Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2008


António Guterres, Marçal Grilo, Guilherme de Oliveira Martins, Ana Benavente, Augusto Santos Silva e tutti quanti acabaram de ser demolidos ao vivo, a cores e, no meu caso, em banda larga sem fios, pelo seu ex-colega de Governo José Sócrates.

Para se elogiar sem especial rebuço, José Sócrates decidiu apresentar o descalabro da Educação em Portugal nos 10 anos que o antecederam, numa espécie de antes de mim, era o dilúvio.

Nem vou aqui contrariar os números atirados para cima da mesa (dobro dos gastos, menos alunos, mais professores anteriormente e menos gastos agora, sempre com mais alunos) com o objectivo de mostrar como a Educação foi mal gerida entre 1995 e 2004.

Porque é bom lembrar que mais de 6 desses anos foram da responsabilidade de uma governação socialista de que José Sócrates fez parte activa e permanente. Seria bom conhecer até que ponto com reserva mental, em particular na área da Educação, mas em geral em relação a tudo.

O que resta é alguém que viveu alegremente o guterrismo, se alimentou dele e agora cospe no prato e apedreja a mão que o alimentaram.

Por muito que eu desgoste de coisas que a paixão guterrista-benaventista fez na área da Educação não esperaria tamanha demolição por um camarada seu, acrítico q.b. à época (toda a legislação agora trucidada data quase em exclusivo desse período, do ECD ao regime de gestão escolar, passando pelo sistema de progressão na carreira e avaliação dos docentes).

Também nestas coisas se nota a forma de estar na vida (mesmo que seja na triste, apagada e vil vidinha política nacional) dos grandes estadistas.

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(o nariz está definitivamente maior…)
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A SIC (Notícias) inaugura um novo método de comentário político: entrevista o entrevistado sobre a forma como correu a entrevista e se portaram os entrevistadores.

Na resposta, José Sócrates faz uma hilariante imitação do Ricardo Araújo Pereira a imitar José Sócrates. 

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(é impressão minha ou, fora de gozos, o nariz está mesmo maior?) 

Leonor Beleza acaba de ser endeusada em prime-time por ter fechado 150 blocos de partos. Alguém me encontra o que o Jovem Sócrates disse sobre o assunto na altura?

Correia de Campos acaba de ser triturado em prime-time. Este homem não faz prisioneiros.

Ia-me esquecendo… o primeiro está na televisão.

Comecei logo a ouvir na parte da Educação e o homem abespinhado até mais não.

«Eu estou aqui para dar o meu ponto de vista».
«Eu estou aqui para responder».
«Deixe-me falar».

E depois não deixa fazerem-lhe perguntas e vai de debitar a cassete. Perguntam-lhe sobre alhos e responde bugalhos. Questionam o desempenho dos alunos e responde com cursos profissionais.

E agora está a debitar números, arrasando por completo os anos em que Guterres esteve a governar. Claro que os números estão em grande parte incorrectos, mas Nicolau Santos e Ricardo Costa só levaram as perguntas, não os elementos factuais para exercerem o contraditório.

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(silêncio, que aqui se canta o fado)

Recebi hoje o mail que passo a transcrever, com dois anexos que incluo, resultantes de uma troca de cartas entre uma colega e a sua Coordenadora de Departamento. Situações como esta e outras bem mais complicadas irão passar-se em virtude da implementação apressada, mal planeada e por vezes sem qualquer fundamentação, do novo modelo de avaliação.A divulgação das missivas é feita com reserva da respectiva identidade e escola, a pedido da própria remetente.

Reencaminho dois textos, um feito por mim e dirigido à minha coordenadora de Departamento e outro feito por um grupo, estranhamente de professores não titulares, indigitados para definir as grelhas de avaliação da sua escola, e no qual se inclui a minha irmã, professora de Biologia na referida escola.

Envio também a resposta da minha coordenadora, à qual não respondi por a considerar de tal forma grave que decidi que ignorar seria a melhor resposta. Mas está registada…

Poderão fazer dos documentos que vos envio o destino que melhor vos aprouver. Por razões que compreenderão, caso publiquem a resposta da minha coordenadora, agradeço que retirem os nomes dos dois textos (o meu e o dela) e a indicação da respectivos escola…

São tempos sombrios, este em que vivemos…

Aquilo que me parece é que somos cada vez mais a pôr em causa a nulidade de todo este processo e tenho esperança que esta bola de neve vá engrossando cada vez mais.

Dia 23 lá estarei nas Caldas da Rainha, cidade aliás onde fiz os meus estudos entre o 7º e o 12º ano…

E OBRIGADA POR IREM AGLUTINANDO TODAS ESTAS VOZES DE INDIGNAÇÃO E REVOLTA!

(assinatura) , PQND, não titular e congelada que já devia estar no 8º escalão há 2 anos, do departamento de Língua Portuguesa da Escola Secundária ***********

E aqui ficam os dois documentos em causa (questoes.doc,respostas.doc).

Vivo vai para uma década nos arrabaldes de uma aldeia do deserto, curiosamente uma aldeia que é sede de freguesia bem dimensionada, mas até então pouco populosa.

Apesar do seu crescimento galopante nestes últimos anos temos algumas das vantagens que é tradicional apontar-se aos pequenos núcleos populacionais: é possível (ainda!) ver os rebanhos a passar, há vinhas e parque natural defronte da urbanização, na mercearia há pão, queijo e torresmos de produção local, é possível ter serviço personalizado no talho, na papelaria encomendam-me e reservam-me as revistas que só eu consumo num raio de quilómetros, trocam-se impressões sobre o desempenho escolar da senhora da loja com doces tradicionais e produção própria de Moscatel Roxo. Enfim, temos parte do que há ainda de bom a oferecer deste lado do Tejo, o que vai rareando. E os ventos dominantes afastam as dioxinas ou coisas parecidas da co-incineração. Também há várias coisas más típicas de um começo de suburbanização, mas agora não vamos falar disso e das minhas irritações de estimação.

O que interessa é que, perante o aumento da população e do trânsito que sobrecarregou subitamente o centro do núcleo central da aldeia, os representantes do poder municipal decidiram em 1999 fazer uma sessão pública de esclarecimento da população sobre os planos de expansão da freguesia e respectivos acessos.

Por pressão da metade conjugal que ainda acredita no poder encantatório do coelhinho da Páscoa, fui à tal sessão onde um dos autarcas-modelo da margem sul se deu ao trabalho de encarar e responder às questões e críticas de um misto de antigos moradores da freguesia com os seus receios de crescimento desregrado e suburbanitos em fuga à procura de um sítio calmo para respirar ar puro e fazerem os seus passeios pedestres ou cicloturísticos.

Apesar das divergências as queixas tinham pontos comuns: o trânsito começava a ficar caótico, parte dos acessos estava num estado que dificilmente suportaria em condições um crescimento maior da freguesia e isso, em conjunto com a falta de estacionamento, ameaçava desregular a pacatez do lugar e desagradar quer aos naturais, quer aos recém-chegados.

O autarca-modelo, pessoa de bom trato, sorriso cativante e verbo sedutor, a todos acalmou. É verdade que o crescimento previsto pelo PDM para 10 anos estava quase completo em metade do tempo, sem que as necessárias infraestruturas e acessos se vissem, mas ele estava ali para garantir que o Desenvolvimento chegara à Aldeia e tudo se resolveria. Garantiu pessoalmente que a Estrada se faria ainda antes de uma nova urbanização começar a ser construída e fez uma apresentação do tipo coiso-show para demonstrar tudo isso.

A variante à Estrada ali, a Nova Escola acolá, o novo Centro de Saúde logo aqui. Que lhe caísse já ali em cima o tecto da colectividade se assim não seria.

Os ânimos serenaram e 90-95% dos presentes saíram contentes e convencidos. Talvez 99%. Há tipos chatos, que alguns acusam de anti-democráticos, que desconfiam de obra abundante em tempo útil.

Desde esse dia até hoje o que aconteceu foi apenas mais um daqueles filmes recorrentes no nosso país:

  • O autarca-modelo, de tão modelar foi promovido e foi-se embora à conquista de um outro bastião. O que conseguiu por uma e duas vezes, antes de ser defenestrado pelos seus.
  • No seu lugar ficou uma sua antiga colaboradora, rapariga das minhas idades e por toda a gente (incluindo a vereação da oposição, que quantas vezes aparece a defendê-la ainda antes dos seus colegas de partido) considerada um amor de pessoa, extremamente fotogénica e très charmante. Que pena não ter sido ela a dar as garantias – eu caia aqui ceguinho se não vai ser verdade! – que deu o seu antecessor, pois agora a responsabilidade não é bem dela.
  • Na minha freguesia acabou de ser erguida a primeira suburbanização (onde vivo), nasceu outra, em modelo privado, de lindas taveirices com piscina que quase duplicou o número de fogos entre o projecto e a conclusão e ainda mais outra de belos paralelipípedos habitacionais. No total a freguesia deve ter quintuplicado de capacidade populacional.

A Estrada continua a velha.

A Escola com Jardim de Infância (público) abriu só há dois anos.

O Centro de Saúde continua no mesmo sítio, a rebentar pelas costuras mas com ameaça de fechar.

Vá lá que agora já não preciso de fazer 10 km (ida e volta) para poder levantar as minhas encomendas aos Correios. Fizeram uma parceria com um comerciante e agora há um posto dos CTT, a meias com uma papelaria um arremedo de gift-shop.

A culpa das promessas não cumpridas não é de ninguém: o prometedor foi-se e a sucessora diz que a culpa é do Governo que não faz o que deve.

A variante à Estrada, que é Municipal, está há estes anos todos para ser concluída.

Sempre que chove fica completamente alagada e submersa das terras em redor (porque, como seria de esperar, acabou por ficar num plano inferior em virtude dos aterros para as construções).

Hoje choveu mais.

Numa zona da estrada, parte do alcatrão ficou em pedaços em meia faixa de rodagem devido ao rebentamento das tampas do sistema de escoamento das águas pluviais. Mais adiante o alcatrão foi substituído por umas dezenas de centímetros de terras e pedras. Ainda um pouco mais adiante abateu um terço da faixa de rodagem com a força das águas que, claro, reclamaram os seus direitos a passar por onde estavam habituadas a passar antes de impermeabilizarem quase todo o solo do antigo pinhal e montado e terem destruído todo o coberto vegetal.

A prometida nova variante à Estrada Municipal (coisa de 1 km), quase 10 anos depois da tal reunião continua por fazer. Mas ninguém tem culpa. A Junta de Freguesia não tem meios e perdeu meio mandato numa luta jurídico-política intestina. A Câmara arranja sempre maneira de alijar responsabilidades.

Contudo, para ajudar a encher as centenas de novos tanques-piscina (dizem que a maior concentração numa área daquela dimensão em toda a Península Ibérica) foi feito um novo posto de abastecimento em plena vertente da serra, rasgando-se um caminho em terra batida sem colectores, que hoje serviu para trazer parte assinalável de cobertura da dita serra para o meio de uma outra Estrada (esta Nacional) e para uma parte significativa dos arruamentos da zona onde vivo.

Claro que nada comparável ao estado a que chegaram a zona de Alcântara, Sacavém, Algés ou Setúbal:

Mas mesmo assim, pela manhã, as duas saídas da terreola para este e nordeste estavam bloqueadas: uma pelos cortes de via, outra pelas águas e entulho a escorrerem em catadupa da serra que faziam o trânsito ficar parado.

A culpa? É da Natureza, claro. Que ninguém cá na Terra é culpado de nada.

Quem prometeu, não está. Quem está, não prometeu.

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