Sábado, 1 de Março, 2008


Duffy, Mercy 

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Mas há quem insista em ver fantasmas. Quem não perceba. Quem insista em agarrar-se aos seus preconceitos. Quem pergunte como que em descuido, «qual foi o sindicato que organizou isto?» Como se não desse nas vistas. Como se milhares de nós não andássemos nisto exactamente porque sabemos que é a nossa vontade, a nossa liberdade que estão a expressar-se e não outra coisa.

Claro que quem não concebe que sejamos verdadeiramente livres de amarras organizacionais, fica confuso, prende-se sem remédio à sua própria forma espartilhada e redutora de ver o mundo e desconfia.

Adenda: O material que me tem chegado para postar é imenso. Amanhã e 2ª feira irei tentando divulgar o que possa. Não é esquecimento em alguns casos, é mesmo falta de tempo.

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Público, 1 de Março de 2008, 1ª página.

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Sol, 1 de Março de 2008, p. 4

Já não há solidariedade ou lealdade que resistam. É o salve-se quem puder. Valter Lemos ao tentar arrasar Benavente esquece-se que ele esteve bem ligado às concepções desastrosas que conduziram ao despacho Normativo 98-A/92. Afinal não era ele um dos elementos da Equipa de Avaliação de Alunos do Departamento de Avaliação Pedagógica do Instituto de Inovação Educacional, autor e co-autor de obra fácil de encontrar destinada a vulgarizar pelas escolas os novos conceitos de avaliação laxista típicos da época?

Esquecer-se-á Valter Lemos que um aluno entrado em 1992-93 (quando o modelo de avaliação foi implementado) no 1º ano do sistema de ensino só chegou em 2000-01 ao 9º ano e em 2003-04 ao 12º?

Será que ele não sabe que os péssimos resultados dos alunos portugueses também são de sua co-responsabilidade?

Ou a memória é selectiva?

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A primeira página é do Público de ontem.

Hoje foi interessante vê-lo na Televisão, na mesa de honra, a apadrinhar um evento confapiano, ao lado do Pai da Nação e a elogiar a Ministra da Educação!

A vida é feita de enganos e desenganos e nem tudo o que parece é, mas será que alguém, em seu perfeito juízo acha que é seguro deixar a Educação, como pretende o novo modelo de gestão, entregue a este tipo de tríade MLR-AA-VL?

Não acham que o Apocalipse, por comparação, até é uma coisa suave?

cavaco1mar08.jpgNão me acusem de cavaquista, mas parece-me que há quem se esteja a apressar a fazer uma leitura apressada da parte em que Cavaco Silva falou em que se devia evitar tornar o clima de tensão na Educação uma questão «político-partidária».

Curiosamente, ou talvez não, eu leio a coisa num sentido diferente: Cavaco Silva parece querer que os partidos se afastem deste tipo de discussão e do movimento de contestação e com isso até concordo. Acho mesmo que a crítica se dirige ao PSD que decidiu, formalmente, apoiar ou aderir a uma greve de professores.

Ora, também acho que este movimento de contestação deve ser deixado fundamentalmente aos professores, pois ele é transversal ao espectro partidário. E terá tanto maior valor, legitimidade e impacto quanto não se deixar instrumentalizar por ninguém.

Será que não concordam com esta possível leitura?

É que o homem tende a ser algo evasivo e críptico nas suas formulações, para evitar pruridos públicos evidentes com Governo e partidos, mas acho que esta minha leitura das suas declarações não será descabida, atendendo ao contexto.

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Umas boas centenas de amigos e conhecidos rumaram hoje até à Praça do Bocage em Setúbal para conviver e fazer algum exercício físico. A tarde estava cálida e a cidade ainda tem os seus recantos agradáveis. Toda a gente gostou de andar um pouco e acenar a quem passava. Alguns turistas estranharam, mas foram informados do que se passava. Assim como os elementos da comunicação social que ali acorreram. Tudo decorreu de forma assinalavelmente ordeira e cívica, como é apanágio da classe profissional ali maioritariamente representada.

Podriam ter sido mais, mas parece que o norte da península de Setúbal se está a guardar para dia 8 de MArço. Pelo menos eu espero ver muitas caras que hoje não fizeram o necessário aquecimento.

As forças policiais zelaram, com enorme simpatia, pela segurança de todos e merecem aqui o nosso respeito e compreensão.

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Viana: Mais de três mil professores numa manifestação com muitos lenços brancos para a ministra

Viana do Castelo, 01 Mar (Lusa) – Mais de três mil professores manifestaram-se hoje em Viana do Castelo contra as políticas educativas do Governo e exigiram a demissão da ministra Maria de Lurdes Rodrigues, acenando-lhe com lenços brancos e dispensando-lhe ruidosas vaias.

O protesto, convocado por SMS (mensagens de telemóvel), começou na Praça da República, onde os professores cantaram, em coro e repetidamente, “Está na hora, está na hora, de a ministra ir embora”.

Durante mais de duas horas, os professores fizeram ouvir as suas vozes de descontentamento pelas ruas da cidade, tendo o protesto terminado frente ao Governo Civil, onde centenas e centenas de lenços brancos voltaram a esvoaçar, exigindo a demissão da ministra da Educação.

“Ao contrário do que parece que está a passar para a sociedade, os professores não estão nestes protestos por todo o País por causa da avaliação e da forma como ela vai ser feita. A avaliação foi apenas a gota de água que fez transbordar o nosso copo. Estamos fartos de medidas mal pensadas, completamente descontextualizadas, e por isso é que tivemos de sair para a rua”, disse à Lusa a professora Fátima Laranjeira.

“Não aguentamos mais esta política, atingimos o ponto de saturação total”, acrescentou a mesma docente.

Cavaco Silva “atento”, com professores a desejarem intervenção de chefe de Estado

A Educação é dos sectores que mais preocupação mereceu no mandato do Presidente da República, Cavaco Silva, que tem apelado ao “diálogo” entre governo e professores, exigindo, simultaneamente, “progressos claros” nesta área sobre a qual diz estar “muito atento”.

Depois da saúde, sector que o Chefe de Estado acompanhou intensamente, fazendo eco das preocupações de utentes e autarcas do interior, face ao sucessivo encerramento de unidades hospitalares, a sociedade civil parece agora voltar-se de novo para Cavaco Silva aguardando que o Presidente assuma idêntico papel em relação à Educação.
(…)
“No que respeita à Educação é seguro e reiterado que Cavaco Silva ‘está atento’ e que ‘ouve’ os portugueses. Falta saber se o Presidente já assumiu que chegou a hora de intervir”, desabafou à Lusa, sob anonimato, um dirigente sindical dos professores.
(…)
No mês passado, à margem das comemorações dos 60 anos do Colégio São João de Brito, em Lisboa, o presidente da República foi confrontado com o protesto dos sindicatos de professores que contestam a forma como o Governo pretende avaliar o desempenho dos docentes.
O chefe de Estado afirmou na ocasião acreditar que tudo poderá ser resolvido com “diálogo” e voltou a garantir que está atento aos problemas da Educação.
Cavaco Silva adiantou que os portugueses não devem ter “a mínima dúvida” de que está a acompanhar a situação nesta área e que espera que as diferenças entre os sindicatos dos professores e o Governo sejam resolvidas com “diálogo” e “respeito”.
Nas suas intervenções, a tónica do Presidente tem sido desejar mudanças efectivas no sistema de ensino, mas defendendo ao mesmo tempo que as mesmas se realizem com estabilidade.

Claro que tudo passa pelo conceito de «estabilidade». Se acharmos que é «estável» lançar um Estatuto do Aluno, um movo modelo de gestão escolar e um novo sistema de avaliação dos docentes a meio de um ano lectivo, para implementar em seis meses (para o bem e o mal, pelo menos em Setembro tudo precisa de estar pronto), então está tudo bem.

Se, pelo contrário, considerarmos que «estável» é reformar a Lei de Bases do Sistema Educativo e depois, em conformidade, lançar as diversas reformas com base em estudos credíveis sobre a sua necessidade e bondade (e não num montinho de gráficos e tabelas), com cronogramas exequíveis (e não alterados pouco depois de decretados) e com uma preparação cuidada em termos de planeamento e formação (essencial nomeadamente no caso das alterações nos modelos de gestão e avaliação dos docentes), então é possível – acho eu – que não estejamos propriamente a viver um período de especial «estabilidade» na educação.

E neste momento é o esforço quase sobre-humano da maioria dos docentes que permite que o trabalho em sala de aula com os alunos não seja prejudicado pela absoluta irresponsabilidade legislativa do ME.

Quanto aos avisos dos «pais» na figura do Pai da Nação relativamente aos protestos dos professores, eu apenas posso dizer que não gosto que lancem sugestões sobre como posso, ou não, passar os meus tempos livres. Por mim, estou-me perfeitamente nas tintas para a forma como ele se entretém nos intervalos do convívio com Secretários de Estado e Majores Valentões.

João Miranda, emérito investigador em algo biotecnológico, bloguista de sucesso e cronista hebdomadário no DN dedica-se hoje, em tom de Sousa Tavares menor, a desancar os professores:

Os professores são infantilizados por um Ministério da Educação que lhes diz o que ensinar, o que valorizar na avaliação, que filosofia educativa seguir e como disciplinar os alunos. São estes docentes que, nas suas intervenções públicas, definem as suas posições através daquilo que não querem. Não querem (esta) avaliação, não querem a autonomia escolar, não querem aulas de substituição. Habituados que estão a que lhes digam o que fazer, nunca declaram o que querem. Nem valeria a pena. Nunca lhes seria concedida autonomia para concretizarem os seus projectos.

O antigo sistema de avaliação servia apenas para promover a mediocridade, mas nunca foi contestado pelos representantes da profissão. São raros os professores que aparecem em público a pedir mais rigor na avaliação da profissão, mais autonomia para as escolas ou mais liberdade de ensino e menos interferência do ministério. Falta aos professores a autonomia individual e às escolas a autonomia institucional para serem eles próprios os agentes da mudança. Ironicamente, o Ministério da Educação quer que estes professores, que não são agentes autónomos na sua própria vida profissional, formem alunos autónomos.

Como em outras ocasiões, João Miranda raramente fundamenta aquilo que escreve em algo mais do que considerandos vagos. Não é apenas sobre a docência, mas como é isso que me toca, incomodo-me mais.

João Miranda acha que o Ministério infantiliza os professores, mas depois protesta porque eles recusam essa infantilização.

João Miranda acha que o anterior sistema de avaliação promovia a mediocridade. Só não percebo porque critica os professores, e não o ME, por isso. Porque se era medíocre o sistema, foi o governo Guterres que o instituiu nunca regulamentando a parte que permitiria diferenciar o mérito. No entanto. João Miranda em nenhum momento se dá ao trabalho de demonstrar a bondade deste modelo.

João Miranda critica os professores por serem pouco autónomos e, em simultâneo, por recusarem os caminhos que lhes são apontados de fora. Certamente nunca leu Régio, num dos seus poemas mais universais mas, em abono da verdade, há muita coisa que João Miranda demonstra não ter lido:

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Educação: Cavaco Silva faz veemente apelo à serenidade de todos os agentes do ensino

Lisboa, 01 Mar (Lusa) – O Presidente da República, Cavaco Silva, fez hoje um veemente apelo à serenidade de todos os agentes do sector da Educação, incluindo Governo e professores, pedindo uma diminuição dos focos de tensão e que sejam emitidos sinais positivos.

A manifestação é um direito constitucional

“A comunidade tem de interessar-se pela escola e não podemos exigir tudo aos professores. A comunidade tem de sentir que a escola lhe pertence”, justificou, antes de advertir que “seria muito negativo que Portugal voltasse para trás no domínio da educação, porque ainda há um longo caminho a percorrer, designadamente contra o abandono e o insucesso escolar”.

Interrogado sobre a forma como tem encarado o actual confronto entre professores e Governo, o Presidente da República começou por salientar que “a manifestação é um direito constitucional, que todos temos de respeitar”.

“Mas, da parte de um Presidente da República, espera-se uma palavra
de apelo à serenidade e para criação de um clima de confiança entre todos os intervenientes”, sublinhou, antes de recordar que esse seu apelo à serenidade e confiança já fez parte da mensagem de Ano Novo que dirigiu aos portugueses.

“Neste momento só tenho razões para reforçar esse apelo”, disse, embora recusando-se a dar a sua opinião sobre os assuntos que neste momento dividem professores e executivo.

“Um Presidente da República não pode dizer muito mais do que aquilo que já disse, porque não deve interferir em matérias que são da competência do Governo, nem tão pouco deve afastar-se do princípio da imparcialidade numa matéria que ganhou contornos de conflitualidade política e partidária”, advogou Cavaco Silva.

A reboque do Presidente da República, e também respondendo ao chamamento do Governo reunido em forma de partido na Guarda na passada semana, o líder da Confap aparece a pedir aos docentes para acabarem com as manifestações.

Inacreditável!

Mas então os professores não se podem manifestar fora do seu horário lectivo, não-lectivo e extra-lectivo?

Não podem encontrar-se ao fim do dia? Aos fins de semana? De forma ordeira e cívica? Não precisando de dar vivas a ninguém defunto para achincalhar adversários?

A quem ponto de hipocrisia e abuso chegámos?

Eu que só por uma ou duas vezes me meti em coisas destas e vão lá muitos anos, não posso admitir que o pai da Nação queira dar ordens aos professores em registo estridente.

Se ele estivesse efectivamente preocupado com o bem-estar das Escolas e com a melhoria do seu funcionamento estaria preocupado com outras questões que não o querer aparecer como o líder das «famílias» e dos «pais», coisa que a generalidades dos pseudo-representados não lhe reconhece. Deveria ser medianamente educado, não fazer sempre a vontade a quem subsidia as instalações da sua organização e aprova anualmente os seus planos de acção. Isso seria um sinal de independência.

Estamos no nosso tempo livre. E prescindindo de algum tempo com a família ou levando-a connosco está no nosso direito manifestarmo-nos, desde que, como sempre pedi, mantenhamos uma postura cívica irrepreensível.

Quanto ao resto, neste momento a necessidade de actos positivos (e não só de sinais) está toda do «outro lado». E pelo que se percebe, o PS está perfeitamente partido e desorientado quanto ao que fazer. A voz do Grande Líder parece que já não chega a todo o lado e muito menos consegue unir todas as sensibilidades até há pouco acomodadas ao desfrute do Poder. Resta o contra-ataque estatístico selectivo.

E ao que parece já há quem ache, como Vítor Ramalho, que os professores se tornaram um «exército muito unido» e que «não estamos somente perante uma reacção sindical. Há uma reacção corporativa dos professores com uma base alargada».

Ainda bem que notaram isso.

Já fazia tempo.

Hoje. Em Braga. A partir das 21:30. Foram chegando. Abraços apertados com anos de espera. Velhos amigos. Velhos conhecidos. Surpresas enormes. Sorrisos. Chegavam em grupos. Chegavam sozinhos, mas logo alguém chamava. As pessoas juntavam-se aos seus pares de escola. Aos conhecidos de outras escolas. Uma sinceridade. Uma afectividade. Que há muito não se sentia. Sentiam-se gente. Pessoas. Uma catarse que fez tão bem. Afinal, estavam ali todos. Só não estava quem não pode mesmo. E os que não estavam porque estão do outro lado, não fizeram falta nenhuma.
Primeiro, na Avenida Central. A praça grande pareceu pequena. Subindo o rebordo do chafariz ao centro, via-se em redor a multidão a encher a praça. A transbordar pelas ruas que lá iam dar. Uma alegria. Braga estava unida. Braga estava cheia. Braga estava pacificamente e alegremente na rua. Depois um desfile informal sem palavras de ordem. A hora era de contar histórias. De lembrar tempos. De lembrar colegas. Nem se sabia bem até onde era o desfile. Também não era preciso. Estava-se unido. Estava-se ali. Isso é que interessava. E assim se chegou à Praça do Município. Encheu-se. Transbordou para as faixas laterais do jardim. A toda a volta. Só um cartaz grande. Alguns em A4. Não houve discursos. Palavras de ordem, só duas: A luta continua, ministra para a rua; a escola não é tua, ministra para a rua. Também o canto já conhecido: Vai-te embora, vai-te embora, vai-te embora, vai-te embora.
Eram milhares. Num cálculo por defeito, aí uns cinco mil. Mas acho que seriam mais. Rostos calmos. Rostos contentes. Pessoas felizes. Porque, afinal, cada um viu por si que não estava só. Muita esperança. Ainda se acredita.
Foi lindo de morrer ver professores reformados, alguns já bem velhinhos, saírem à rua com a alma viva de professores que foram. De professores que são. Foi lindo de morrer ver os professores mais velhos, do último escalão, ali em peso, com a alma viva de professores que querem continuar a ser. Foi lindo de morrer ver os professores mais novos achegar-se aos mais velhos, seus antigos professores, abraçando-os numa cumplicidade solidária de gerações, fazendo questão de mostrar-lhes que também estavam ali.
Obrigado colegas. Obrigado amigos. Obrigado alunos. Estávamos a precisar disto. Para não enlouquecermos.
Obrigado, colegas de escola. Foi tão bom ver-vos. Nem imaginam. Obrigado colegas de escola por terem tido a coragem de serem solidários manifestando publicamente o vosso descontentamento, bem antes de saberem que o protesto dos professores se ia generalizar. Aquele abaixo assinado que fizeram pôs-vos na linha da frente.
Eu pedi já aqui, antes de tudo isto, a demissão da ministra. Com o “Prós e Contras” de segunda-feira, percebeu-se bem que a ministra não tem condições algumas seja de que espécie for, para continuar ministra. Só não percebeu quem não quis. As manifestações públicas dos professores, em várias cidades, têm provado isso mesmo. E hoje, em Braga, isso foi muito claro. Já não há ministra. Ela pode lá estar. Mas já não o é.
Obrigado colegas. Vemo-nos em Lisboa no dia 8 de Março.

António Mota
(Professor na Escola Secundária D. Maria II, Braga)

Um documento em forma de carta aberta aos professores. Agradeço á Ana o envio, pois penso que ainda não tinha colocado aqui este documento (amora.pdf).

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Apesar de tudo o Expresso não pode deixar de acompanhar o que se passa e a peça jornalística das páginas centrais faz os possíveis por captar um alvo em permanente movimento.

Na parte que me toca só gostaria de declarar que não organizei «parte da contestação de rua dos professores» a partir da minha casa. Não tenho esse poder e são outros que merecem a maior parte dos louros. Para que não se pense que eu quero calçar os sapatos que pertencem, com todo o mérito, a outros bem mais activos. E na blogosfera há espaços com uma função igualmente importante, mesmo se com registos diversos, como o Anterozóide, A Sinistra Ministra, O Cartel, o Terrear e tantos outros que injustamente aqui não estou a nomear. Porque, como já disse a quem me perguntou, sou melhor a escrever que outra coisa. E o que tentei (e tento) fazer foi, nos últimos tempos, verbalizar o descontentamento que oiço nas conversas do dia a dia. Se isso fez com que outras pessoas sentissem retratada parte da sua insatisfação e isso as impeliu para se reunirem e contestarem de forma mais activa e criativa as política do ME, tanto melhor.

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 (o tal dia e a evolução mensal dos últimos dois anos de Umbigo)

Canso-me a ler as prosas de Fernando Madrinha e Henrique Monteiro sobre Educação. Com o tempo fiquei a perceber que Madrinha até percebe algo do assunto, mas numa perspectiva de topo de carreira com boa auto-imagem e que Monteiro não percebe grande coisa e fala sem qualquer tipo de fundamentação que não seja a leitura de jornais.

Ambos admiram a Ministra e se ela caísse parece que seria uma parte deles que cairia com ela. Farão tudo para a manter, ao lado de José Sócrates, mesmo se Madrinha faça isso num ziguezague argumentativo cada vez menos coerente com o que escreveu há meses, enquanto Monteiro escreva completamente ao lado dos assuntos (mesmo aqui, onde é menos crítico dos «profs»).

  • Fernando Madrinha aconselha a Ministra a uma espécie de mini-retirada táctica, em nome da estratégia global, que ele continua a achar acertada.
  • Henrique Monteiro clama por exames, qual Paulo Portas com aspecto mais ponderado. Não é bem do que se trata aqui, muito menos na fórmula simplista que Monteiro usa para defender os exames. Exames com que, por acaso, eu até concordo. Aliás, e como já escrevi, que concordo para a própria análise do desempenho dos professores, num modelo de provas públicas para acesso à profissão e a qualquer tipo de categoria específica diferenciadora na carreira (seja para titular ou para um outro tipo de diferenciação de tipo vertical/funcional).

No fundo, Madrinha e Monteiro observam as escolas públicas de uma posição privilegiada. Ambos têm uma leitura globalmente preconceituosa do mundo dos docentes que, salvo as excepções naturais de amigos e familiares, naturalmente «bons professores», encaram como um mundinho onde labutam semi-profissionais, docentes por acaso, gente que falhou outras vocações, aqueles que não chegaram a ser outra coisa.

O que não percebem, e começo a desistir de acreditar que um dia percebam, é que essa atitude de sobranceiro paternalismo está, logo a seguir à estratégia de cilindro compressor legislativo do ME, na origem da nossa revolta e profunda sensação de injustiça e desrespeito.

De certa forma também é contra eles que muitos professores «berram», na forma algo infeliz que Monteiro usa para designar os protestos que, claro, obviamente, também ele vê apenas pelos olhos do ultrapassado binómio ME/Sindicatos. Porque lhe é mais cómodo.

(digitalizações das respectivas prosas para mais logo)

Pela Educação é preciso educar os sindicatos

(…)
Correia de Campos já faz parte da história e agora as manifestações, convocadas por sms ou trabalhadas com afinco pela Fenprof, são dirigidas contra Maria de Lurdes Rodrigues. Para a semana está marcada uma hiper, mega, gigantesca manif contra a ministra. A verdade é que muitos professores e muitos dos seus familiares não gostam que lhes mexam com a vida.

São anos e anos em auto-gestão. Com professores a faltar e os alunos a gozar o furo sem nada aprender e nada fazer. As aulas de substituição são já um dado adquirido, mas há bem pouco tempo havia gritos sindicais, atrás de gritos sindicais, contra a blasfémia ministerial.

Aliás, até uma boa medida como a estabilidade na colocação dos professores mereceu criticas dos sindicatos. Sempre que se pede aos professores que se adaptem ao novo mundo, pode até acontecer que a maioria dos docentes esteja disponivel para a mudança, mas os sindicatos é que não estão, nem estarão, para aí virados.

Sobre a mais recente polémica com a avaliação dos professores, a maioria dos que são bons está a favor e não quer mais adiamentos provocados pela desculpa de que o sistema não é perfeito.
(…)
A FNE quase desapareceu do mapa mediático e a Fenprof controla a seu belo prazer os medos da classe. Quem os ouve acredita que o Estado anda a olhar para os professores como bandidos. Cria-se a ideia de que existe uma perseguição sem sentido aos docentes e eles ficam mais disponíveis para o protesto. (Paulo Baldaia, Director da TSF)

É legítimo e salutar existirem opiniões divergentes, concorrentes e mesmo completamente contrárias.

Há, porém, um certo dever de conformidade de elaborar raciocínios e argumentos com base em pressupostos sólidos. A esse propósito Desidério Murcho escreveu um excelente texto há umas semanas no P2 do Público que não cheguei a ter oportunidade de postar.

Quanto a este texto, globalmente assombrado por fantasmas, Paulo Baldaia parte de vários pressupostos errados de que isolarei apenas três:

  • Não são anos e anos de auto-gestão. Provavelmente Paulo Baldaia desconhecerá o espartilho regulamentador que tolhe a vida das Escolas tanto quanto à sua gestão global, como quanto ao trabalho individual de cada um de nós. Ele não sabe que, como Director de Turma, eu tenho de preencher ao longo do ano dezenas de impressos, elaborar relatórios, reunir-me com Encarregados de Educação, tudo de acordo com um figurino normativo em permanente evolução. A minha margem de autonomia mesmo na sala de aula cada vez foi mais reduzida, porque me tentaram transformar num autómato ao serviço de regulamentação superior. Paulo Baldaia terá andado na escola pelos anos 70, talvez um pouco antes de mim, e recorda-se desses tempos e pensa que ainda é tudo assim. Não, está enganado, nessa altura as coisas eram assim. Agora não são. Pena que quem agora opine e legisle ainda não tenha conseguido arrancar do seu espírito memórias localizadas e datadas no tempo. Em alguns casos até foram professores nesses tempos e poderão pensar que todos agem como eles agiram.
  • Paulo Baldaia parece lutar contra o fantasma dos sindicatos, em especial da Fenprof, que acusa do maior imobilismo e responsabiliza pelo actual movimento de contestação dos docentes. É trágico que um jornalista, profissional de há muito da comunicação social incorra num erro tão básico e demonstre de forma tão clara a sua extrema parcialidade. Baldaia não quer perceber, ou não percebe mesmo, que esta contestação nasceu à margem do movimento sindical. E de início com a sua desconfiança. Acredite. Basta perguntar a quem animou os vários focos da fronda das últimas semanas. Faz parte do seu ofício. Não se devia acanhar em saber. Porque a estratégia dee colocar os sindicatos e a Fenprof como bicho-papão serve apenas os interesses de quem quer assustar os mais temerosos e tentar desmobilizá-los. Claro que um jornalista tem direito à sua opinião como cidadão, as deveria fundamentá-la melhor que o comum dos mortais pelo seu acesso rpivilegiado á informação disponível.
  • Paulo Baldaia acha ainda que os «bons professores» querem esta avaliação e que ela avance. Seria interessante saber em que amostra baseia a sua opinião e, mais interessante, como é que ele consegue identificar tão facilmente os bons professores. Porque se Paulo Baldaia tem essa capacidade inata de distinguir o trigo do joio, deveríamos cloná-lo e mandá as suas réplicas para as escolas avaliar os 150.000 docentes nos próximos 15 meses. Dava-nos imenso jeito e libertava muitos de nós para fazermos aquilo que é a nossa missão fundamental: servir a Educação do nosso país.

Mas, mesmo para finalizar, aquilo que mais me entristece é que se continue a caracterizar este movimento de contestação, procurando desesperadamente fazê-lo encaixar em esquemas mentais rígidos e incapazes de adaptação.

Paulo Baldaia afirma que «muitos professores» não gostam que se lhes mexa na vida. No caso dele, parece ser maior o incómodo quanto à possibilidade de lhe mexerem nos preconceitos intelectuais.

 

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Tudo bem se, ao não cair agora, arrastar tudo daqui por ano e meio. Será mesmo que José Sócrates será capaz de sacrificar a sua imagem e o seu poder a outrém?

Para mais, e depois de duas experiências de cores diferentes, finalmente o eleitorado dá sinais, em várias consultas de opinião, de estar avesso a novas maiorias absolutas. Uma conclusão a que eu já cheguei há muito e de  que o argumento da «governabilidade» não me demove. A Itália é uma potência incomparável connosco e troca de governos e coligações como eu troco de camisolas num dia de Verão.

Eu acho que esta é mais uma mensagem de confiança que tanto pode ter o destino do voto de confiança a todos os Ministros no início do ano como do apoio repetido a Correia de Campos.

É uma forma de consolar alguém que já sabemos que ficará nos anais da governação educativa nacional como responsável por alguns dos maiores equívocos, independentemente da «determinação» ou da «coragem».Basta ver que tipo de imagens se usam agora na comunicação social para retratar MLR.

Quem vencerá: a teimosia ou a ambição? Em qualquer dos casos é uma questão de gestão do Ego.

Ministério vai abrir concurso extraordinário para titulares

O Ministério da Educação vai abrir um concurso extraordinário para os professores do 10º escalão que não conseguiram os 95 pontos para alcançarem a categoria de titular. Normas e requisitos do concurso serão idênticos ao anterior excepto uma, explicou ao JN o secretário de Estado adjunto da Educação, Jorge Pedreira todos os cargos e actividades exercidos durante este ano lectivo também serão contabilizados. Ou seja, serão analisados oito e não os últimos sete anos de carreira.

Não chega, porque os colegas sabem que já não têm margem de progressão e porque o acesso a titular apenas irá torná-los servos das directrizes ministeriais pois, caso não aceitem os cargos a distribuir com enorme carga burocrática e dependentes do tal Director e do Conselho Geral dominado por quem não se sabe, poderão ser passíveis de procedimento disciplinar.

Pior: a sua avaliação no desempenho desses cargos ficará a cargo de colegas não-titulares visto que o futuro Director Executivo poderá ser alguém quase em início de carreira, desde que traga um certificado de estudos em Administração e Gestão escolar e tenha o beneplácito do poder que passa a dominar o Conselho Geral das Escolas.

Por isso mesmo, este concurso extraordinário para os colegas do 10º escalão deveria ficar vazio, completamente vazio. Como o concurso para Professor do Ano.

Nada oferece aos destinatários, pois a sua remuneração continuará a mesma e as responsabilidades aumentarão, sem que isso tenha qualquer vantagem para o seu trabalho com os alunos, muito pelo contrário. Resta-lhes perceber isso. Mesmo aos que adesivaram à Situação.

Braga: 3.500 professores em vigília

Braga, 29 Fev (Lusa)- Um total de 3.500 professores do Minho, vestidos de preto e empunhando velas, concentrou-se hoje à noite no centro de Braga, numa vigília de protesto exigindo a demissão da Ministra da Educação.
Os docentes, oriundos de todo o Distrito, começaram a concentrar-se às 21:30 na zona da Arcada. Logo que o seu número aumentou, desfilaram pelas ruas do centro histórico, rumo ao edifício da Câmara Municipal de Braga, onde, acenaram com lenços brancos, dizendo: “Está na hora! Ministra vai-te embora!”.
“Exigimos a saída da Ministra e a mudança das políticas educativas, que afrontam os professores pondo-os contra os pais e a sociedade”, afirmou à agência Lusa, Osvaldo Santos, professor em Guimarães, no meio de um grupo de colegas que manifestava concordância com a sua opinião.
Uma outra docente, Natália Gomes, sustentava que “o actual Governo venceu as eleições com o voto de muitos dos professores que hoje o contestam”, vaticinando que tal não voltará a suceder.
“Com o nosso voto não regressam ao poder”, comentou a mesma professora.
A maioria dos professores presentes, ouvidos pela agência Lusa, dizem que nas escolas se vive “um estado de grande desilusão” que se está a transformar em “espírito de revolta”.
“Vamos todos a Lisboa à manifestação de 8 de Março”, afirmam.

Educação nega ter condicionado notas

O professor Manuel Gouveia Cardoso, da Escola Básica 2/3 de Ribeirão, “retratou-se” da acusação que fez a um inspector da Educação durante uma intervenção no programa da RTP “Prós e Contras”, emitido no dia 25 de Fevereiro, afirmou, ontem à noite, em comunicado, o Ministério da Educação.

Há uma linha fina que não se deve ultrapassar quando queremos passar a nossa mensagem para a opinião pública. Antes de mais devemos ser rigorosos, agir com a cabeça e não com o coração, saber que podemos fundamentar o que afirmamos com documentos ou testemunhos, nunca avançar para a terra de ninguém em nome de um efeito de estilo apelativo.

A «coragem» é muito relativa. E pode ser motivo de baixas desnecessárias. Há corajosos abatidos que de pouco servem. Este colega foi um deles, infelizmente. Deixou-se dominar pela emoção, quando neste momento não é isso que é necessário. Era necessário naquele debate descompensar o adversário, não o contrário.

Há quem me acuse de ser demasiado agarrado aos livros, relatórios, leis, dado a tiradas «eruditas», quando o que é necessário é «acção».

Ora eu acho que o principal é definirmos o que entendemos por «acção». Porque a metralha desgovernada pode fazer ricochete. E eu não gosto de dizer ou fazer nada de que depois me seja obrigado a retractar.

Quando vierem atrás de mim, quero ter a certeza que têm uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.