático e quase kafkiano de avaliação não tem de ser aceite só porque o actual é laxista e não premeia os melhores, tal como não penaliza os piores.

Esqueçamos que os piores poderiam ser penalizados e que os melhores poderiam ser premiados se os sucessivos Governos nos últimos 10 anos o tivessem querido, incluindo este.

Mas temos mais, em especial uma parte que não tenho tempo de transcrever completamente, em que se procura que MLR perceba o que é essencial:

Deixar de ouvir apenas os yes man que por aí abundam. Tentar perceber por que motivos tem dificuldade em indicar escolas boas onde o seu sistema esteja a ser bem recebido. Se o fizesse, até porque se acredita que não perdeu a honestidade intelectual, não recorreria à demagogia rasteira de que tudo se resume a maus professores que não querem ser avaliados e a um governo justiceiro que os quer meter na ordem.

Por favor, quem não tenha aulas esta tarde, que mande um ramos de flores a este senhor.

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Desfile em silêncio até à Baixa. Palavras de ordem a partir daí.

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(c) Antero Valério (arte pura) Paulozeco (ideia original)

Eu não disse que estava muito favorecido no retrato?