Esta é uma nota quase lateral, mas um pouco necessária como introdução ao que gostaria de escrever sobre este movimento de contestação genuína que se vive pela primeira vez em Portugal em muito tempo.

No Público de hoje, na página 2, em bom artigo da jornalista Isabel Leiria, percebe-se como tudo isto apanhou quase toda a gente de surpresa e ainda agora andam à procura de um rumo e um sentido conhecido para enquadrar o que se passa.

A certa altura lê-se que (sem link permanente):

Inicialmente promovidos por sindicatos afectos à Fenprof (à excepção da concentração no Porto, convocada por SMS, mails e blogues, sem que se tenha tornado pública a sua origem), os protestos têm ganho dimensão com ajuda da promoção feita em páginas na Internet dedicadas à educação e ao “passa SMS” entre milhares de colegas que se sentem “atacados” como nunca.

Ora, se bem me lembro, e até acho que me lembro ou conheço razoavelmente bem o que se passou em dois ou três dos primeiros núcleos de contestação, em nenhum momento os protestos foram promovidos por este ou aquele sindicato.

A análise que é feita está errada, não percebendo bem porquê, pois seria relativamente fácil seguir a cronologia dos acontecimentos (a que está no artigo parece desconhecer que as coisas não nasceram a 16 de Fevereiro no Largo do Rato), através do contacto com as pessoas envolvidas. Aliás, é estranho que alguns dos protagonistas que foram ouvidos (em especial dos núcleos das Caldas da Rainha e Leiria) realcem exactamente a independência dos movimentos e depois se escreva que tudo começou com a partir de acções sindicais.

Mais curioso ainda é o recurso a Manuela Teixeira, alguém com uma longa carrerira no establishment sindical mais sereno e ordeiro, +ara explicar o que se passa neste(s) movimento(s).

Ou seja, até quem acompanha jornalisticamente a Educação há muitos anos parece ter sido ultrapassado pelos acontecimentos e, perante as ondas revoltas, parece querer ancorar-se em pontos seguros e conhecidos.

O mesmo se parece passar com o presidente do Conselho de Escolas que, na sua abordagem do fenómeno prefere desvalorizar o que se passa, por perceber que os professores não se sentem minimamente representados pelo organismo a que preside e cujas opiniões o ME recorta a seu bel-prazer.

Álvaro dos Santos, presidente do Conselho das Escolas, admite que a contestação é “inelutável”, mas, pessoalmente, considera que alguma está a ser “empolada”. Como presidente deste órgão consultivo garante que vai continuar a “fazer tudo para que as escolas tenham condições efectivas para fazer bem o seu trabalho”.

Para o seu próprio mal, há quem não perceba que se virou uma página de uma história que cada vez se ia mais acinzentando em termos de movimentos de contestação social. Há quem se agarre ao passado para se sentir seguro.

E assim se vê quem tem receio da mudança e da inovação.

No que isto poderá dar? Em algo de completamente diferente do que conhecemos na nossa história recente, assim todos os interessados percebam que o sucesso depende da liberdade, independência e genuinidade do que se passa e que o importante é a redescoberta do orgulho de ser professor, como profissional e cidadão, e que essa identidade se faz promovendo a confluência de muitas diversidades, sem aproveitamentos particulares.

E tendo sempre presente que devemos ser nós a dar os bons exemplos.