Quarta-feira, 26 de Dezembro, 2007


Publicadas na véspera de Natal para colegas colocados em escolas de Peniche, Odivelas, Monte da Caparica e Mora.

Espero que não tenham sido daqueles colegas deitados borda fora após anos e anos de trabalho e que pelo menos tenham feito este trajecto de forma voluntária.

Neste momento, não sei os lamente, se os inveje. Trabalhar com a exmª drª Simonetta não é a coisa mais fácil do mundo mas, por comparação com a nossa exmª srªa drâ socióloga, tudo é um doce.

Vulgo curso para obtenção de grau de licenciado em Educação Básica. O que aqui e aqui vejo.

É que os planos de estudos são uma coisa verdadeiramente fabulosa se for para os tais licwenciados em seis semestres ou três anos (como se vê há nuances na oferta) leccionarem os primeiros seis anos de escolaridade.

E esta é igualmente excelente.

Politécnicos querem doutores

Parece que já estão a preparar umas Novíssimas Oportunidades para isso. Doutores formados num mês, com sessões não muito intensiva para não cansar aos fins de semana e provas de recuperação para quem faltar a mais de 50% das aulas.

O ministro Gago não se deve opor desde que seja tudo em regime de fundações e outras coisas assim.

A mensagem de Natal de José Sócrates ao país revelou até que ponto ele e cassete discursivo que usa estão cansados e pardacentos para consumo interno. Este é outro que, ao fim de meia dúzia de viagens pela Europa, entrevistas a jornais de referência e um cumprimentos mais calorosos de quem interessa, já deve estar a pensar o que irá fazer “lá fora” daqui por uns anos, quando o Zé voltar.

Mesmo as imagens cada vez mais encenadas destes momentos não impediram que passasse para o lado de cá o ar de tédio e obrigação formal a cumprir pelo emissor da mensagem mortiça.

Não fora a “tradição” alguém lhe daria pela falta? Existindo alguém percebe a relevância?

Nem um sumário meu de uma aula anterior deverá ser coisa tão chata e, apesar de relativamente breve, tão arrastada.

O texto em si é mau, pois ao querer ser mobilizador começa logo por tentar estabelecer um nexo pouco lógico:

Nesta quadra, que é de reencontro e de celebração dos valores da família e da paz, o meu pensamento vai para o esforço que os portugueses fizeram para fazer do ano de 2007 um ano de recuperação e um ano de resultados positivos para o País.

O que terá a paz a ver com os seus pensamentos e isso com os esforços dos portugueses escapa-me seriamente. Assim como todos sabemos que a haver resultados positivos, ninguém deu sinceramente por isso, tirando Teixeira dos Santos, Vital Moreira, Joe Berardo e algum vencedor de um concurso televisivo. Até para o que cá passa por capitalismo a coisa correu mal, nomeadamente com as OPA e agora o descalabro do BCP.

Em seguida, e quase sem anestesia prévia, o nosso primeiro decidiu despachar o essencial da mensagem:

Neste ano, o défice orçamental ficará abaixo 3% o que significa que as contas públicas estão finalmente controladas e que vencemos a crise orçamental dos últimos anos. Neste ano cresceremos também já próximo dos 2% – o maior crescimento dos últimos seis anos – o que vem confirmar que a nossa economia prossegue de forma consistente uma trajectória segura de crescimento. A nossa economia fica assim mais bem preparada para enfrentar os desafios e as incertezas da economia global.

A esta tirada bastaria anexar o sketch dos Gato Fedorento sobre os 3% e ficaríamos conversados.

Mas até se podem acrescentar dois ou três detalhes como o facto da “crise orçamental” ter sido ultrapassada, ao que se vai percebendo, graças a truques de secretaria que o Tribunal de Contas “descascou” (e a UE e o Eurostat saberão porque não o fizeram), que o crescimento será insuficiente para nos impedir de continuarmos descer nos rankings da economia comunitária e, por fim, a nossa economia não está “mais bem” preparada para nada.

Claro que depois teria de vir a questão das «qualificações»:

(…) este ano o País mobilizou-se para enfrentar aquele que é o seu mais grave problema estrutural – o défice das qualificações.

Quando sabemos que temos um desemprego qualificado superior ao não-qualificado isto é particularmente confrangedor, assim como quando se conhecem cursos de qualificação com aqueles para special ones que demonstram toda a seriedade colocada na forma de distribuir os milhões comunitários na produção de certificações e diplomas em massa.

Na sua trajectória solipsista de descolamento da realidade, tomando a vida das pessoas por números, temos ainda direito a que seja afirmado que:

Segundo os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística, nestes últimos dois anos e meio a economia criou em termos líquidos 106.000 novos empregos.

A forma como este número é alcançado deveria ser interessante de explicar, quando o desemprego aumenta, a população tem dos mais baixos crescimentos do mundo ocidental e o fluxo migratório voltou a ser no sentido da saída de Portugal de nacionais e imigrantes de Leste, o que impede um acréscimo significativo da população activa ou esse é conseguido através da extensão do período de trabalho e limitações às aposentações. Mas um discurso destes é felizmente curtinho.

Depois vem, claro, o facto de Portugal ter sido muito bem sucedido enquanto intermediário de acordos europeus e se terem realizado em Lisboa imeeeeennnnssssoooossss eventos de grande importância e porreirismo. Citam-se mesmo as belas palavras do “poeta e político português” sobre a nossa língua e as lágrimas mirram ainda mais nos nossos olhos.

Quase acabar a estocada final de cinismo ao afirmar-se que:

No ano de 2008 todos os idosos com mais de 65 anos e que tenham rendimentos abaixo do limiar de pobreza terão direito a um complemento solidário que lhes permita viver uma vida com dignidade.

Quando se esquece que esse é um limiar da vergonha e que quem está pouco acima desse limiar continuará como está e muitos idosos, igualmente pobres, passarão a ser alvo do fisco.

Mas ficamos todos tranquilos quando Sócrates, o mesmo que impõe quotas para a progressão nas carreiras e preside a um governo que pratica uma política de racionamento nas aposentações, para não falar da forma como se vai munindo de todos os instrumentos para abafar o Estado e a sociedade dita civil (veja-se como o BCP vai ser metido no bolso do PS), nos declara que:

Mas queremos igualmente ser uma sociedade solidária que não deixe ninguém ficar para trás no desenvolvimento e que dê a todos mais oportunidades para realizarem o seu potencial individual.