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É certo que Pacheco Pereira deu sempre algum espaço – embora sempre tacticamente doseado – a alguns desabafos de professores.

Mas como muitos foi sempre daqueles que se debruçaram mais sobre a forma (comunicacional) da acção da Ministra da Educação e seus Secretários do que sobre a sua substância.

Como muitos, reagiu pavloviamente, aos chavões de «mérito», «rigor», «autonomia», «abertura à comunidade», «avaliação», «reforma», «mudança».

O Governo e o ME tocaram uma modinha agradável e eles dançaram com gosto.

Como muitos, quase sempre achou que as reformas anunciadas e despejadas sobre as escolas eram naturalmente boas, o problema estava na comunicação. Curiosamente, muitos dos que criticavam o excesso de diálogo do guterrismo foram dos primeiros a lamentar que tão corajosa e determinada Ministra fosse tão desastrada a explicar a sua acção. Também curiosamente, muitos deles eram os mesmos que achavam que José Sócrates e o Governo eram excelentes máquinas comunicacionais.

Mas raramente leram as reformas, pensaram sobre elas, tentaram entender se estavam ajustadas à realidade ou correctas na sua calendarização. Dificilmente perceberiam o que implicariam para o trabalho quotidiano nas Escolas.

Por regra, menosprezaram os professores como «semi-profissionais» qualificados; em muitos ambientes (da política ao jornalismo, das profissões liberais mais afamadas ao mundo académico) os professores do Ensino Não-Superior são aqueles que não foram outra coisa, por falta de «mérito» ou de capacidade de trabalho.

Muitas vezes parecem ter-se esquecido que as pessoas singram de acordo com as suas prioridades, interesses, ambições e oportunidades. Quem nem todos podem querer ser o que outros são. Que quase todos os críticos seriam incapazes de ser professores do Ensino Não-Superior por falta de competência, paciência e capacidade de trabalho. Muitos críticos dos professores atribuíram-lhes os vícios e defeitos que viam reflectidos nos espelhos em casa. Só que como se sentiam profissionais de «maior sucesso», nunca pensaram questionar o seu modo de vida.

Claro que, depois, quando os professores se fartaram e começaram a revoltar, voltou logo uma imensa argúcia analítica. Quando os protestos inundam as ruas e os professores se mobilizam como nunca, são muitos os que – em vez de admitirem a sua sobranceria e erro de cálculo – tentam surgir a cavalgar a onda, a explicar a onda, a diagnosticar a onda, a mostrarem-se mestres na arte de evitar uma nova onda.

Está bem.

Ao contrário deles, os professores não se incomodam muito com isso e acolhem-nos, com natural bonomia. Embora saibamos distinguir verdadeira fé de mero oportunismo.

No caso de Pacheco Pereira só ele saberá se é mesmo lagarto, se camaleão.

(imagens da crónica na Sábado de ontem)