Tenho neste momento pessoa amiga a trabalhar na Alemanha e com os filhos a frequentarem a Escola Pública lá do sítio, curiosamente aquela que dá mais condições a famílias que trabalham. Uma em idade pré-escolar, outra no equivalente ao 1º CEB.

Os miúdos são bilingues, com convém na descendência de um casal luso-alemão. No entanto, mal foi detectado um vago problema na expressão oral na mais petiza, imediatamente chamaram a família e à escola e comunicaram (note-se que não consultaram ou inquiriram se a família estava de acordo) que iria ser acompanhada semanalmente por uma terapeuta da fala, até que se considerasse o problema resolvido.

Por ocasião de deslocações a Portugal, quando as mesmas não coincidem com interrupções lectivas do calendário local (as quais são mais frequentes do que as nossas, note-se), a família é obrigada a cumprir um plano de estudos durante a ausência da escola. Em nenhum momento se considera a hipótese das faltas serem discricionárias (para “apanhar sol” numa das muitas expressões a que MLR nos habituou para legitimar o impensável) e depois logo de faz uma prova de recuperação.

Voltei a lembrar-me hoje disto numa reunião que acabou com 10 planos de recuperação numa turma de 20 alunos onde se acumula todo o género de dificuldades, desde as “simples” de aprendizagem, às mais complicadas do foro emocional ou social.

Neste último caso, são especialmente notórios os casos de dois alunos que apresentam uma completa incapacidade para concentrar-se nas aulas, para organizar um caderno diário, para desenvolver uma tarefa de forma consequente e que revelam ainda, em cada um dos casos, comportamentos complicados de gerir do ponto de vista psicológico.

  • Num caso a preocupação completa da aluna é em concentrar as atenções, se necessário à custa dos comportamentos mais disparatados (deitar o material para o chão, perturbar voluntariamente os colegas, interrompendo seja quem for que esteja a falar com observações despropositadas), assim como em castigar quem seja que se lhe oponha ou não aceda às suas exigências (de puxar o cabelo a tentar virar a mesa de trabalho, passando por perseguições de colegas até casa). O Conselho de Turma achou aconselhável que houvesse uma observação pelo SPO e um encaminhamento para a área da pedopsiquiatria, com vista a um diagnóstico da situação (suponho que é isto que o outro investigador chamará a «psicologização do insucesso»). Mas todos sabemos qual é a via sacra de tudo isto (claro que a família não tem meios para recorrer a consultas particulares, pagas em bom dinheiro vivo): relatório do CT, do SPO, ida de um professor dos apoios ao Centro de Saúde para contactar o sector da Saúde Escolar – o que pode levar a uma espera de horas -, consulta com o médico de família, credencial para a criança aceder a uma consulta de especialidade no Hospital mais próximo com essa valência, espera de semanas ou meses pela consulta, etc, etc. Com sorte, teremos o diagnóstico para lá da Páscoa; com azar não o conseguiremos em tempo útil deste ano lectivo.
  • No outro caso, a situação mais preocupante é a extrema insegurança, nervosismo e ansiedade que o aluno revela em relação ao seu desempenho. Chega a fantasiar acidentes para não fazer testes (é a mão que está magoada e não pode escrever, é a perna que dói) e numa aula minha mordia o lábio de forma compulsiva até quase sangrar. Aprofunda-se um pouco esta insegurança – ou “imaturidade” como foi diagnosticado – e descobre-se que o miúdo, cujos pais se separaram recentemente, vive com os avós e tem como missão, antes e depois das suas aulas, levar e ir buscar uma irmã mais nova ao infantário, entre outros deveres familiares. Fez 10 anos há muito pouco e, à luz de tudo isto, percebe-se que leve o dia na escola sobre brasas. Entende-se a ansiedade e a incapacidade de concentração. Não se sabe é como resolver a situação envolvente que provoca tudo isto. Se for contactada a Protecção de Menores, vai para o fim da lista, que existem centenas de casos semelhantes ou piores para ser analisados e resolvidos.

E, perante isto, temos um Conselho de Turma e uma Escola que se esforça por perceber os caminhos para garantir o sucesso a alunos como estes, em evidente situação de risco educacional. Claro que para a tutela estes são casos dramáticos individuais e aposto que haverá quem ache que os recursos da Escola chegam para resolver a situação.

Eu acho que não. Que a Escola não resolve tudo. Que não pode resolver tudo. Porque não tem os meios para isso e porque a nossa missão como professores não é escrever um par de “3” na pauta e deitar o resto para trás das costas como se, obtido o Sucesso para as estatísticas, tudo ficasse bem. Porque não fica.