João Miranda, emérito investigador em algo biotecnológico, bloguista de sucesso e cronista hebdomadário no DN dedica-se hoje, em tom de Sousa Tavares menor, a desancar os professores:

Os professores são infantilizados por um Ministério da Educação que lhes diz o que ensinar, o que valorizar na avaliação, que filosofia educativa seguir e como disciplinar os alunos. São estes docentes que, nas suas intervenções públicas, definem as suas posições através daquilo que não querem. Não querem (esta) avaliação, não querem a autonomia escolar, não querem aulas de substituição. Habituados que estão a que lhes digam o que fazer, nunca declaram o que querem. Nem valeria a pena. Nunca lhes seria concedida autonomia para concretizarem os seus projectos.

O antigo sistema de avaliação servia apenas para promover a mediocridade, mas nunca foi contestado pelos representantes da profissão. São raros os professores que aparecem em público a pedir mais rigor na avaliação da profissão, mais autonomia para as escolas ou mais liberdade de ensino e menos interferência do ministério. Falta aos professores a autonomia individual e às escolas a autonomia institucional para serem eles próprios os agentes da mudança. Ironicamente, o Ministério da Educação quer que estes professores, que não são agentes autónomos na sua própria vida profissional, formem alunos autónomos.

Como em outras ocasiões, João Miranda raramente fundamenta aquilo que escreve em algo mais do que considerandos vagos. Não é apenas sobre a docência, mas como é isso que me toca, incomodo-me mais.

João Miranda acha que o Ministério infantiliza os professores, mas depois protesta porque eles recusam essa infantilização.

João Miranda acha que o anterior sistema de avaliação promovia a mediocridade. Só não percebo porque critica os professores, e não o ME, por isso. Porque se era medíocre o sistema, foi o governo Guterres que o instituiu nunca regulamentando a parte que permitiria diferenciar o mérito. No entanto. João Miranda em nenhum momento se dá ao trabalho de demonstrar a bondade deste modelo.

João Miranda critica os professores por serem pouco autónomos e, em simultâneo, por recusarem os caminhos que lhes são apontados de fora. Certamente nunca leu Régio, num dos seus poemas mais universais mas, em abono da verdade, há muita coisa que João Miranda demonstra não ter lido:

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!