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O editorial de hoje do Público merece uma leitura atenta pela forma algo ambígua como coloca a questão do conflito entre professores e Ministério da Educação, encarnado na figura de Maria de Lurdes Rodrigues (embora seja injusto esquecer aqui o papel dos dois Secretários de Estado, mais do que meros figurantes nisto tudo).

Por um lado Manuel Carvalho acha que a Ministra até tem boas ideias, que é corajosa e que defende reformas necessárias, mas por outro conclui pela inviabilidade da sua permanência na 5 de Outubro.

À questão final do texto «Talvez a ministra acabe o mandato. Mas valerá a pena?» eu respondo com o título deste post.

E porque acho que a alma foi pequena?

Porque o Ministério da Educação, de que MLR assumiu o rosto por comodidade e estratégia política do Governo, preferiu sempre afrontar os professores a trabalhar com eles. Sempre lhes apontou o dedo como culpados (de absentismo, do insucesso escolar, de uma má gestão dos estabelecimentos de ensino) de coisas pelas quais não eram responsáveis ou, na generalidade das situações, por fenómenos que foram apresentados de forma distorcida (os números do absentismo foram manipulados, as causas do insucesso escolar não se resumem à avaliação do docente e a gestão das escolas é Boa ou Muito Boa de acordo com todos os relatórios da IGE).

Essa estratégia esteve errada.

Assim como muitas das reformas «necessárias» estão erradas. E não estão erradas por embirração minha ou de mais de 100.000 professores. Estão erradas porque derivam da aplicação de modelos teóricos pouco compatíveis com a realidade portuguesa, mal planeados e implementados de forma atabalhoada, como um patchwork em permanente processo de remendo. Basta relembrar a sucessiva alteração de regras no concurso para professores-titulares ou de prazos no actual processo de avaliação dos docentes.

É ridículo o ME aplicar à simplicação de um processo que foi a tutela a criar e não as escolas ou os professores.

Mas há mais: a coragem não é um valor por si mesmo. Ou a determinação. Ou o reformismo. Tudo isso vale se aplicado ao serviço de políticas correctas. Quantos políticos determinados ou corajosos levaram as suas nações à tragédia. E quandos espíritos renovadores fracassaram por terem escolhido caminhos equívocos.

O que a comunicação social deveria fazer, em vez de embadeiras os chavões fáceis da «autonomia», «avaliação» e «mérito», era escrutinar as propostas ou leis do Ministério e tentar perceber se:

  • respondem a necessidades evidentes,
  • estão baseadas em estudos fundamentados,
  • são aplicáveis à nossa realidade,
  • estão bem planeadas,
  • existe um cronograma exequível para a sua implementação,
  • (vários etc’s, que aqui não vou estender)

Porque será que na segunda-feira até os «prós» disfarçaram que o eram? Porque será que João Formosinho foi uma não-entidade no debate? Porque será que Albino Almeida se declarou o maior amigo dos sindicatos e professores, apenas não presindindo de reclamar a sua nova parcela de poder? Porque ninguém, entre os presentes, apoiou as medidas minsiteriais?

Os professores estão assim tão errados?

Os professores não querem mudança?

Nada de mais errado. Queremos mudanças para melhorar a situação de todos, a começar pelos alunos. Este modelo não visa esse objectivo, a menos que tomemos estatísticas de consumo rápido por sucesso efectivo.

Será que só a tríade ministerial e alguns milhares (calcularei em menos de 5% a olho nu) de docentes estão satisfeitos?

Manuel Carvalho dá a resposta a muitas destas questões quando escreve:

Maria de Lurdes Rodrigues perdeu há muito o seu capital mais precioso nas escolas: os professores cansados de uma escola resignada e caduca, os professores que exigiam mudanças drásticas, que reclamavam autonomia, avaliação, reforma e ambição. Depois de o episódio dos professores titulares lhes ter sugerido que a cartilha reformista da ministra era errática e falha de coerência, começaram os primeiros sinais de séria contestação.

Mas muitos de nós não dizemos e escrevemos isso há 3 anos? Porque não acreditaram na nossa palavra? É que nós estamos no terreno, não estamos nele para enganar ninguém e não prometemos para, em regra, não cumprir e depois lançar as culpas para os outros.

Todos os dias damos a cara perante dezenas e centenas de alunos.

Quantos profissionais qualificados estão sujeitos a essa avaliação quotidiana?

Quantos daqueles que nos criticam seriam incapazes de aguentar uma manhã de seis horas de aulas?