Não é em si mau ou bom que o Governo, com destaque para o seu primeiro, tenham alterado decisões anteriormente dadas como adquiridas. Tudo depende da bondade das decisões. Quanto á quebra de promessas pré-eleitorais, que funcionaram como plataforma para a escolha feita pelos eleitores, só em casos excepcionais poderá considerar-se algo vagamente aceitável.

Nestas duas semanas tivemos direito a um pouco de tudo: desde a mudança em seis meses da posição face à localização do novo aeroporto “de Lisboa”  até à decisão de não referendar o Tratado Europeu, passando por aquela questão de dividir ou não os 10 euros suplementares a quem tinham direito os aposentados.

Se exceptuarmos o caso patético que ficou entregue a um desconhecido auxiliar de ministro, as outras duas decisões tiveram uma marca forte, antes e depois, de José Sócrates: no caso do aeroporto a forma como deu a entender que a decisão seria técnica e não política entristeceu os vitais do regime; no caso do tratado, deu o flanco perante as insinuações de que teria sido pressionado por líderes europeus de 1ª grandeza a quem teria acedido, por muito que os vitalinos o tentassem ocultar.

O que, perante a tentativa permanente de cuidar da sua imagem pública como alguém firme e determinado, acabou por ter efeitos óbvios, que num primeiro momento os spin-doctors tentaram minimizar com a fórmula: «vejam: ele não é arrogante e até é capaz de voltar atrás nas suas decisões».

Só que isso obviamente não chegou pelo que foi necessário produzir uma nova cortina sobre a realidade que surge por estes dias na imprensa e que se resume a isto: «afinal ele nunca teve dúvidas, sempre soube o que queria fazer, apenas decidiu ser ele marcar a agenda das decisões».

  • Em relação ao aeroporto, a realidade aparente até há umas horas seria: a decisão a favor da Ota estava tomada só que os estudos produzidos pela CIP e Associação Comercial do Porto  tiveram bastante impacto público e obrigaram o Governo a recuar, a pedir estudos suplementares e a acabar por inverter rumo, em grande parte por acção do próprio Presidente da República. A realidade actual para os media é: José Sócrates já sabia que Alcochete era a melhor decisão, apenas esperava por uma oportunidade para a tomar e os estudos técnicos apenas confirmaram essa sua visão estratégica.
  • Em relação ao Tratado Europeu, a realidade parecia ser a de alguém que tinha prometido referendá-lo e que hesitava quanto a fazê-lo ou não, dividindo-se entre a coerência de uma promessa que fizera questão de manter em relação à IVG e as pressões externas e internas para enveredar pela cedência à real-politik. A realidade para consumo actual é que José Sócrates sempre pensou referendar o Tratado Constitucional, mas nunca prometeu referendar o Tratado Reformador e que essa decisão estava tomada há bastante tempo, apenas tendo esperado para a divulgar depois de a comunicar aos líderes europeus que dela estavam dependentes um pouco por toda a Europa.

Assim se pretende realçar que Sócrates sempre é o Homem Providencial, Infalível e Visionário que, muito antes de todos os outros e mesmo sem a necessidade de estudos, já tinha tomado a decisão certa, apenas se revelando Paciente, Humano e Não-Arrogante ao fazer a publicitação das decisões apenas depois de toidas as formalidades cumpridas.

Quem quiser, vive a realidade alternativa que entender. Eu li bastante ficção científica em devido tempo, por isso estou algo imunizado.

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