Sexta-feira, 28 de Dezembro, 2007


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Cartoon de Mike Lester

Manuel Ferreira Patrício era à época (Maio de 1989) presidente do Instituto de Inovação Educacional e participou num Colóquio Internacional em Bragança onde descreveu assim o «perfil ocupacional do professor do ano 2000», entendido como os tipos de funções e actividades que os docentes viriam a ter de desenvolver:

Os principais tipos de funções serão:

a) funções de docência;
b) funções de administração e gestão;
c) funções de investigação;
d) funções de acção social e escolar;
e) funções de orientação escolar e vocacional;
f) funções de extensão educativa e de apoio à comunidade.

Os principais tipos de actividades serão:

a) actividades lectivas estruturais (aulas);
b) actividades lectivas conjunturais (aulas de compensação educativa, visitas de estudo, actividades de projecto);
c) actividades extralectivas estruturais (clubes escolares);
d) actividades extralectivas conjunturais (projectos de âmbito extracurricular, conferências, colóquios, seminários, promoção de iniciativas a serem assumidas autonomamente pelos alunos, ao nível do ensino secundário);
e) actividades interactivas (projectos ou realizações parcelares que implicam o relacionamento das actividades lectivas com as extralectivas, ou vice-versa; festas; festivais, saraus; visitas de estudo);
f) actividades de gestão pedagógica;
g) actividades de gestão administrativa e financeira;
h) actividades de acompanhamento e orientação educativa;
i) actividades de orientação escolar, vocacional e profissional;
j) actividades de animação pedagógica e cultural, de âmbito escolar ou comunitário;
l) actividades do foro da educação especial;
m) actividades do foro da acção social e escolar;
n) actividades de educação permanente;
o) actividades de direcção e manutenção de instalações e equipamentos;
p) actividades de organização e direcção de laboratórios;
q) actividades de organização e direcção de bibliotecas e centros de documentação e informação;
r) actividades de organização e direcção de centros de recursos educativos;
s) actividades de investigação educacional;
t) actividades de relacionamento exterior: com a comunidade, as famílias, as autarquias e o mundo do trabalho.

Este amplo leque de actividades configura, por si só, o complexo perfil ocupacional do professor do ano 2000.

(Manuel F. Patrício, “Traços Principais do Perfil do professor do Ano 2000” in Perspectivas da Educação para o Ano 2000. Vila Real: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 1991, pp. 215-216)

2000.jpgPois, o problema é que em 1989 eu até estava fora do sistema educativo como professor, numa das minhas incursões profissionais extra-lectivas e não tomei atenção a isto.

Mas a publicação em 1991 de apenas 500 exemplares destas actas também não me ajudou a planear o futuro.

Agora é claro que tenho o perfil ocupacional todo complexificado (e cada vez pior pago).

Alguns exemplos, o primeiro da Beacon Hill Elementary (Seattle), frequentada principalmente pela minoria hispânica:

Ainda em Seattle, no Federal Way School District, neste caso com trabalho principalmente com a minoria negra:

E mais um exemplo, de outro nível de ensino, da Grandview High School (Washigton).

Independentemente do aspecto promocional destes vídeos, existem traços interessantes – para alguns perturbantes – nestas experiências.

Em Seattle nota-se o carácter étnico das escolas, algo que entre nós seria considerado altamente incorrecto, mesmo se estabelecimentos de ensino verdadeiramente integrados nas comunidades de imigrantes possam acabar por ter este tipo de aspecto.

Por outro lado temos a participação activa – e presente – das famílias.

Por fim e esta é a minha alfinetada, eu atentaria às instalações disponíveis.

Em matéria de avaliação dos funcionários do Estado, este Governo (seguindo nisso as pisadas dos do PSD/CDS) assume como válido o paradigma da distribuição regular da performance dos indivíduos de acordo com a chamada curva de Gauss ou curva em sino.

No entanto, em matéria de avaliação dos alunos todo o seu paradigma é outro, retomando as críticas que desde os finais dos anos 60 foram feitas à curva de Gauss e em defesa da chamada curva em J, a qual se considera ser a mais adequada expressão estatística de desejável sucesso educativo que acredita que todos (ou quase) os indivíduos podem atingir a excelência ou mestria.

Entre nós as teorias da “Pedagogia do Sucesso” associadas à defesa da curva em J para a distribuição da avaliação dos alunos tem sido um tema recorrente desde os anos 70, por vezes em forma de teoria persuasiva e defensora da igualdade de oportunidades (mas dando o salto ilógico para a igualdade de resultados), em outros casos como imposição quase absoluta a partir do aparato legislativo.

Atravessamos neste momento uma das fases em que a tutela quer impor, em simultâneo, a curva de Gauss para a avaliação dos docentes e a curva em J para a avaliação dos alunos. O que em termos teóricos não deixa de ser interessante do ponto de vista da absoluta incoerência conceptual, como já tentei aqui várias vezes sublinhar. Até aos 17-18 anos o sucesso e a excelência são uma garantia, com caução científica, a partir dos 23-24 uma miragem estatística.

No meu caso numa procurei adaptar a avaliação dos meus alunos a qualquer tipo de curva, contra-curva, onda, ondinha ou caracol. Por isso nunca me deixei emocionar por nenhuma das teses, que considero razoavelmente datadas e com graus de validade empírica meramente à macro-escala e que se dapta com dificuldade a grupos pequenos formados de modo não-aleatório (caso da curva de Gauss) ou então meros exercícios volitivos teoricamente bem-intencionados (curva em J).

Por isso nunca consegui achar grande graça às teorias de De Landsheere – a aplicação da teoria de Gauss seria um método de selecção artificial dos alunos – que foram servidas à saciedade na formação de professores nos últimos 20-30 anos entre nós. Aliás, se fossem válidas e evidentes, seria estranho que quem foi (de)formado com base nelas não consiga, posteriormente, encontrar maneira de as aplicar na realidade que enfrenta.

Nem aceito que, por não concordar com a tal curva J, me sejam imputadas malfeitorias intelectuais e elitismos sociais como aqueles que as obras de vulgarização da «Pedagogia do Sucesso» gostaram de lançar sobre todos os que com elas não concordam.

Neste caso temos um das mais populares autores desta tendência (para além do próprio Landsheere) com obra publicada entre nós ainda na primeira metade dos anos 80 e que teria forte presença nas bibliografias essenciais dos Ramos de Formação Educacional e afins.

Como no seio de cada grupo de alunos a curva de Gauss é reproduzida com exactidão, a finalidade dos professores tornou-se mais uma confrontação de cada aluno com este modelo de classificação interindividual do que o domínio real dos objectivos pedagógicos.
(…)
Se, pelo contrário, se renunciasse à classificação e à competição interindividuais, poder-se-ia chegar a uma mestria geral, ou seja, à realização pela maior parte dos alunos de um mínimo de performances previamente estabelecidas. Este é, pelo menos, o ponto de vista de certos autores que falaram de uma pedagogia da mestria (Mastery Learning), tendo como alvo o domínio geral dos objectivos estabelecidos.
Estes autores partem da ideia de que a noção de insucesso não pode ser justificada do ponto de vista pedagógico. As possibilidades da educação são realmente ilimitadas e os eventuais insucessos escolares devem ser, de preferência, explicados pela ineficácia dos nossos métodos e não pela incapacidade dos alunos. Se se assegurassem para todos os alunos as condições de aprendizagem apropriadas, a mestria seria generalizada. (César Birzea, A Pedagogia do Sucesso, Lisboa, Livros Horizonte, 1984, pp. 12-13)

Claro que actualmente vivemos, pela mão de Valter Lemos, ele próprio um subproduto desta matriz ideológica em virtude do contexto específico da sua formação amestrada em Boston (como o era para outras paragens Ana Benavente), um período em que a imposição da curva em J para o sucesso dos alunos é baseado em teorias de há 40 anos, florescentes há 25 anos, mas que a realidade insiste em desconfirmar.

Aliás, as mesmas pessoas que defendem a possibilidade do sucesso para todos os alunos, e deslocam para os docentes a culpa pelo insucesso, são as mesmas que depois justificam a impossibilidade de todos ou uma parte dos docentes serem excelentes ou muito bons. E não percebem que a argumentação da curva em J faz ricochetear a responsabilidade por essa impossibilidade para os governantes na área educativa que, dessa forma, serão responsáveis por não terem criado as condições ideais para todos os docentes poderem alcançar a mestria nas suas funções.

E nem é bom falar na questão de se criticar a concorrência como factor que pode potenciar o insucesso e depois se defender a concorrência como meio de aperfeiçoam,ento da performance das organizações escolares.

E não me venham com a desculpa de serem níveis diferentes de análise porque a teoria da curva em J é de tipo totalitário e excludente (como a da curva de Gauss ou Bell Curve, na formulação anglófona), pois arrasa as teorias adversárias com teorias de tipo ético e moral em cima dos argumentos “científicos”. O que é habitual em todas as teorias que pretendem a homogeneização forçada do comportamento humano.

No meu caso, já afirmei que discordo das tentativas para fazer encaixar a realidade neste tipo de modelos teóricos.

A principal razão é improvável, ou talvez não: cada vez mais acredito que sou um liberal radical nato, crente nas leis da livre concorrência e da expressão individual das capacidades de cada um, a partir de uma situação básica de igualdade de oportunidades. Não gosto de quotas para nada e muito menos da obediência a grelhas estatísticas ou metateorias não ancoradas devidamente na realidade. Acho que a concorrência deve obedecer a regras, mas estas são linhas condutoras e não espartilhos.

Que depois os pseudo-liberais ou pseudo-igualitaristas só o sejam em parte da sua argumentação apenas me incomoda parcialmente, pois em boa verdade essa forma de argumentarem é extremamente útil por lhes deixar todo um flanco aberto à crítica.

O SIADAP com as suas 20 páginas e 89 artigos.