Não gosto apenas de alinhar opiniões com as quais concordo. Pelo contrário, gosto de expor e contraditar aquelas de que discordo, em maior ou emnor grau.

Entre ontem e hoje li três textos com os quais discordo em grande parte, sendo que a argumentação de todos eles é muito parecida.

Falo de um artigo de opinião do sociólogo Paquete de Oliveira no JN com o título «A Escola não é dos Professores», do editorial de José Manuel Fernandes no Público de hoje, assim como o artigo «A nossa vergonha» de Luís Campos e Cunha na mesma edição deste jornal.

Um dos artigos tem link já assinalado, os outros ficam em imagens digitalizadas à pressa:

lcc22fev08.jpgjmf22fev08.jpg
É óbvio que não consigo num só post articular uma desmontagem completa de cada um dos artigos, para mais porque eu tenho sempre o mau hábito de, para além das ideias, analisar a circunstância dos autores. Se acusam os docentes, ou a mim em particular, de ser «corporativo» e de ter as opiniões que tenho por ser professor (o que até é um elogio), não percebo porque não é possível reverter a lógica e tentar perceber a coerência e eventuais factores explicativos de quem, do exterior, opina sobre a Educação, qual treinador de bancada.
Por isso ficarei apenas por uma consideração geral e três observações particulares, guardando para depois uma abordagem mais detalhada.
  • A consideração geral é simples: estes três opinadores têm uma aparente crença ingénua nos poderes redentores da intervenção municipal na área da Educação, mesmo quando colocam reservas ao seu desempenho em muitas outras matérias (JMFernandes). De forma concomitante, parecem pressupor que os pais e encarregados de educação estavam, até ao momento, arredados de uma participação activa na vida das escolas, o que demonstra bem até que ponto vai o seu desconhecimento sobre a matéria.
Agora as três observações particulares, ad hominem ou fulanizadas:
  • Paquete de Oliveira, até pela sua experiência recente como «Provedor» na RTP deveria cuidar mais da forma como analisa a participação pública dos vários intervenientes neste processo, pois acusa os sindicatos e os professores de fazerem um «ruído ensurdecedor», elogiando em contrapartida o desempenho de «pais» e «comunidades locais» (o que quer que isto signifique em termos práticos). Parece que Paquete de Oliveira, para além do mais sociólogo, andará desatento às intervenções públicas dos diversos «beligerantes» (termo por si usado), o que é tanto mais estranho num provedor da televisão pública, onde se deram debates sobre a matéria, alguns dos quais sem participação sindical e apenas com ME, «pais» e um senhor professor/director de uma ESE (lembro-me em particular de um programa na RTP2 da Fernanda Freitas). Parece pois queenquanto opinador, o sociólogo Paquete de Oliveira tem uma posição clara em relação aos méritos de cada uma das partes em confronto, o que é estranho para alguém com o estatuto de provedor da RTP e faz temer sobre qual seria a sua posição se fosse instado a pronunciar-se em questões relativo ao tratamento diferenciado dado pela televisão pública a sindicatos, «pais» e «comunidades locais».
  • Quanto a J. M. Fernandes é coerente com a sua actual fé liberal, apenas sendo pena que para a fundamentar caia várias vezes em erros factuais ou adjectivações supérfluas. As suas observações sobre o sistema de colocação de professores são resultantes de uma imensa ignorância sobre o assunto, em especial a parte em que fala da necessidade de violar a lei para ultrapassar o «famoso problema informático» de 2004. Considerar «esclerosado» o rebrilhante Estatuto da Carreira Docente aprovado há um ano pelo ME é risível, assim como o «colete de forças» salarial, quando o Ministério clama que agora é que pode diferenciar os professores pelo mérito, até prometndo prémios pecuniários para isso. Ou JMF escreveu despreocupadamente à la Sousa Tavares, ao correr da pena sem atenção aos detalhes, ou então está manifestamente mal informado.
  • Já o caso de Luís Campos e Cunha é mais estranho. Ao que parece, LCC só ao fazer parte do júri de uma tese de mestrado acedeu a dados sobre a Educação sujo conhecimento é corriqueiro. Claro que os leu mal, ou então leu quem os leu mal; ou no mínimo de forma muito selectiva. Mais interessante é o facto de LCC evocar a experiência da instituição superior onde lecciona para validar algumas medidas do Governo nesta matéria, chegando mesmo a referir uma possível avaliação dos professores pelos alunos. O que parece deixar de lado é a hipótese de, por exemplo, o Senado da sua Universidade passar a ser dominado pelo poder local e pelos ditos alunos e respectivas famílias, que é a solução usada pelo ME para o Conselho Geral das escolas. Nem aborda a possibilidade do Director da sua Faculdade ou o reitor da Universidade Nova ser encontrado por concurso público. Porque LCC até acha que os professores nem deveriam ter direito a voto em algumas matérias relacionadas com o funcionamento da Escola. Claro que a Universidade é todo um outro mundo. Divertido, divertido (ou talvez não, se ele se aposentar antes) será vê-lo a dar aulas aos futuros frutos deste novo sistema que se está a erguer, propício a todo o tipo de pressões sobre a avaliação dos alunos. Mas isso LCC não concebe, pois a Universidade está lá tão no alto…