Sábado, 29 de Dezembro, 2007


E eu acredito que a blogosfera anda triste com ele: o Abrupto tornou-se um espaço feito a 80% pelos leitores que mandam fotografias, quantas vezes irrelevantes de qualquer ponto de vista. O resto são excertos do material produzido por JPP para o Público e a Sábado, poemas ocasionais que serão poucos a ler (basta ver o tempo médio de consulta do blogue) e textos a fazer à actual liderança do PSD o que ele criticou a Menezes ter feito a Marques Mendes.

Quando JPP escreve sobre a blogosfera, como faz hoje no Público, deveria ter em conta que ela melhorou bastante mais desde os seus inícios do que o próprio Abrupto. Porque aquele que foi um modelo de espaço de expressão individual na net, tornou-se apenas um tique rotineiro ao que parece para o autor e leitores (também é interessante reparar como as ligações de/para posts do blogue em causa são cada vez menores). O que é pena, em especial para mim que de cedo o admirei, embora o não tenha erguido como modelo.

Resta a frase final da longa crónica, onde se escreve:

Como também tenho um blogue, deixo aos leitores o julgamento do que se me aplica do que digo aqui.

Pois, o problema é que os leitores não têm uma página inteira de Público para dissertar sobre o assunto, nem sequer acesso a comentarem livremente o Abrupto. Ou mesmo de forma moderadamente livre, pois JPP só deixa passar as críticas, quase sempre dos mesmos autores, que se mantêm dentro das regras do seu gosto pessoal. E não esqueçamos que JPP não encara a blogosfera como uma rede em que todos podem comunicar entre si, mas como uma teia que deveria tger o Abrupto no centro, já que ele não comenta em lado nenhum e cada vez se abre para outros espaços.

Mas acredito que JPP tenha agora mais tempo para enriquecer os conteúdos do Abrupto e assim fazer subir, a pulso solitário, o valor da blogosfera nacional.

Programa suscita dúvidas

novas.jpg

O programa Novas Oportunidades, que hoje é tratado nas páginas do Sol, é um programa assumido como emblemático por este Governo e eu concordo que assim deve ser considerado e tratado porque, na sua forma de implementação e funcionamento, é um símbolo perfeito da acção governativa a vários níveis a começar pela área da Educação e Formação Profissional.

  • É um programa que facilmente se presta a eventos propagandísticos de conteúdo fortemente demagógico.
  • É um programa que absorve imenso dinheiro comunitário numa teia burocrática imensa que serve para alimentar redes clientelares tanto ao nível dos Centros de Certificação, Validação e Etc, como dos próprios formadores.
  • É um programa que visa obter alguns resultados estatísticos de forma muito rápida, sacrificando os níveis de rigor e exigência para uma efectiva qualificação dos formandos.
  • É um programa que retrata na fidelidade a opção governamental pelo facilitismo encoberto com uma faceta tecnológica para patego consumir.

Por isso é muito importante que este programa seja monitorizado de forma efectivamente (e não supostamente) independente.

E avaliado não pela quantidade de diplomas produzidos – nesse caso é posso passar centenas de diplomas cá em cas, com algum investimento num bom equipamento multifunções, umas dezenas de tinteiros e uns carimbos – mas pelos efeitos práticos na vida dos diplomados: se melhoraram de emprego e salário graças ao diploma e certificação; se passaram a ter emprego graças a esta validação oficial das suas competências; se integraram projectos de sucesso e inovadores no tecido empresarial ou se permaneceram em postos de trabalho que teriam com ou sem aquela certificação.

Em suma, até que ponto o Novas Oportunidades é aquilo que anuncia: uma via para a qualificação dos portugueses e para a melhoria das suas condições de empregabilidade e, indirectamente, uma alavanca para o desenvolvimento do país.

Ou se é apenas um pretexto para gastar os últimos milhões da UE.

Se cada Centro passa ou não 250 diplomas por ano é um detalhe, que revela mais a obsessão cosmética do Governo que outra coisa. Se em cada 250 diplomados um nível apreciável (30%?, 50%?, 70%?) beneficiar objectivamente do projecto em termos do seu grau de empregabilidade e nível salarial, isso sim é um critério de sucesso.

Porque lá temos sempre o mesmo dilema: estamos a trabalhar para algumas estatísticas ou para as pessoas? 

Eu percebo que o final do ano está aí e os jornalistas de maior nomeada ou destaque na imprensa “de referência” queiram dar um ar da sua graça e se adiantem a opinar sobre o que o Governo fez ou não e de que modo correspondeu ou não às “exigências” do Presidente da República.

A matéria é óbvia, a tentação evidente. O problema são os resultados quando se escreve do conforto do gabinete bem aquecido, eventualmente com aquela distância analítica que o aburguesamento dos últimos anos foi permitindo, ao mesmo que tempo que foi desencorajando o conhecimento mais atento dos factos.

Vejamos o caso de Henrique Monteiro, director do Expresso na sua curta coluna de hoje, coisa para ter sido feita em 20 minutos, sem grande pensamento sobre o assunto. Em matéria de Educação, que ocupa cerca de um terço do texto, afirma-se o seguinte:

Na Educação, embora se conceda um progresso estatístico, nota-se uma estagnação no que diz respeito às reformas dos conteúdos do ensino e, sobretudo, à prometida e desejada inflexão dos métodos do “eduquês” (digo-o desta forma para abreviar). Houve uma reforma que me parece bastante positiva – a da gestão das escolas – e resta-me esperar que essa arraste outras e ponha em xeque, definitivamente, os conceitos que durante anos têm destruído a transmissão de conhecimentos, a autoridade dos professores e a disciplina nas escolas.

Em vez de se atacar a classe dos professores (que, em parte, também o mereciam), o Governo poderia olhar para o próprio Ministério porque é aí que reside o essencial do problema.

Este conjunto de parágrafos tem passagens interessantes, passagens contraditórias, passagens sem sentido e uma diatribe incompreensível que nem vale a pena explorar (a de que os professores «mereciam» ser atacados, pelo menos em parte – porque isso poderíamos dizer de todas as classes, a começar pela dos jornalistas acomodados).

  • Quanto a passagens interessantes, temos a de que o Ministério deveria olhar para o seu interior em busca da origem de muitos males. Tema fascinante e que é pena que não seja desenvolvido (provavelmente estava por perto algo mais atractivo para fazer).
  • Já quanto a passagens sem sentido temos a do elogio da reforma da gestão escolar que, em boa verdade, foi exactamente aquela que o governo ainda não fez, estando o projecto de decreto-lei em discussão pública até 31 de Janeiro e, se tudo correr como é costume, só estará em vigor, na prática, no ano lectivo de 2008-09. Provavelmente Henrique Monteiro ouviu o anúncio há umas semanas no Parlamento de que ia ser feita e acreditou que o verbo enunciado se transformaria em coisa concreta nas horas seguintes. Por acaso não foi assim. Aliás, o director do Expresso poderia ter opinado sobre outras “reformas” na área da Educação e diversos diplomas aprovados este ano (ECD, exame de acesso à carreira, certificação de manuais, concurso para titulares), mas calhou logo escolher o que não existe ainda. Que pena.
  • Por fim, as passagens confusas ou contraditórias: relacionar a inexistente reforma da gestão escolar com o fim dos «conceitos que têm destruído a transmissão de conhecimentos, a autoridade dos professores…» é declarar, preto no papel acinzentado que não percebe nada do assunto, nem do que influencia o quê em matéria educativa. Não refere o estatuto do aluno, nem outras medidas do governo em matéria de avaliação de professores e alunos que são aquelas que interferem directamente na questão da autoridade do professor e do modelo mais ou menos rigoroso da transmissão e avaliação das aprendizagens e acontecimentos. Mas relaciona isso com o modelo de gestão… que ainda não existe, mas se espera que arraste as outras mudanças, mesmo se essas mudanças antecederam num ou dois anos essa proposta de novo modelo de gestão. Pois, confuso, contraditório e, fundamentalmente, uma dramática demonstração de absoluto desconhecimento sobre o que se escreve.

Quanto ao «assinalável progresso estatístico» eu retirar-lhe-ia o adjectivo, assim como passo em claro o que entenderá Henrique Monteiro sobre «reformas dos conteúdos de ensino» (será dos currículos e da distribuição horária das matérias? será dos programas? será das pedagogias aconselhadas?).

Em suma, e para última crónica do ano, poderia ter sido feito um ligeiro esforço para que passasse das superficialidades ou, mais importante, que não enveredasse por caminhos que claramente desconhece para além da circunstancial conversa de redacção.

Eu cá para mi, quem merecia mesmo um ataquezinho era este tipo de jornalismo. Instalado. Bem instalado. Sobranceiro. Que não se esforça. Que fica pela espuma, cavalgando as evidências vácuas.

lulucores.jpg

PROFESSORES INDEMNIZADOS POR PAIS DE ALUNOS AGRESSORES

O Ministério Público vai considerar prioritária a investigação de casos de violência nas escolas e nos hospitais: “Violência contra idosos, violência nas escolas e nos hospitais é uma prioridade. Tenho centenas de faxes e cartas a denunciar situações”, refere Pinto Monteiro ao CM.

Estas foram, aliás, propostas introduzidas na primeira Lei de Política Criminal por sugestão do Conselho Superior do Ministério Público, que inicialmente criticou o diploma. Uma das críticas dizia respeito à autoridade do PGR que, na versão final, viu os seus poderes reforçados: terá autonomia para alterar as prioridades de investigação, que serão aprovadas de dois em dois anos pela Assembleia da República.

No caso concreto dos crimes cometidos contra funcionários públicos colocados em locais de grande conflitualidade ou desgaste, como as escolas e os hospitais, o procurador-geral da República vai determinar que o Ministério Público accione todos os mecanismos ao seu alcance. O principal instrumento é o processo-crime que, para lá de accionado merecerá celeridade processual. Isso vai acontecer nos hospitais e centros de saúde, em relação à violência praticada contra médicos, enfermeiros e funcionários administrativos.

Nas escolas, as procuradorias distritais vão receber orientações que passam por abrir processos-crime nos casos em que os menores sejam maiores de 16 anos. Se a idade for inferior, então os professores podem accionar o processo civil e pedir indemnizações aos pais das crianças prevaricadoras. “Um miúdo que insulta um professor, que lhe chama nomes e danifica o carro, se for menor, respondem os pais. O professor tem direito a uma indemnização que pode pedir”, declarou o procurador-geral ao CM.

Para o responsável máximo do Ministério Público é necessário quebrar um ciclo de medo que leva as pessoas a não apresentarem queixas. “Não se pode consentir a implantação de uma lógica de impunidade”, frisou.
(…)
“Sei que há várias pessoas, até a senhora ministra da Educação, que minimizam a dimensão da violência nas escolas, mas ela existe”, reiterou Pinto Monteiro, garantindo que vai preocupar-se com “cada caso de um miúdo que dê um pontapé a um professor ou que lhe risque o carro”.

António Barreto e Pacheco Pereira em entrevista conjunta ao Expresso. A partir deste vídeo pode aceder-se aos seguintes ou a partir daqui.

A versão oficial para consumo geral encontra-se aqui (ou aqui com ligeiros retoques, mas equivalente ausência de tratamento jornalístico), reproduzida de uma nota da Lusa que por sua vez não deve passar da reprodução de um comunicado à imprensa do Ministério.