Terça-feira, 22 de Janeiro, 2008


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A pretexto de algumas actividades a desenvolver na Escola dediquei-me hoje a recuperar alguns materiais destinados a mostrar como era o mundo dos alunos de há 30 e mais anos atrás, para que os de agora percebam o que mudou e o que permanece.

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Uma das redescobertas, para além de cadernetas com mais de 25 anos (a maioria com 30-35), foi a de duas caixas de cromos isolados, daqueles repetidos ou de colecções que nunca se chegaram verdadeiramente a fazer.

Resultado de trocas de infância e motivo para muitas horas de diversão e alguma ilustração. Não tenho problemas em admitir que colecções como as Maravilhas do Mundo, o Panorama Zoológico, a Europa Geográfica, Política e Económica (o cromo da Albânia é o nº 1 da colecção), os Comboios  ou a Homens: Raças e Costumes competiram alegremente com o Espaço 1999, o Super-Homem, o Futebol 1976/77 ou o 200 à Hora nas minhas preferências de então e em muitos casos ajudaram ao meu sucesso escolar.

Talvez mesmo por isso tente incutir desde cedo na descendência o mesmo gosto, esperando que com melhores resultados, porque acredito no aperfeiçoamento da linhagem, em especial quando a origem é plebeia. Só a aristocracias é que degeneram.

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Se houve uma tendência que sempre me divertiu na moderna literatura portuguesa (anos 80 em diante) foi a da tentativa de imitar/clonar para português o estilo de alguns autores estrangeiros.

Um deles foi Raymond Carver, a quem se elogiava muito a economia de palavras, a secura da narrativa, o minimalismo estilístico e mais umas junções de conceitos interessantes. Também eu comprei o Do que falamos quando falamos de amor e o Queres fazer o favor de te calares? e não nego que a forma de alguns títulos dos meus posts vão beber alguma desajeitada inspiração àquelas duas obras. Não sou o Pedro Paixão, mas não nego que li Carver com algum interesse. Relativamente moderado, no entanto.

Qual não é o meu espanto – se fosse maior fã talvez já o devesse saber – quando leio (última New Yorker de 2007 a chegar á minha aldeia) que afinal Carver não era propriamente assim tão minimalista. Afinal era o seu editor e amigo Gordon Lish que lhe amputava cruelmente mais de metade das páginas (ver exemplo na imagem da direita), reduzindo-as ao esqueleto que tornou Carver um escritor de culto, o que em algumas alturas levava o autor ao desespero e ao envio de cartas para que Lish reduzisse a sua intervenção.

Qualquer dia ainda acabamos por descobrir que é a Pilar que apaga os pontos finais e elimina os parágrafos a Saramago e que é algum neto ou sobrinho traquinas que se vai aos romances do Lobo Antunes e baralha aquilo tudo antes da versão final ir para a editora.

Ora irrito uns porque sim, ora chateio outros porque não. Se respondo às críticas mais brutais com alguma contenção é porque não devia; se respondo mais à letra é porque estou nervoso; se não respondo é porque tenho medo de discutir.

Haja paciência.

Como haja paciência – de novo – para a Associação de Professores de Português e algumas das suas posições, ou melhor, para o aparente desconhecimento que revela sobre o quotidiano das escolas. Não sobre o que se anuncia, mas sim o que já se pratica. Vejamos hoje o que é dito no Público (sem link, p. 10 da edição em papel).

O Ministério da Educação está a ponderar rever os programas de Português do ensino básico, do 1.º ao 9.º ano de escolaridade, mas a Associação de Professores de Português (APP) não vê necessidade de fazer essa mudança. Em vez disso, pede “critérios de avaliação rigorosos e universais” que garantam a igualdade entre todos os alunos.

Esta pretensão é particularmente estranha porque, na prática, isso implicaria que alunos com NEE ou com percursos curriculares alternativos, etc, etc, fossem avaliados da mesma forma que quaisquer outros, significaria o completo fim da autonomia do trabalho dos docentes na área da avaliação e o toque de finados da diferenciação pedagógica (não esqueçamos que uma avaliação contínua se integra nas metodologias pedagógicas, não se podendo isolar do todo), em nome de uma «universalidade» dos critérios de correcção.

Se querem uma perspectiva errada sobre o que deve ser a prática quotidiana dos docentes em matéria de avaliação, ela está aqui. E se querem uma forma errada de contestar as políticas ministeriais podemos ficar com mais esta passagem:

Para Paulo Feytor Pinto, presidente da APP, não faz sentido que os critérios de avaliação dos estudantes sejam definidos por cada escola e que “o mesmo aluno possa ter um cinco numa escola e um quatro noutra” porque “não existem critérios nacionais de avaliação”.
Em vez de um “programa igual e uma avaliação diferente”, o Ministério da Educação deveria deixar que os professores fizessem o percurso que quisessem para ensinar os alunos e, no final, os estudantes submeter-se-iam a uma avaliação que obedecesse a critérios iguais para todo o país, defende Feytor Pinto. O que acontece actualmente é que “os professores vão todos pelo mesmo caminho, cumprem o programa, mas os alunos têm notas diferentes”, argumenta.

Azar o meu, mas não percebo isto. O caminho dos professores pode ser diferente, mas o dos alunos deve ir dar sempre ao mesmo sítio. Mas afinal o que significa dizer, neste contexto, que «os professores vão todos pelo mesmo caminho, cumprem o programa, mas os alunos têm notas diferentes»?

Qual a alternativa: os professores não cumprirem o programa e os alunos terem todos as mesmas notas?

Eu até consigo entrever, muito no fundo desta lógica, o que pode dar substância à posição da APP – ou de PFP – mas esta estranha forma de expressão deita tudo a perder.

Mas então nós não sabemos que existem adaptações curriculares e em especial nos instrumentos e critérios de avaliação de muitos alunos ou mesmo de turmas inteiras? Não é essa a razão de existir, por exemplo, dos PCT?

Se a crítica da APP à descoordenação ministerial em matéria de directrizes para os professores quer ser coerente, não pode depois declarar que:

A APP contesta ainda os “efeitos negativos” que os exames nacionais e provas de aferição têm na prática lectiva”. Os professores acabam por “erradicar da sala de aula” os conhecimentos que não são avaliados nesses testes, diz Feytor Pinto.

Mas antes não se afirmara que os alunos se deviam submeter a uma avaliação uniforme para todo o país? Mas não é isso que acontece com as provas de aferição? Ou mesmo com os exames?
Mas ainda temos a cereja no bolo da falta de clareza quando se afirma:

Para a APP, é “altamente contraproducente” refazer os programas de Português, porque “nunca se ouviu dizer que os alunos tivessem maus desempenhos por causa dos programas”.

Nunca se ouviu que os alunos tivessem maus desempenhos por causa dos programas? Estou longe de defender a deriva legislativa e pseudo-reformadora deste ME, mas sinceramente torna-se-me muito difícil compreender este tipo de linha de ataque, que só consigo perceber em virtude de remoques quanto ao processo da TLEBS. Achará PFP que é possível conseguir facilmente sucesso com programas mal estruturados e em que aos docentes é pedido que desenvolvam um amontoado de actividades, quantas vezes sem nexo entre si? Por exemplo, martelar o PNL no programa existente, que já dá pano para mangas?

Sou um professor de Português de 2ª categoria como já me fizeram sentir alguns(mas) colegas mais orgulhosas da sua formação específica original e que acham que um tipo de História não têm condições para aceder a certas sofisticações (escusam de me fazer o reparo, sei que é um remoque privado). Julgo que alguns professores de 1ª (sem desprimor para aqueles que o são mesmo) consigam seguir o raciocínio que Paulo Feytor Pinto apresenta como sendo o da APP. Eu confesso que não os percebo e nem sequer compreendo como, em nome da defesa do actual programa da disciplina de Língua Portuguesa, se ache defensável a existência de critérios universais de avaliação dos alunos, quando se critica a existência de exames e provas de aferição que são instrumentos que se baseiam – bem ou mal – exactamente no princípio de uma avaliação uniforme para todos os alunos.

A defesa de uma absoluta objectividade na avaliação «universal» dos alunos é uma lógica que me escapa, pois no fundo volta a reconduzir a avaliação dos alunos para um processo mecânico em que desaparece qualquer flexibilidade perante as circunstâncias particulares de cada aluno.

Quando temos dias como este a meio de Janeiro. Tudo (a)parece mais belo ao olhar, mesmo o que nos outros dias mais cinzentos nos parece feio e deprimente.

Até o casario amontoado e os entulhos a céu aberto ganham um tom dourado ao cair do sol e o tímido verde da erva que desponta nos passeios maltratados e nos intervalos do alcatrão que cobre o deserto sulista consegue alegrar fugazmente a nossa vista.

Confesso não ter lido o livro. Mas nunca sei quando estou na onda do McEwan ou vice-versa. Por vezes gosto, outras nem tanto.

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Alguns sites internacionais (com destaque para alguns dos nossos vizinhos espanhóies que levam isto a sério) interessantes para quem lecciona ou se interessa pelos temas acima:

  • Celtiberia – um misto de blog e site sobre as raízes pré-romanas da Península Ibérica.
  • Frame – galeria de gravuras e mapas antigos.
  • Helmink – um arquivo imenso de mapas antigos.
  • Historia en Mapas – blogue sobre a História da Cartografia e outros recursos didácticos.
  • Imperivm – como se percebe, um site especializado no Império Romano.

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