Segunda-feira, 3 de Março, 2008


Absolutamente lamentável: a fechar a primeira parte deste programa, Fátima Campos Ferreira faz uma espécie de corrigenda do programa da semana passada, divulgando a posição do Ministério da Educação sobre a questão das sentenças judiciais sobre as aulas de substituição e divulgando a retractação pública do jovem professor revoltado.

De uma coisa tenho a certeza: nunca a vi fazer tal tipo de correcção às manifestas faltas de rigor e outras falsidades veiculadas em outros programas por detentores de cargos políticos.

A partir de agora é exigível que este tipo de comportamento revisionista seja adoptado em todos os programas.

O que temíamos está a acontecer: as sinetas de alarme tocaram e vai valer tudo. E há quem colabore alegremente.

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Interrogado sobre o conflito entre ME e professores e sobre se foi errado o Ministério ter colocado em causa a imagem dos professores Lobo Antunes responde que o «respeito pelos professores é um valor por si mesmo» e «que está acima de qualquer outra coisa».

Por mim, aquela coisa da escolha pelo olhar já está esquecida.

Agora resta saber se o mandatado deste mandatário concorda.

Por mim já não preciso de ouvir mais.

Afinal, este debate vai mesmo – e algo inesperadamente – fazer ricochete. 

Villaverde Cabral quase fez de Arsélio Martins, de tal modo divagou por política, história, sociologia e vários etcs. Ia-me perdendo a acompanhá-lo – embora Fátima Campos ferreira continuasse no seu esforço de telecomandar as respostas.

Vá lá. Percebeu-se que Villaverde Cabral também acha que este modelo de avaliação – «repolhudo » – deveria ser primeiro implementado em pequena escala e só depois generalizado a todo o universo dos docentes.

Afinal, e apesar dos esforços de FCF, há aqui uma primeira plataforma de entendimento: o modelo é complexo, deve ser implementado de forma localizada, para ser testado, ele próprio avaliado e aperfeiçoado, antes de o despejar para cima de todas as escolas.

Não sei se esta é uma conclusão que agrade a quem considerou necessário este detate, para compensar o da passada semana, quase em sentido único.

António Câmara mereceu uma apresentação infindável e algo out of focus a Fátima Campos Ferreira, que quase pareceu em êxtase psico-sensorial na presença do homem.

A intervenção do idolatrado presidente da YDreams foi, contudo, bastante boa.

Antes e mais revelando o quanto estamos afastados, em termos de níveis de exigência no ensino, das melhores práticas lá de fora.  E falou de exig~encia sobre os alunos.

E depois disse o elementar: um esquema de avaliação destes deve ser testado em pequenas unidades, de modo a corrigirem-se imperfeições antes da generalização.

Fátima Campos Ferreira fez tudo para que ele dissesse que o Governo deveria avançar, apesar de tudo, mas ele disse que não. Primeiro testar, depois generalizar.

Luís Palha do grupo Jerónimo Martins afirma que a avaliação é necessária, mas as quotas devem ser instrumentos rígios. A avaliação é necessária, mas este modelo parece algo confuso. Fátima Campos Ferreira tenta empurrá-lo para dizer que o Governo não pode recuar, mas ele não se compromete em excesso.

João Lobo Antunes acabou de dizer, de forma aprovadora, que não sei quem em Harvard escolhia os seus colaboradores «pelo olhar». E acrescentou «e mais não digo» com ar seráfico e sabedor.

Para quando escolher por outros atributos?

Esta gente ensandeceu.

Professor retracta-se de acusação feita no programa Prós e Contras, da RTP

Inspector não recomendou atribuição de nota mínima a alunos da Escola de Ribeirão
O Ministério da Educação reafirma que jamais existiram, ou poderiam existir, orientações que condicionassem os professores na atribuição de notas aos alunos.

O professor Manuel António Magalhães Gouveia Cardoso, da Escola Básica (EB) com 2.º e 3.º ciclos, de Ribeirão, retractou-se da acusação feita a um inspector durante a sua intervenção no programa Prós e Contras, emitido pelo canal 1 da RTP, na passada 2.ª feira, dia 25 de Fevereiro, em carta enviada ao delegado regional do Norte da Inspecção-Geral de Educação (IGE).

Neste programa, Manuel Cardoso acusara um inspector da IGE de ter declarado aos professores, durante uma acção que desenvolveu nesta escola, que “a nota mínima é o 3” [com referência à escala de zero a 5].

A acusação motivou várias reacções, que convergem todas para a falsidade de tal afirmação.

Assim,

o inspector em causa assegura, em carta enviada ao inspector-geral da Educação, José Maria Azevedo, que “não disse, nem poderia ter dito, que ‘todos os alunos deveriam ter nível 3, no mínimo’ ”;

por sua vez, a presidente do Conselho Executivo daquele estabelecimento de ensino, Iolanda Sobral Torres, assegura que “não é verdadeira” a afirmação segundo a qual um inspector tinha pressionado a escola, no sentido de que ‘todos os alunos deveriam ter nível 3, no mínimo’.

Aliás, Iolanda Torres aproveita a ocasião para “realçar o rigor, a competência e o profissionalismo” do inspector durante a acção que desenvolveu na EB de Ribeirão.

O próprio autor da afirmação, Manuel Cardoso, sustenta, no seu texto, que não foi sua intenção “ofender o rigor, a competência e o profissionalismo do Sr. Inspector, pelo que lhe apresento o meu arrependimento, assim como a todos que se tenham sentido lesados”.

Da mesma forma, prossegue, “aproveito a oportunidade para expressar as minhas desculpas pela forma como me dirigi à Exma. Sr.ª Ministra da Educação” (…).

Por fim, o Ministério da Educação reafirma que jamais existiram ou poderiam existir orientações que condicionassem os professores na atribuição de notas aos alunos.

Tudo isto cheia que tresanda aos velhos métodos estalinistas de linchamento público e obrigação dos perseguidos fazerem o seu mea culpa público de todos os pecados possíveis e imaginários.

Mas mais interessante ainda é o aproveitamento que alguns dirigentes da Confap estão a fazer deste episódio e desta retractação, fazendo circular mails onde apresentam este caso como típico dos «professorzecos».

Já recebo vários reencaminhamentos dessas mensagens, com origem num dos  «secretários» da organização.

Por isso é que eu tenho muito receio destes tiros de fogo de artifício que de pouco servem, se não para embaraçar os próprios.

O colega precisa neste momento difícil de apoio e solidariedade, mas nunca escamoteando que o seu acto está agora a justificar uma ofensiva concertada do ME/Confap contra os docentes. E isso não pode voltar a acontecer.

Porque eles virão atrás de nós, abatendo na praça pública todos os que puderem.

E cada vez são mais os colegas que, contactados pela comunicação social, se ficam pelo off the record e com identidade reservada.

Não estou a colocar-me fora da carroça: também eu recusei recentemente a hipótese de uma reportagem sobre o meu quotidiano profissional. Não tanto por mim, mas mais pelos potenciais danos colaterais.

Porque um dos tentáculos do polvo esperneia nestas bandas do deserto, aqui demasiado perto.

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O Conselho Científico para a Avaliação de Professores está constituído. Leio os nomes. Pois, pois claro. As razões podem ser as melhores. Há sempre o argumento do «estar lá dentro» ser melhor do que estar «de fora».

Se no caso das Associações Pedagógicas e Científicas percebo que certos nomes surjam em representação da instituição, já me custa bastante que em nome individual a resistência à tentação não tenha sido mais forte.

Mas não posso dizer que tenha sido apanhado de surpresa.

Quanto às personalidades «de reconhecido mérito», regras básicas de civilidade coíbem-me de verbalizar o que penso.

Chegada por mail

Caros colegas e cidadãos,

Aproximam-se momentos importantes na luta por uma escola pública e democrática.

Os diversos movimentos têm sido o eco importante do profundo mal-estar que reina entre os docentes, conseguindo mobilizar, sem outros apoios nem máquinas aparelhísticas, milhares de cidadãos.

A acção destes movimentos não colide com a dos sindicatos; pelo contrário, se não fosse a acção decidida de grupos de cidadãos empenhados e de milhares de docentes nas ruas, os sindicatos ainda estariam amarrados a pequenas vigílias, sem conseguirem dar expressão à voz de professores e de muitos outros cidadãos.

Neste contexto, seria importante que estes movimentos, independentemente da sua forma de organização, se reunisssem numa Plataforma Nacional e definissem formas de acção conjunta.

Assim, o Movimento Cívico Em Defesa da Escola Pública, convida representantes dos diversos movimentos para uma reunião em Leiria, sexta-feira, 7 de Março, pelas 20.30.

Nesta reunião (2 ou 3 elementos por Movimento) redigiríamos um Manifesto Comum que seria apresentado, discutido e votado numa Assembleia Magna de todos os Movimentos, a realizar no dia 15 de Março, pelas 15 horas, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria.

Pensamos que Leiria é o lugar mais central e adequado para as deslocações dos colegas.

Esperando a vossa resposta urgente,

Movimento Cívico
Em Defesa da escola Pública

Vitorino Guerra
Acácio Bárbara
Fernando José Rodrigues

blogue
http://emdefesadaescolapublica.blogspot.com/

Movimento Cívico
Em defesa da Escola Pública

Porque, dada a urgência dos problemas educacionais de hoje, deverá alguém preocupar-se com a história das reformas educacionais? A julgar pelo carácter a-histórico da maior parte da actual conversa política acerca da reforma, os inovadores devem considerar a a amnésia como uma virtude. E, nas raras ocasiões quando os reformadores discutem a história da escolarização, oferecem normalmente um retrato do passado de maneira politizada, estilizada como uma idade dourada a resuaurar ou como um legado aterrador para ser repudiado.

Qeum queira melhorar a escola é um prisioneiro da história de duas maneiras. Todas as pessoas e instituições são o produto da história 8definida como os acontecimentos passados). E quer estejam conscientes disso ou não, todas as pessoas usam a história (definida como uma interpretação dos contecimentos passados) quando fazem escolhas acerca do presente e futuro. A questão não é se as pessoas usam um sentido do passado na condução das suas vidas, mas quão rigorosos e apurados são os seus mapas históricos: são as suas inferências atentas ao contexto e complexidade? São as suas analogias plausíveis? E como é que compreensões alternativas do passado produzem diferentes visões do futuro.

A história fornece todo um armazém de experiências com pessoas mortas. Estudar essas experiências é barato (o que não é de somenos quando os fundos são curtos) e não usa pessoas (normalmente os pobres) como cobaias vivas. Muitos problemas educacionais têm raízes profundas no passado e muitas soluções já foram tentadas antes. Se algumas “novas” ideias já foram tentadas,e muitas já o foram, porque não ver o que alcançaram no passado?

(David Tyack e Larry Cuban, Tinkering toward Utopia – A Century of Public School Reform. London: Harcvard University Press, 1995, p. 6)

Artigos como este irão suceder-se nos próximos dias. A fundamentação é nula, o dichote descabido a regra. No caso deste opinador a sanha é tal que torna ridícula a sua posição. Como este agradeceríamos alguns mais, pois equivale a algo como um elogio de Valentim Loureiro.

Ao que parece soaram algumas sinetas de alarme, que rapidamente se transformaram em sugestões para que na comunicação social a «janela» de que os professores estão a dispor na sua luta actual se estreite e, em contrapartida, se alargue uma «vaga» em favor da «coragem» e «determinação» da política reformista do Ministério da Educação.

Em contrapartida, irá ser lançada lama, de forma mais ou menos encoberta sobre alguns protagonistas da contestação, sejam eles quem forem, os tradicionais ou outros, individuais ou colectivos.

Não interessa a análise atenta dos dados, apenas interessa provocar, ofender, disparar sobre os pofessores. Traumas antigos ou conveniências presentes, explicam muita coisa. Contra isso há sempre que manter a postura intrínseca à generalidade da classe docente.

O ridículo e a pura e simples má-educação devem estar sempre do «outro lado».

Recebida por mail de várias pessoas preocupadas com estas coisas:

Nos últimos dias Maria de Lurdes Rodrigues foi apoiada publicamente por Albino Almeida, Valentim Loureiro e Valter Lemos. Ao contrário do que se possa pensar este não é um boato posto a circular por professores para causar mais danos à imagem da Ministra.

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(c) Antero Valério

Se eu tivesse vocação para «estabelecer pontes» tinha tirado um curso de Engenharia Civil na Universidade Independente.

Politica educativa para as Associações de Pais e escolas:

* Garantir as condições efectivas para a participação das famílias, através das Associações de Pais, na definição da política estratégica da escola, regulamentando o Estatuto do Dirigente Associativo Voluntário;

* Garantir em parceria com a CONFAP, programas de formação e capacitação parental [sic] para a intervenção qualificada dos pais nos órgãos de direcção e gestão das escolas;

* Criar equipas multidisciplinares para apoio à família que capacitem a escola para intervenção com estas [sic];

* Alargamento do horário da escola, de acordo com as necessidades da família, possibilitando a organização da Componente de Apoio à Família pelas às Associações de Pais [sic];

Hips…

Saber ter razão

Das duas uma ou a ministra se cansou muito depressa do breve intervalo de paz que as circunstâncias lhe concederam ou não percebeu como escapou ao cutelo da remodelação a que se atreveu o primeiro-ministro. Seja como for, aí está ela de volta às hostilidades com os professores.

Medindo a tarefa ciclópica (… e onde é que eu já ouvi isto?) de educar e ensinar os jovens portugueses, muitos dos quais não querem ser ensinados (e ainda menos educados), qualquer alma caridosa não deveria desejar à ministra um tão sinistro destino. Mas lá que ela o merece – ai isso merece!

Na história moderna, e nem por isso honrosa, do Ministério, cujos resultados os portugueses pagam mas não vêem, não pode ser ignorada a comissão de “sábios” que por lá se foi instalando. Não agora, mas desde há anos. Faltava juntar à obra, se é que faltava, a desautorização dos professores, expondo-os ao desrespeito atrevido e ignorante de toda a gente, incluindo pais (eles próprios tantas vezes carecidos de educação e instrução). Foi o que a ministra fez – ou consentiu que se fizesse – alienando os que melhor apoio lhe poderiam dar, os mais antigos, ultrapassados por motivos pouco claros.

Não consigo apartar-me de três ideias primeiro, quem anda por lá a teorizar já esqueceu (se é que alguma vez soube) o que é uma escola; depois, não conhecem limites o autismo e a arrogância dos que nada perguntam, a ninguém ouvem e tudo sabem; finalmente, importantes são as estatísticas para Bruxelas, em nome das quais todas as enormidades se admitem.

Esta ministra, cujo feitio nem sequer nos seduz a reconhecer-lhe a razão mesmo quando ela acaso a tem, deveria aprender com o que aconteceu ao colega que foi queimado em lume brando até que a rua o mandou… para a rua. Sem piedade.

António Freitas Cruz