Já aqui referi há uns dias o fenómeno do adesivismo, assim crismado na transição da Monarquia para a República mas prática ancestral neste velho torrão nacional.

O adesivismo é uma variante do vira-casaquismo, nem sempre sendo fácil de distingui-los. Eu considero o adesivismo mais insinuante e sibilini e o vira-casaquismo mais trôpego e desajeitado.

No contexto actual o adesivismo na área da Educação ainda está incipiente, mas tem adubo e terreno fértil para se multiplicar como cogumelos inúteis em terreno bafiento.

As notícias que me vão chegando de viva voz ou por interposto testemunho teriam o seu quê de caricato caso não revelassem a propensão para práticas que podem prejudicar – e muito – o pouco que nos resta para tentar manter a Educação Pública neste país acima da linha de água.

Eu explico.

  • O adesivo passou nas últimas semanas a estar muito preocupado com o sucesso e, argumentando em nome do interesse de todos, apela a que façamos o que o ME quer que se faça, «para evitar problemas». Esta preocupação é diferente da daqueles que tentam encontrar vias para moldar a tenaz ministerial e torná-la menos asfixiante. No caso do adesivo a preocupação é em conseguir mesmo que a tenaz se instale e atinja os objectivos desejados: o sucesso expresso nos resultados estatísticos.
  • Para isso, o adesivo até ultrapassou o timing do ME e começou, de cenho preocupado, a lavrar umas «grelhas» de sua própria iniciativa para ir «ganhando tempo» e fez questão de divulgar esta sua iniciativa em todo o redor de si.
  • Ao mesmo tempo, o adesivo mudou quase imperceptivelmente a sua forma de andar e circular pelo espaço escolar: se repararmos bem, o olhar está mais distante e foca-se menos nos seus pares, visando um pouco mais além. O adesivo passou mesmo a levantar o queixo em média um par de centímetros, corrigindo a sua postura ao andar. O adesivo-macho trocou o blusão informal pelo blazer. O adesivo-fêmea adicionou uns acessórios brilhantes aos paramentos quotidianos. Quiçá mesmo um toque mais ousado na maquilhagem.
  • O adesivo fez questão de demonstrar que está a par da legislação, que leu o articulado e fixou as instruções. Declarando-se contrariado por aplicá-las, o adesivo, contudo, considera que pode acrescentar algo mais às propostas ministeriais e adianta leituras pessoais de algumas passagens e já propõe estratégias próprias para alcançar o sucesso.
  • O adesivo acha que devemos definir objectivos de progresso e sucesso por turma e aluno. O adesivo acha que devemos planificar aula a aula de forma diferenciada e usar mesmo instrumentos de avaliação diferenciados em todas as turmas, visando «obter os melhores resultados», enquanto eles ainda se lembram «das coisas». É algo omisso quanto às aprendizagens. O adesivo sugere que os «colegas se envolvam» em actividades extra-curriculares, «porque é isso que agora é valorizado».
  • O adesivo parece esquecer que os colegas já faziam tudo isso, valorizado ou não. O adesivo partilha experiências pedagógicas pessoais passadas que conduziram a um sucesso que todos desconhecíamos.
  • O adesivo observa com ar reprovador e condescendente as vozes que ousam discordar. Aconselha que os contestatários «tenham cuidado», que «repensem a sua atitude», que «considerem que é o futuro profissional que está em risco».
  • O adesivo é, no fundo, uma boa pessoa, um pináculo do bom-senso e das boas maneiras, só que facilmente impressionável às vozes de comando que soam fortes do alto. O adesivo contesta até que. O adesivo critica enquanto. O adesivo transmuta-se logo que.
  • O adesivo é o camaleão do sistema educativo. Já praticou a pedagogia por objectivos quando iniciou a carreira sem pensar duas vezes; quando nasceu a ideologia das competências achou um disparate, mas dois meses depois já estava convencido. Agora que se inflecte de novo para a exigência dos resultados por sobre as práticas, acha que «realmente isto está sempre a mudar», mas muda sempre de acordo com a mudança. O adesivo é disciplinado e conhece o seu lugar na hierarquia de comando.
  • O adesivo até é um bom professor, quiçá muito bom. Mas mais importante, quer ser melhor do que. Ou passar por isso.
  • O adesivo é o melhor amigo do ME. Logo a seguir àquele senhor bem-falante e de barba aparada daquela associação que não sei quê.

Mas, apesar de todo esse esforço de bem-parecer, o adesivo é uma das razões porque lá de cima nos consideram «professorzecos». Porque o respeito se perde, quando nós o perdemos por nós próprios e abdicamos das nossas convicções e de lutar por elas.

No matter what.