Recebido via Amélia Pais:

Agora que o ano começa,

e para que comece bem,

vou fazer uma promessa

ao meu pai e à minha mãe:

Cumprirei os cem por cento

do meu serviço lectivo,

os mui nobres objectivos

do apoio educativo,

o serviço não lectivo,

sempre de olho bem vivo,

para ter pontuação máxima

do conselho executivo.

Serei a melhor a melhorar,

os resultados de alunos,

e nunca mais dormirei,

se isso significar,

provar por A+B

que sou eu quem mais consegue abandonos evitar.

E ainda, coisa pouca,

vou participar que nem louca,

na vida do agrupamento,

actividades e festas,

projectos curriculares,

extracurriculares,

tudo o que me ordenem chefes e titulares,

andarei em roda – viva,

somando pontos à toa,

não quero que nada me escape,

que eu cá sou muito boa

e bem pouco dada a ais,

quando defino e cumpro objectivos pessoais.

Serei moça empenhada,

cheia de qualidade na minha participação,

e não haverá nenhum chefe

que não repare em mim

e em tod’esta dedicação.

Já nos órgãos de gestão,

estruturas de orientação,

função de avaliador,

de mestre coordenador,

pontitos não posso ter…

não quis ser titular e portanto por aí,

não há nada a fazer

(mas livro – me, sim senhor,

de ser bem investigada,

com pormenor e rigor,

pelo senhor inspector).

Promessas p’rá formação,

não sei se as posso fazer,

com o trabalho do mestrado

não me sobra qualquer tempo,

mesmo que durma pouco e ande sempre a correr…

Mas tentarei, ind’assim,

ter máxima pontuação,

na avaliação de projectos,

dos de investigação,

cheios de inovação da coisa educativa,

que eu por mais que me sufoquem,

esbracejo e venho à tona,

tentando ser criativa.

Prometo relacionar-me,

com toda a cordialidade,

com todos e mais alguns,

escola e comunidade,

ter sempre o máximo dos pontos,

sorrir a sérios e tontos,

desenvolver contra a náusea,

tod’a minha imunidade.

E preparar, organizar,

realizar as actividades lectivas,

para que o chefe me dê,

sempre sem hesitar,

os quatro máximos pontos,

seja qual for o parâmetro que esteja a considerar,

cumprir objectivos, programas,

tudo correcto sem falhas,

disfarçando bem as gralhas,

usar muitos materiais,

ter em ordem dossiers e estimular tudo mais,

mesmo agora sem ter tempo para as aulas preparar.
E para ele me pontuar,

maximizando o número,

a relação pedagógica,

nas aulas que for visitar,

e se convencer também que sou boa a avaliar,

recorrerei ao açúcar, chocolates, rebuçados,

gelados e mais recompensas,

promessas e ameaças,

feitiços e outras graças

que eu não sou de brincadeiras,

ou bem que os miúdos ajudam,

p’ra ninguém me mal grelhar,

ou bem que se fritam eles

se não querem ajudar.

E na auto – avaliação

direi o melhor de mim

(que se a gente não se amar,

quem de nós irá gostar tanto tanto tanto assim?).

No fim de tudo isto,

se não garantir um excelente,

porque não há lugar na cota e é inconveniente,

morderei de novo a raiva,

farei um sorriso contente

(será melhor prevenir),

despeço – me por mais dois anos,

na esperança do que há – de vir,

que a coisa definhe e morra

de enfarte e estupidez

e que eu sobreviva à dita,

sem ter ferido o amor que aqui me trouxe e me fez

(de alma e coração,

acordada e alerta,

contra todos os absurdos,

sem me vergar com a dor)

defender com toda a força,

a coisa séria que é isto de ser professor.

Agora que o ano começa,

e para que comece bem,

vou fazer uma promessa

ao meu pai e à minha mãe:

Prometo ser forte e lutar

para que o pesadelo descrito

não me afogue a inteligência,

não me contamine o corpo,

não me deforme o sorriso,

nem me impeça de sonhar…

Autora: Teresa Marques, Prof. de Matemática