Também no Tempo Breve:

A máquina trituradora da comunicação social contra os professores está em marcha. Os comentadores oficiais e oficiosos estão todos de prevenção para acudir aos incêndios. Uns disfarçam mal. Outros vão servis ao assunto. Muitos não sabem do que estão a falar e divagam. Outros omitem. Quase todos debitam as frases assassinas, algumas com meias verdades – mas que por serem meias ludibriam a opinião pública -, que agradam ao governo e protegem a ministra. Para complementar os comentadores favoráveis ao governo, organizam-se, se necessário, programas especiais. Exemplo típico é o “Prós e Contras” que, em duas emissões sucessivas, pega no tema da Educação.

No da semana passada, 25 de Fevereiro, o debate, não tendo corrido de forma especialmente favorável aos professores – dadas as limitações de tempo que lhes foram necessariamente impostas, e dada a heterogeneidade e a desarticulação das intervenções dos professores presentes – , redundou, contudo, num verdadeiro desastre para a ministra da Educação, dada a sua inépcia e a sua incapacidade para explicar seja o que for, a não ser repetir, ela também, as mesmas frases e expressões já gastas. Ora, havia que mistificar essa incompetência da ministra, organizando um outro “Prós e Contras” esta semana, programa que ainda está a decorrer, agora sem a presença da ministra – não fosse ela espalhar-se outra vez -, e, curiosamente também, sem a presença de qualquer representante dos professores em luta. Estas ausências não devem ter acontecido por acaso, claro.

O programa poderia ser, mesmo assim, muito útil, se fosse honesto. Mas não foi. Em vez dos dois lados em confronto, optou-se pela presença de especialistas. Nada tenho contra eles. E, de alguns, até gosto. Mas, pelos intervenientes, viu-se logo que o programa ia ser orientado contra os professores. É que os intervenientes, via-se logo, não iam atacar de forma directa e objectiva a especificidade daquilo que indigna os professores. Iam generalizar. E, depois, lá estava a coordenadora do programa para “puxar” as frasezinhas que lhe interessavam, para “passar” à frente raciocínios que via encaminharem-se para aquilo que ela não queria que fosse aprofundado, para tirar as conclusões que tinha que tirar, fossem quais fossem as intervenções que se fizessem.

E assim foi. Fátima Campos Ferreira funcionou sempre como uma espécie de comissária política do governo e da ministra da educação. Insistiu muitas vezes na expressão de “guerra” que trouxe estudada, e que era a expressão “estado de sítio”, dando sempre a entender que a sitiada era a ministra, coitada, e que os sitiadores – quase saqueadores malfeitores -, eram os professores que não queriam reformas.

Sempre que achava que podia, interrompia o discurso, e perguntava assertivamente se o interlocutor “apoiava”, sendo que o “apoiava” se dirigia sempre à avaliação, sabendo de antemão que toda a gente, a começar pelos professores, apoia a avaliação, mas não este simulacro de avaliação. Mas ela só queria que eles dissessem que sim, sem que entrassem em outros considerandos que poderiam retirar o aproveitamento propagandístico que ela queria dar ao sim.

Não se esqueceu nunca de repetir que, afinal, a avaliação era para ser cumprida até 2009, dando a entender que havia muito tempo, e omitindo sempre que essa avaliação respeita já ao ano de 2008.

Insistiu repetidamente nos sucessos escolares que a ministra reivindica, e que, numa perspectiva burocrática, até são verdadeiros, mas esquecendo-se sempre de como eles têm sido orientados, motivados, pressionados e quase impostos, para ficarem bem nas estatísticas.

A Fatinha, diligente comissária política, como percebeu, ou lhe disseram, que a ministra já não é ministra de facto – porque completamente desautorizada por decisões e procedimentos que desafiam toda a lógica, e que cavaram um abismo intransponível já, entre o ministério e os principais agentes educativos que são os professores – sempre que podia, quase que forçava os intervenientes a dizerem que a ministra não precisava de sair, ou que podia mesmo recuar sem perder a face, ou aceitar a mediação de agentes externos proposta no programa, proposta essa que é a mesma coisa que dizer que a ministra já não tem condições para continuar.

Em síntese, e quanto a esta moderadora-comissária, a ela só lhe interessava vincar que: os professores são uns malandros que provocaram um autêntico estado de sítio; que os professores não querem ser avaliados; que há muito tempo para a avaliação, que vai até 2009; que a ministra não precisa de sair, mesmo recuando, mesmo aceitando uma mediação.

Mas nem tudo correu sobre rodas à senhora diligente. Para tal, basta lembrar algumas afirmações nada convenientes para os propósitos da Fátima, comissária política e bombeira de serviço.

João Lobo Antunes, por exemplo, fala na necessidade de esclarecer e de apaziguar; diz que admira os professores, que o seu exercício de autoridade é delicado, e que estes não podem ser desautorizados; diz que se instalou uma crise de confiança, e que não há confiança para se fazerem as avaliações na forma prevista; diz que há que valorizar o juízo moral do que é ser professor; diz que não se pode avaliar por um diagrama como o que é proposto.

Manuel Vila Verde Cabral afirma que já é tarde para sair da crise; que seria necessária uma experimentação do modelo, que lhe faz lembrar a rede do metro de Londres; que seria no mínimo exigível uma experimentação do modelo, antes da sua aplicação generalizada; que o governo escolheu um braço de ferro demagógico com os professores, demonizando-os, tendo com isso provocado uma coisa que já não é reivindicação corporativa, mas sim uma revolta.
Fátima Campos Ferreira lá foi levando a água ao seu moinho. Os intervenientes não tiveram culpa. Mas tinham que ter ali alguém que objectivasse as verdadeiras razões de queixa dos professores. Mas esse alguém não estava lá.

António Mota
(Escola Secundária D. Maria II, Braga)