Quarta-feira, 5 de Março, 2008


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Uma comentadora chamou-me a atenção para o marco histórico. Mais de um milhão de entradas atingido hoje cerca das 23 horas, sendo que quase todo ele se acumulou desde 31 de Janeiro de 2006 quando comecei a escrever mais detalhadamente sobre Educação. Ontem o máximo histórico a chegar-se quase aos 25.000 acessos.

Isto roça o irreal.

A minha ortodoxa posição super-«radical» está por lá. Depois de reler o que disse, e comparando com o que alguns diabolizadores dizem de mim, só posso concluir pela minha esquizofrenia galopante.

Caldas da Rainha, quinta-feira, dia seis de Março, às 21:00 h, na Praça da República (praça da fruta): vigília de professores em defesa da Escola Pública e pela dignidade do ofício.

Camilo Lourenço no Jornal de Negócios em crónica absolutamente fora deste mundo, tenta comparar o movimento de contestação dos docentes ao que em Inglaterra opôs os mineiros a Thatcher. O paralelismo é um bocado ridículo, mas há pouco a esperar em especialistas instantâneos em tudo, em particular quando surge com um manual de Economia Para Tótós debaixo do braço. Nem vale a pena fazer mais do que citá-lo para criticá-lo pelo absoluto ridículo da «argumentação», se é que não estou a usar o termo de forma muito ampla.

O que me preocupa é que a minha filha possa ter, em Portugal, a Educação que a Economia exige. Os professores (há excepções) estão a aproveitar uma questão pessoal, a antipatia da ministra, para mascarar o verdadeiro problema: não querem ser avaliados. Porque se habituaram a viver sem terem que prestar contas pelo mau trabalho que (muitos) fazem. É essa a questão. Ponto final.

Em circunstâncias normais eu não evocaria aqui familiares de ninguém, mas como Camilo Lourenço o faz, só posso lamentar que a filha dele seja obrigada a seguir a Educação que a Economia do pai lhe ditará. A minha, assim me seja guardada alguma clarividência, seguirá aquela Educação que bem entender, Economias à parte, mais que não seja porque se a Educação em Portugal está mal, o que poderíamos dizer da Economia apesar de tão ditosos «especialistas»?

Já agora, quando é que Camilo Lourenço foi avaliado pela última vez? Ponto de Interrogação

Graças ao Paulo Tapadas, acedi a uma deliciosa crónica de hoje na Antena 1. Encontra-se aqui sob o título:

O Sr Comentador gosta da ideia de Valentim Loureiro a apoiar a Ministra da Educação.

Chegado por mail e enviado pelo autor que também o enviou para o próprio jornal.

O Editorial do dia 5 de Março, sendo texto de opinião, não deveria dispensar de conhecer alguns factos que comenta. Opinar sobre o que se conhece mal, só por sorte atinge o centro da questão.

O Inglês “desde tenra idade”, tal como as outras actividades que ocupam os meninos até às 17:30h não são aulas, não têm presença de professores e, como tal, não representam mais trabalho e mais esforço para nenhum docente deste país. Para que perceba, não é mais escola, é um ATL do Estado, orientado por animadores a recibo verde que não precisam de ter habilitações específicas para o que fazem. Quanto ao nível remuneratório, ficava bem pagar esse trabalho pelo menos ao preço de uma empregada de limpeza. Mas isso é só uma opinião solidária de um cidadão para com os animadores.

Os professores aceitam contrariados esses prolongamentos? Só se for como cidadãos, já que profissionalmente não são chamados ao caso. Pessoalmente, tenho dúvidas metodológicas que seja óptimo manter as crianças no mesmo espaço das 8:30h até às 17:30h, e que essa massificação seja um progresso. Mas reconheço que facilita a vida a muitos pais.

Em relação às substituições, o Estatuto da Carreira Docente definiu-as como trabalho extraordinário. Como essa norma já estava em vigor quando me tornei professor, e como nem sequer me foram atribuídas horas de substituição, estou duplamente à vontade para dizer que a Lei é para todos e também abrange os patrões. Vê algum mal em que se cumpra a Lei?

Sobre os dados positivos do relatório agora publicado, seriam boas notícias se não coincidissem com as avaliações abaixo da média nos estudos da OCDE. Uma coisa é o resultado estatístico, outra coisa é o nível efectivo de conhecimentos dos alunos. Porque, em última análise, não é o professor que define os critérios para o sucesso dos alunos, mas sim o Ministério. E o que para a OCDE é medíocre pode ser perfeitamente aceitável para o Governo de Portugal. Realmente parece-me muito optimismo falar em “conquistas irreversíveis”, mas “opiniões não se discutem”.

João Oliveira, professor

Cerca de 500 professores protestam contra Ministra de Educação

Foram muito perto dos 500 professores que, hoje, a partir das 18 horas, se concentraram junto à Estátua Alfredo da Silva em protesto contra as politicas do Governo em matéria de Educação.

“Está na hora, está na hora, da Ministra ir embora!” – foi a palavra de ordem mais gritada pelos professores, muitos vestidos de negro e empunhando velas.
Os professores acenaram de lenços brancos apelando, em coro, para que Ministra da Educação vá embora.
(…)
Entre os participantes neste protesto, refira-se, porque são personalidades conhecidas da vida pública, encontravam-se professores conotados com os mais diversos partidos – PCP, PS, PSD ou Bloco de Esquerda.
Mas, de facto, esta acção de protesto uniu os professores em defesa da profissão e, sem dúvida, acima de quaisquer intervenção de ordem político-partidária.
No entanto, os manifestantes na Rua Miguel Bombarda, quando se deslocavam para o edifício dos Paços do Concelho, ao passarem junto à sede da Comissão Politica Concelhia do Barreiro do Partido Socialista, na circunstância, ergueram as suas vozes, escutando-se um coro imenso de assobios e gritos : “Mentirosos! Mentirosos!”

Como estive em Setúbal, hoje prescindi da ida ao Barreiro (onde leccionei cerca de 10 anos), mas pelo que sei a minha escola mandou uma delegação numerosa, mesmo sendo de concelho vizinho.

Para neófito nestas andanças, ir a 3 manifestações em 8 dias seria demais, por muita que seja a revolta.

Dia 8 encontramo-nos todos. No meu caso pela primeira vez numa coisa destas e no fim da fila que é para ir descansando nos banquinhos da Avenida, já que não me lembro se a Buchholz fecha nos sábados à tarde.

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O que vale é que isto é coisa para menos de uma hora. É um trabalho chat o e repetitivo, mas lá vou estar de olhos na enésima tentativa de MLR «passar a mensagem» com recurso aos meios de comunicação social.

Aceitam-se palpites quanto ao desempenho da entrevistadora. Eu já não sei que diga, nem o que faça.

Adenda: Erro meu, má visão. A entrevista é amanhã.

Finalmente a Confap divulga oficialmente o seu comunicado contra o que chama «INSULTOS E ACUSAÇÕES TORPES».

A análise deste comunicado daria pano para mangas, desde ligações que não correspondem ao prometido (a do protocolo) até a algumas bem recentes, que não existiam à datada abordagem de alguns temas em causa. Não o vou fazer em nome da defesa de um clima de acalmia nesta matéria.

Assinalo apenas que nada do que lá surge tem origem neste blogue ou em textos meus. Pelo qual (blogue) ou quais (textos) me responsabilizo, como qualquer cidadão civilizado que se preze da sua «obra».

No entanto a TSF noticiou ontem que o autor d’A Educação do meu Umbigo seria processado pelo presidente da Confap no âmbito da defesa perante uma «campanha difamatória». O meu nome não foi referido, mas fosse eu criatura de sensibilidades muito sensíveis, e o caldo estaria irremediavelmente entornado. Porque mails ofensivos e não anónimos também os tenho.

Mas como fui criado por pais de instrução formal mínima, mas de educação elevada, ainda sei distinguir as coisas e avaliar as situações. Para além disso, os meus muitos anos de ligação à área da Educação de jovens e crianças ensinaram-me que devemos ser tolerantes para com a incompreensão e que devemos funcionar como exemplos na nossa conduta para aqueles que educamos todos os dias, para a própria sociedade e principalmente para os nossos filhos. Tudo isso em conjunto com o apego de qualquer amante da História (e modéstia à parte até no meu caso com alguma obra publicada e mesmo premiada) ao rigor dos factos, faz com que eu continue com a serenidade e coerência que sempre tive na minha vida.

Sou duro de roer, defendo as minhas convicções até ao tutano da minha capacidade, mas nunca uso truques baixos, intimidações desnecessárias ou fundamento opiniões de forma consciente em dados erróneos ou falsos. Aliás, na dúvida, fico calado.

Por isso mesmo, hoje declarei a todos os que me falaram, escreveram ou ligaram, de amigos assarapantados a jornalistas interessados no tema, que nada tinha a mudar (nem uma vírgula, quanto muito uma gralha mal avisada) no que escrevi neste blogue acerca do assunto em causa, já nos idos de Novembro de 2007 e não depois de 1 de Março de 2008.

Como é natural, não exijo a ninguém uma retractação pública pelas insinuações feitas a meu respeito. Não faz bem o meu estilo de intervenção. Há que saber dar o exemplo.

Sem tempo para muito mais, porque estamos em semana de avaliações e preparação da avaliação de final de período – 8 páginas de instruções para as reuniões, só para que se consiga fazer sentido da teia burocrática que o ME instalou no modelo de avaliação dos alunos!!! – tenho dificuldade em acompanhar as discussões fomentadas nos posts, em responder ao correio de forma pontual ou mesmo de seguir os links de entrada no Umbigo.

Apesar disso tento. E lá vou seguindo os fios da teia até à origem, em especial – desculpem-me os mais chegados – quando desconheço a proveniência. Hoje segui um desses fios e fui dar a um blogue com bom aspecto, escrita algo apurada e algum sentido. Contudo – e agora não me interessa identificá-lo – faz-me várias menções com um espírito que estranho. Entre outros mimos, ecoa a acusação de «desestabilizador do país» e da pertença a uma vaga conspiração «político-partidária.

Isto deixa-me apreensivo por dois motivos:

  • Numa era da informação acessível e rapidamente disponível, ainda não confirmaram que eu não pertenço a nenhuma organização profissional, sindical ou partidária. Não seria crime, mas por acaso não se confirma. Aliás, aquele que andou há meses a pesquisar as minhas pegadas na net terá confirmado isso. Perguntem-lhe. Uns artiguitos de História, uma referências à obra publicada quase só nessa área. Pouca coisa.
  • Que raio de país seria este (será?) se conseguisse ser «desestabilizado» por alguém que se senta um par de horas ao computador e escreve o que lhe vai na alma, mesmo que por vezes seja de desencanto? Alguém que participou há poucos dias na primeira manifestação pública nos últimos 20 anos. Alguém razoavelmente comodista e que a seu favor tem apenas a rapidez da escrita, resultante de algumas ideias medianamente arrumadas?

Não andarão a confundir-me com um moinho de vento? É verdade que sou de porte algo para o largo, mas estou longe de fazer mal a alguém, muito menos a todo um país, para mais governado com a qualidade, estabilidade e sucesso que conhecemos no nosso.

E por favor, não percam recursos a investigar-me ou a tentar descobrir a que tipo de carbonária pertenço, porque eu me disponibilizo a mostrar-lhes todos os meus arquivos, conta bancária, declaração de rendimentos e atestado de robustez física, já que o da psíquica não sei se…

Mandem-me meia dúzia de pastelinhos de nata de Belém, com sua canela a acompanhar, mais um cafézinho em grão (arabica) para eu moer e descansem em paz. Vírgula.

Avaliação chumba

Em vez de tentar ensinar as escolas a avaliar professores, o Ministério da Educação devia esforçar-se por aprender a avaliar as escolas.

O novo regime de avaliação de professores não passa nos mais elementares testes de aptidão. Não tenho a mais pequena dúvida quanto à benevolência das intenções dos autores da iniciativa. E aplaudo com entusiasmo a vontade política para gerar mudança.

No entanto, nos termos em que foi desenhado, este regime de avaliação apenas exprime uma tentativa de micro-gestão a partir do Terreiro do Paço talhada a falhar. Na prática, limita-se a acrescentar uma nova camada de requisitos burocráticos na gestão das escolas. Pelo caminho, comprou uma guerra desnecessária com os professores.

Sejamos claros quanto à importância do tema em questão. Dizem os estudos da economia da Educação que a “produção” de alunos de qualidade depende, em primeiro lugar, do nível socio-económico do aluno, e em segundo lugar, da qualidade dos professores. Um estudo recente da Universidade de Bristol sugere que a qualidade dos professores conta cerca de um terço da qualidade do aluno (incluídos os tais factores socio-económicos) para a “produção” de alunos de qualidade – uma estimativa que está, de resto, em linha com os resultados de outros estudos internacionais. Se se tiver em conta, contudo, que a qualidade de cada professor afecta vinte ou trinta alunos por cada turma, fica-se com uma ideia da importância desta variável para a qualidade global do sistema de ensino.

Perante isto, é conhecido o modelo do Ministério da Educação para estimular docência de qualidade: forçar sobre cada escola um regime de avaliação de professores uniforme, desenhado ao pormenor a partir do centro. Por outras palavras, um exercício de micro-gestão ao pior estilo ex-URSS; o exemplo acabado de centralização descontextualizada; e a prova de que está vivo o tradicional espírito legalista português, segundo o qual no mundo tudo se transforma por lei ou decreto-lei (pena é que, tal como na física, também por esta via nada se perca e nada se crie…).

O que, de facto, devia ter sido feito: (I) intervir a montante no recrutamento de professores (reservar o acesso a cursos específicos de formação de professores a candidatos com curriculum universitário de topo, capacidade de relacionamento interpessoal, comunicação, vontade de aprender e ensinar, excepcionais); (II) descentralizar a gestão do corpo docente para o nível da escola, e avaliar a ‘performance’ das escolas (e não dos professores) a partir do centro (i.e. do Ministério da Educação).

Por outras palavras, transferir a capacidade de gerir a qualidade do corpo docente para gestores escolares profissionais (professores ou não), recrutados e responsabilizados pelos resultados do processo de avaliação das escolas a partir do centro.

Para conseguir fazer uma avaliação objectiva do desempenho de cada escola por comparação com escolas congéneres, o Ministério da Educação tem que se tornar num ‘hub’ de informação sobre todo o sistema. A má notícia é que está muito longe de o ser. Num projecto-piloto que abrangeu 100 escolas (Avaliação Externa das Escolas – Relatório Nacional 2006-2007, publicado a 27/02/2008) a Inspecção-Geral da Educação (um dos braços do Ministério da Educação) não conseguiu sequer reunir informação fiável sobre o contexto socio-económico das escolas… tão só e somente aquele que é, indiscutivelmente, o factor mais importante a ter em conta na avaliação do desempenho das escolas. Pior do que isto, só mesmo o caminho analítico que o relatório adopta: o da prosa oca, com ares pseudo-técnicos, muito similar ao da consultoria privada desinformada.

Em vez de tentar ensinar as escolas a avaliar professores, o Ministério da Educação devia esforçar-se por aprender a avaliar as escolas. A esse respeito, o trabalho até agora feito é de nível profundamente medíocre. Sei que há no país especialistas na matéria com créditos firmados ao nível internacional. Trabalho no meio e já perdi a conta ao número de excelentes artigos académicos publicados por portugueses em jornais internacionais de referência. Mais surpreendente é que algumas dessas pessoas trabalham para o próprio Estado (mais concretamente, estão no Banco de Portugal). A peça que falta no ‘puzzle’ é vontade de fazer uso dos melhores recursos do país.

Miguel Castro Coelho (Diário Económico)

Se é mentira, não interessa. Se é verdade, de que te queixas?

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Público, 5 de Março de 2008, p. 7.

A revolta dos professores

Os docentes não suportam mais a indignidade com que têm sido tratados

Há evidências incontestáveis: as manifestações dos professores um pouco por todo o país (Viseu, Guarda, Braga, Coimbra, Castelo Branco, Portalegre, Setúbal e Faro), que culminarão com a anunciada marcha de 8 de Março, expressam a revolta dos docentes, que não suportam mais a indignidade com que têm sido tratados.

Sinistramente, primeiro-ministro, ministra da Educação e secretários de Estado começaram por incendiar a sociedade contra os professores. Entre outras, propalaram falsas ideias (que nesta coluna desmenti, com recurso a estatísticas da UE), segundo as quais os professores teriam fartos privilégios, ganhando mais que os colegas europeus e trabalhando menos que eles, apesar de serem (assim insinuaram) os responsáveis principais pelos elevados níveis de abandono e de insucesso escolar que caracterizam o sistema de ensino. Depois, seguiram-se as previsíveis medidas “moralizadoras” das quais recordamos três:
1. O horário de trabalho dos professores foi drasticamente aumentado. A incontinência legislativa deste governo inundou as escolas de decretos, portarias, despachos e circulares, que tornaram a vida dos professores num inferno de cumprimentos burocráticos inúteis. As alterações das reduções de tempo de serviço em função da idade e da própria idade de reforma, como é sabido, tornaram mais penoso o exercício profissional em contextos de maior debilidade física. Escravizaram-se muitos professores, obrigando-os a permanecer nas escolas sem condições nem motivo (a farsa e a desumanidade de muitas “aulas de substituição”) e vergaram-se muitos outros a exercícios profissionais próprios de auxiliares ou de amanuenses. Quem resista fisicamente e queira cumprir, pode ter que trabalhar hoje mais de 50 horas por semana. Como contrapartida, reduziram administrativamente os salários e aprestam-se agora a “depurar” o sistema, recambiando para o quadro dos disponíveis, com as desumanas consequências inerentes, os professores doentes, que consagraram vidas inteiras à Escola e ao ensino.
2. A fractura da carreira única em duas, com a emergência dos professores titulares, foi servida por um processo escabroso. É impossível descrever ao cidadão comum o quadro de injustiças cometidas. A insanidade que queimou carreiras e dedicações de vidas à aleatoriedade dos últimos sete anos, provocou chagas incicatrizáveis no tecido social das escolas. É simplesmente insuportável que um estalar de dedos ministeriais ponha à frente dos melhores muitos dos menos preparados, dos menos formados, dos menos experientes, dos menos competentes.
3. O modelo de avaliação do desempenho que se quer impor é insensato e irresponsável: como compreender que se seja penalizado por parir ou ficar viúvo? É tecnicamente medíocre: a formulação de descritores, por exemplo, entrou em roda-viva de apressados improvisos (vide o escabroso caso debatido na Assembleia da República), quando a validade de qualquer deles passaria obrigatoriamente por exercícios de pré-testagem, que não estão previstos. É leviano nos prazos que impõe: é factualmente impossível cumprir um digrama de execução daqueles em coincidência com o período de maior concentração de tarefas escolares. É fantasioso numa sujeição a emanações teóricas e científicas de órgãos que, previstos, nunca foram constituídos: onde está o decantado conselho científico? Está eivado de critérios ridiculamente subjectivos: como se mede a relação de um professor com a comunidade?
Num debate televisivo recente, a ministra ripostou a uma interveniente que não interessavam as pessoas mas sim as políticas. Enganou-se. São as pessoas que definem as políticas. E quando na defesa dessas políticas permitem que se crie o ambiente que hoje se vive, transformando as suas relações com a sociedade que governam num caso continuado de tribunal, só sobra uma solução: a saída dessas pessoas.

Santana Castilho
, Professor do ensino superior

CARTA ABERTA AO CIDADÃO COMUM, ALUNOS, PROFESSORES E PAIS
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Afinal, o que queremos?

Queremos uma escola aberta, alicerçada em regras democráticas, isto é, participada e feita por aqueles que lhe dão corpo (alunos e pais que os representam, professores, funcionários), sendo desde logo e concomitantemente, a escola da aprendizagem da democracia ou, funcionando com a filosofia e as regras empresariais, isto é, obedece quem trabalha manda quem pode?

Queremos educar os nossos filhos na liberdade de pensamento e de escolha, na descoberta do saber, alicerçada nos melhores valores sociais e morais, como a solidariedade, a procura do belo e do diferente, ou uma educação para o sucesso (de alguns, poucos, num sistema em que cada vez cabem menos), cuja liberdade de escolha e de procura do científico fica limitada às necessidades empresariais do momento e tendo como valores a concorrência a partir do berço, onde vale tudo, da rasteira à denúncia, e como cartilha única um qualquer manual de marketing do vendedor do ano?

É que podemos querer, sabem?! Do ensino, o dono somos nós, os cidadãos comuns, os trabalhadores, não os empresários bajulados pelo Governo e pela Televisão Pública (expropriada a quem a sustenta). Somos nós, com os nossos impostos, que financiamos directa e indirectamente o que se gasta no ensino neste país. Até parte do privado, onde não temos lá os nossos filhos.

Antes de mais, a declaração de interesses. Sou trabalhador por conta de outrem (não sou funcionário público) com os impostos em dia, pai de dois estudantes em escolas públicas, um já maior, universitário, outro, menor, no secundário, mas, sou em primeiro lugar e antes de tudo cidadão, que entende que a felicidade é o melhor bem que a espécie humana foi capaz de criar. E que entende que a liberdade, o conhecimento e o bem estar mínimo são os seus pressupostos.

É nessa qualidade, de cidadão de meia idade, que se sente enojado, é o termo, com o papel que certos intelectuais da sua geração e de gerações anteriores, que têm no seu passado a luta pela liberdade (na verdade, apenas contra o regime) têm feito, quer nos partidos, quer na sociedade, sob a veste assexuada de comentadores, em defesa do conforto alcançado nas poltronas do sistema, que sentiu a necessidade de aqui vir vomitar a sua revolta, indisposto com a verborreia falaciosa e oportunista dominante.

Todos nós, os mais humildes, e que fizemos o liceu antes do 25 de Abril, se chegámos às letras e à Universidade, foi graças a um professor que em determinado momento se cruzou nas nossas vidas e que, com o seu entusiasmo, particular sensibilidade, maior disponibilidade ou conduta admirável nos despertou ou abriu um caminho. Esse professor, a excepção, foi para nós o espaço de liberdade e de futuro que a escola pública (leia-se, paga com o dinheiro público mas dirigida pelo Governo), em regra, não nos dava. A trilogia, Deus, Pátria, Família fazia, então, do chefe da família, hoje encarregado de educação, e do professor primário, as traves mestres do sistema.

Depois do 25 de Abril, os alunos, um dos sectores mais combativos pela liberdade e, depois, os professores, passaram a encarar a escola como um espaço de liberdade, em que a diversidade, embora minoritária no modo de administrar os conhecimentos, pôde ser preservada. É essa “liberalidade” que agora se procura enterrar definitivamente.

Todos os que trabalham no privado sabem o que é a avaliação. É o instrumento de gestão que permite que, sem nada proibir, tudo o que seja autonomia ou direito do trabalhador está penalizado, está tudo auto proibido. O sistema de avaliação é o instrumento mais perverso que o Capital engendrou até hoje contra o trabalhador, enquanto cidadão. Começa por gratificar sempre as chefias de topo e intermédias que vão fazer a avaliação, na proporção da sua disponibilidade para fazer cumprir as ordens a qualquer preço e, a seguir, para ser elegível para uns trocados, incentiva-se os trabalhadores a abdicar de ter horário de trabalho, de reivindicar condições de trabalho, de fazer greve, de engravidar, de faltar seja por que motivo for; incentiva-se à delação e ao abandono de qualquer ética ou princípio a favor de alcançar um qualquer objectivo financeiro. É uma prática corruptiva das consciências dos cidadãos enquanto trabalhadores. É a avaliação do seu grau de subordinação.

Tendo o actual Governo a ideia de que coisa pública é coisa privada do Estado e o Estado coisa sua, não tem feito mais que importar e impor esta mesmas regras e métodos àquilo que é suportado por todos nós e cujo objectivo seria supostamente nos servir. É assim que qualquer mulher contratada a termo num hospital público tem que declarar que aceita ser imediatamente despedida se ficar grávida, bem como conformar-se com a hipótese de ficar eternamente a termo para não ter quaisquer veleidades reivindicativas ou de cidadania. Têm aqui os professores, nestes exemplos da Saúde, a bola de cristal que lhes pode permitir ler o futuro.

Mas, o que é mais vergonhoso é que os testa de ferro da aplicação e defesa aberta ou encapotada, deste quadro de valores deplorável, são os mesmos que antes do 25 de Abril clamavam por liberdade e agora no Estado, nos partidos, nas empresas privadas e públicas, na televisão, para partilharem da gamela do poder ou das suas benesses, reduziram essa pretensão de liberdade à dimensão da actividade financeira do capitalista, do empresário. Aliás, muitos negam-se a si próprios transmitindo a ideia que antes não existiram.  

É evidente que as escolas, genericamente falando, estão longe de serem um modelo de aprendizagem da democracia e da cidadania que muitos de nós queríamos para os nossos filhos. Para isso é preciso que se abra mais à comunidade, que cada aluno seja um bem sempre a preservar e a desenvolver e, como tal, todo o professor um aluno, Que os conhecimentos e as competências sejam alcançados não com base num manual adoptado, mas num programa colectiva e individualmente desenhado, baseado na realidade social e cultural do grupo e do aluno, etc., etc. Mas, sobre isso há excelentes trabalhos que foram saindo do Ministério da Educação ao longo dos anos, muitos feitos por professores, simultaneamente excelentes pensadores de uma educação abrangente, criadora e livre (e não por empresário/gestor com o pensamento castrado ao mundo do resultado financeiro), que nunca foram aplicados pelo Ministério por entender ser contra natura ao sistema político-económico dominante.

Mas, o que podemos ter como certo é que o Poder não está preocupado em promover mais democracia nas escolas. O que salta à vista é que esta avaliação é uma falácia e nunca terá como preocupação ou visará como objectivo uma escola inclusiva. É no sentido oposto desses desejos que ela se move embora por pura sofisma não tenha a coragem de o assumir.

É uma falácia porque ela não é um fim, não visa avaliar os méritos de um professor enquanto tal, mas trata-se de um mero instrumento na destruição do actual modelo da escola pública. A escola pública irá ser reduzida às necessidades básicas. Quem tiver dinheiro vai para o privado, quem não tem fica no público, com o desnivelamento daí decorrente. Daí o ataque, pelo Ministério, ao ensino especializado da música, como muito bem foi denunciado pelo Conservatório de Lisboa. Quem passa a mandar na escola e a pautar as despesas “necessárias”é o gestor. Professores estarão lá para trabalhar apenas e os alunos para aprender aqueles conteúdos que os iluminados entendem como os necessários. Depois da divisão dos professores em duas categorias, situação instrumental para a pirâmide que se quer construir, a avaliação é apenas a peça que permitirá aplicar critérios de obediência estrita dos professores às directivas ministeriais na implementação do seu projecto, incluindo a diminuição de custos com os seus salários (que há alguns anos não são aumentados).

Nunca terá como objectivo uma escola inclusiva a aplicação instrumental de um tal modelo de avaliação individual, decalcada do modelo empresarial, onde a perseguição do seu fim natural, o lucro, só se pode fazer com métodos bem selectivos, o contraponto de metas como melhor ensino para todos, uma escola participada ou mais democrática, que promova a liberdade com responsabilidade e evite a marginalidade precoce e a violência na sociedade.

 Agora serão os custos, a seguir a redução da oferta das matérias a ensinar às necessidades do mercado empresarial do momento. Áreas inteiras do saber podem ficar em risco a curto prazo.

A luta dos professores para ser consequente não se pode ficar por reivindicar o adiamento da avaliação, mas denunciar toda a avaliação que não vise objectivos de ampliação da uma escola democrática e inclusiva, isto é, participada, plural, com os padrões mais elevados para todos poderem ser os melhores e sem deixar ninguém de fora, por que todo o aluno é pessoa importante. Nesta fase de recuo do Governo, vão-se os anéis para ficarem os dedos. Recuará no secundário para salvar o essencial, dizendo que se trata de uma reforma necessária. Os seus apaniguados de serviço, os jornalistas e comentadores habituais, farão o coro e o apelo à serenidade, que é o mesmo que dizer à desistência da luta. Alguns professores hão-de ser convidados para colaborar nessa pretensão, de preferência ligados aos partidos opositores, para melhor fechar o cerco. É na firmeza e na convicção da maioria anónima e descomprometida com todos os poderes instituídos, não controláveis, que tudo se há-de decidir.

A revolta dos professores só pode ter o apoio de todo o cidadão consciente, dos próprios alunos que se devem mobilizar como é seu apanágio e não deve ser confundida com declarações de apoio dos partidos que procuram tirar dividendos mas cuja concepção da vida e do mundo é a mesma do partido do poder, ou ser reduzida a mera reivindicação sindical ou interesse corporativo. Deve merecer o apoio também de todos aqueles que têm filhos ou netos em idade escolar e querem um mundo melhor para eles (com excepção respeitável daquele senhor que é presidente da associação de pais e que vem arrostando com aquele papel confrangedor de pára – raios do Governo, espero que ao menos seja mesmo pai com filho em escola pública em idade escolar, senão o descalabro é total).

O meu apoio de cidadão livre fica aqui expresso.

José Manuel de Castro, de Lisboa.

Professores do ensino superior juntam-se à Marcha da Indignação

“Asfixia financeira”, falta de progressão na carreira e despedimentos levam docentes da universidade e do politécnico à rua, no próximo sábado

No sábado, os professores do ensino superior vão também manifestar-se, em Lisboa. Vão participar na Marcha da Indignação não só por solidariedade para com os colegas do básico e do secundário; mas em defesa dos seus direitos. A convocatória é feita pela Federação Nacional dos Professores (Fenprof), que quer que professores e investigadores contestem os “cortes violentos nos orçamentos” de universidades e politécnicos. (Público, sem link)

É muito aborrecido ter razão antes de tempo. Em 2006 escrevi várias vezes que o Ensino Superior estaria em seguida na lista das «racionalizações» governamentais na área da Educação (pois as áreas estão separadas porque a Mariano Gago parece não ter apetecido lidar de perto com a arraia-miúda) e que não percebia bem a adesão de alguns vultos da Universidade ao discurso de Maria de Lurdes Rodrigues.

A estratégia de ir cortando fatias sucessivas funcionou de início. Só que a fatia dos «zecos» demorou demasiado a cortar e agora estão outros a sofrer aquilo por que nós andamos a passar.

Aguarda-se a posição do Snesup com alguma expectativa.

Movimento dissidente da Confap diz que não quer “pais contra professores”

Ex-tesoureiro terá desviado verba

Um ex-tesoureiro da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) terá desviado para uma conta pessoal 60 mil euros que pertenciam àquela estrutura. A informação foi confirmada ao PÚBLICO por Albino Almeida, presidente da Confap. Na última assembleia geral da Confap, no domingo, a situação foi explicada aos sócios. “Ele reconheceu a sua falha e pediu-nos uma semana para repor o dinheiro”, disse Albino Almeida, que adiantou que o desvio foi feito “em seis dias, recentemente”, e que avançará com um processo por abuso de confiança. O orçamento da Confap é sobretudo constituído por subsídios atribuídos pelo Ministério da Educação (em 2006, por exemplo, dos 166.172 euros de proveitos registados, 93 por cento eram subsídios). Foi este financiamento – atribuído desde 1997 à Confap – que levou alguns blogues a classificarem Albino Almeida como um “assalariado” do ministério. Ontem, o presidente da Confap anunciou em conferência de imprensa que vai processar judicialmente os responsáveis pelas “acusações pessoais e insultuosas”.
(…)
Maria José Viseu, dirigente da federação que representa as associações de encarregados de educação de Viseu, acredita que se instalou nalgumas escolas um indesejável clima de “pais contra professores”. E essa é uma das razões que, na sua opinião, justificam a criação de uma nova estrutura nacional. Chama-se Confederação Nacional Independente de Associações de Pais e Encarregados de Educação (Cnipe), já está registada, tem uma comissão instaladora e congrega associações dissidentes da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap). Entre elas está, para além da federação regional de Viseu, as de Lisboa, Leiria e Beja.
Maria José Viseu e António Castela, dirigente da federação das associações de pais de Lisboa, são dois dos membros da comissão instaladora da nova estrutura. Ambos contestam várias medidas do Ministério da Educação (ME), como o diploma da gestão das escolas – que consideram que concentra na figura do director de escola demasiados poderes. Ou o novo Estatuto do Aluno, que, segundo Maria José Viseu, não contribui para formar alunos responsáveis, pois permite que jovens que ultrapassam o limite das faltas possam, ainda assim, passar a uma disciplina fazendo uma prova final. “Não se pode facilitar desta forma!”
Os dois – ela, com 45 anos, é professora no ensino privado, ele, com 49, é funcionário público – são também muito críticos das tomadas de posição do actual presidente da Confap, Albino Almeida. Aliás, integraram em 2007 uma lista que concorreu à direcção dos órgãos sociais da Confap. E ainda hoje esperam os resultados de uma acção judicial onde pedem a suspensão do processo na sequência do qual Almeida foi eleito. (Público, sem link e eu ainda sem jornal)

E eu percebi que afinal o processo não se me dirige porque eu nunca considerei AA um assalariado do ME (mas o contrário aconteceu) e as acusações ontem repetidas de manipulações «político-partidárias» no meu caso são absolutamente descabidas. Quase que motivo para eu instaurar um processo a alguém…

O que eu também percebi é que, de forma inesperada, toquei num ponto muito sensível da vida interna da Confap. Mas que, como é uma organização financiada por dinheiros públicos, se torna um assunto de evidente interesse público.

PS quer juntar sete mil pessoas no comício de apoio a Sócrates

Agora fiquei foi sem perceber exactamente a utilidade da manifestação. Inicialmente parecia ser de desagravo em relação à contestação dos professore4s quanto à política do Ministério da Educação. Claro que não deveriam arregimentar mais de 1000 docentes na maior parte do país e decidiram arrepiar caminho.
Agora é de apoio ao Grande Líder e esperam 7000 pessoas.

Ou é um truque para depois exceder as expectativas ou então a coisa está mal, muito mal, quando um governo de maioria absoluta só anseia juntar esta gente. O outro S. conseguia muita mais gente. O Solnado, obviamente.

Conselho de avaliação com vozes críticas

Electrotecnia, Biologia e Geologia, Inglês, História e Educação de Infância. São estas as cinco associações pedagógicas escolhidas pela presidente do Conselho Científico de Avaliação dos Professores (CCAP) para estarem representadas neste órgão consultivo, que tem a missão de implementar e monitorizar um processo que está em curso desde Janeiro.

De fora ficaram duas das mais representativas dos vários grupos de docência. A de Português que, segundo o seu presidente, Paulo Feytor Pinto, não recebeu qualquer convite; e a de Matemática (APM), que sempre se manifestou contra o sistema de avaliação aprovado. “Foi proposta uma reunião conjunta com todas as associações e a presidente do CCAP mas não se realizou. Não foram as associações a manifestarem-se sobre quem devia lá estar”, critica Rita Bastos, presidente da APM.

Dentro do conselho há também vozes críticas, como Ludgero Leote, representante da Associação Nacional de Professores de Electrotecnia e Electrónica, um grupo que conta com pouco mais de mil docentes. Leote foi um dos convidados do penúltimo programa da RTP 1 Prós e Contras e manifestou-se muito crítico em relação ao modelo de avaliação. “Mantenho tudo o que disse sobre o modo como o processo foi desenvolvido e pôs as escolas de pantanas”, diz. Professor há mais de 30 anos, acredita que poderá contribuir com a sua experiência. Mas sem certezas. “Quando o processo está enquinado é difícil fazer prognósticos.”

A mim realmente o que me causa, certamente infundada, estranheza é a data do despacho: 29 de Fevereiro. Porque há coincidências e descoincidências que uma pessoa nota, mesmo não querendo.

A associação representativa da minha área académica de origem até está lá, mas sejamos francos: o naipe disciplinar (es)recolhido é demasiado desconexo.

Mesmo se eu guardo esperanças que  aos discursos do passado recente correspondam actos no futuro próximo que demonstrem a coerência do pensamento de quem tem a idade e a experiência para a ter. à Coerência, claro. E ao pensamento.

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Ou hoje vou descobrir nova ameaça de processo judicial no noticiário da manhã?