Será desnecessário recorrer a exemplos recentes bem pungentes de abrilhantamento de um currículo profissional para situarmos a questão. Certamente todos conhecemos exemplos para não ter de recorrer ao maior para concretizar.

No meu caso, talvez a contra-corrente, faço os possíveis por só incluir aquilo que posso provar e elimino aquilo que não tem rasto documental.

Por isso mesmo não deixa de ser curioso que alguém com responsabilidades inclua na sua súmula curricular a passagem pela equipa que procedeu à instalação do Arquivo Histórico-Social na Biblioteca Nacional, mesmo se isso não se consegue detectar na ficha técnica dos respectivos catálogos, de que tenho a felicidade de possuir os dois volumes, já bastante envelhecidos mas ainda legíveis. Note-se que não duvido dos factos, pois já ouvi testemunhos directos de quem confirma esse trabalho, mesmo se em posição claramente secundária e subalterna.

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O que estranho é que, em contrapartida, esse mesmo alguém omita algo que é facilmente comprovável, como por exemplo o estatuto de colaborador(a) permanente e depois redactor(a) de uma revista periódica associada ao mesmo tipo de movimento político envolvido no tratamento do AHS. Sendo que isso é visível com clareza na ficha técnica dessa publicação até à viragem dos anos 80 para os 90.

Sendo que esta última experiência é cronologicamente posterior àquela, para mais tratando-se de uma função com maiores responsabilidades, não deixa de ser questionável o critério de omissão.

Podem dizer-me que estas questões curriculares são menores. E eu concordo.

Por isso mesmo estranho este tipo de selectividade, que parece indiciar um incompreensível embaraço com o próprio passado. Participar na instalação do AHS é bom. Colaborar e ter responsabilidades redactoriais n’A Ideia é mau.

Afinal, podemos andar até idade bem adulta enganados quanto às nossas convicções e podemos sempre abandonar a postura libertária em prol de uma abordagem hierárquica dos fenómenos sócio-profissionais. E quem ontem foi pelo pacifismo e por uma visão utópica da sociedade pode sempre passar, uns anos, um lugar universitário e um doutoramento depois, a usar metáforas militaristas para justificar políticas educativas.

Porque mutatis mutandis ou só os burros não mudam de ideias e ideais.