Segunda-feira, 17 de Dezembro, 2007


Um dia ainda vos conto as minhas desventuras no reino da produção de manuais escolares. Tive duas experiências, comercialmente falhadas mas enriquecedoras do ponto de vista profissional e pessoal (uma pela negativa, outra pela positiva), pois fiquei a perceber como se passam as coisas.

Mas por agora fica a referência a um conjunto de diplomas destinados a enquadrar a adopção e certificação dos manuais escolares.

O processo de adopção passa a ser regulado por este diploma, enquanto o calendário fica determinado por este.

Quanto à certificação dos manuais, o despacho do SE Jorge Pedreira contém um anexo onde só falta prescrever-se o local onde se devem colocar os pontos finais, tamanho é o detalhe das especificações para o efeito. Mas a parte mais substantiva do despacho é aquela em que o Ministério abdica do seu papel de avaliador e o delega nas instituições que o desejarem fazer, desde que sejam aprovadas num processo de acreditação.

A solução coloca-me alguns problemas, porque se determina que depois de acreditadas as instituições com capacidade de certificar manuais, as editoras podem escolher aquelas a que apresentam os seus manuais, sem que eu veja claramente explicitadas certas situações de teórica incompatibilidade que me ocorrem com muita facilidade.

Para além disso, determina-se que a certificação de cada manual escolar poderá custar um total de € 10.000 (€ 2.500 pagos pelas editoras e até € 7.500 comparticipados pelo Estado, conforme protocolos estabelecidos com cada uma das entidades acreditadas para o efeito), o que me parece muito. Se multiplicarem este valor pelo número de manuais em circulação actualmente, e mesmo que no futuro o seu número venha a ser (espero que sim!) racionalizado, isto é um negócio de muitos milhões de euros.

Como será regulado esse negócio, como serão estabelecidos os protocolos, que entidades serão certificadas e tudo o mais, é todo um mundo que se abre para relações preferenciais entre o ME e alguns parceiros.

Só não percebo porque é que a robustez e o peso só podem ser verificados pela DGIDC.

Adenda: Links actualizados em relação à versão original do post.

Tenho neste momento pessoa amiga a trabalhar na Alemanha e com os filhos a frequentarem a Escola Pública lá do sítio, curiosamente aquela que dá mais condições a famílias que trabalham. Uma em idade pré-escolar, outra no equivalente ao 1º CEB.

Os miúdos são bilingues, com convém na descendência de um casal luso-alemão. No entanto, mal foi detectado um vago problema na expressão oral na mais petiza, imediatamente chamaram a família e à escola e comunicaram (note-se que não consultaram ou inquiriram se a família estava de acordo) que iria ser acompanhada semanalmente por uma terapeuta da fala, até que se considerasse o problema resolvido.

Por ocasião de deslocações a Portugal, quando as mesmas não coincidem com interrupções lectivas do calendário local (as quais são mais frequentes do que as nossas, note-se), a família é obrigada a cumprir um plano de estudos durante a ausência da escola. Em nenhum momento se considera a hipótese das faltas serem discricionárias (para “apanhar sol” numa das muitas expressões a que MLR nos habituou para legitimar o impensável) e depois logo de faz uma prova de recuperação.

Voltei a lembrar-me hoje disto numa reunião que acabou com 10 planos de recuperação numa turma de 20 alunos onde se acumula todo o género de dificuldades, desde as “simples” de aprendizagem, às mais complicadas do foro emocional ou social.

Neste último caso, são especialmente notórios os casos de dois alunos que apresentam uma completa incapacidade para concentrar-se nas aulas, para organizar um caderno diário, para desenvolver uma tarefa de forma consequente e que revelam ainda, em cada um dos casos, comportamentos complicados de gerir do ponto de vista psicológico.

  • Num caso a preocupação completa da aluna é em concentrar as atenções, se necessário à custa dos comportamentos mais disparatados (deitar o material para o chão, perturbar voluntariamente os colegas, interrompendo seja quem for que esteja a falar com observações despropositadas), assim como em castigar quem seja que se lhe oponha ou não aceda às suas exigências (de puxar o cabelo a tentar virar a mesa de trabalho, passando por perseguições de colegas até casa). O Conselho de Turma achou aconselhável que houvesse uma observação pelo SPO e um encaminhamento para a área da pedopsiquiatria, com vista a um diagnóstico da situação (suponho que é isto que o outro investigador chamará a «psicologização do insucesso»). Mas todos sabemos qual é a via sacra de tudo isto (claro que a família não tem meios para recorrer a consultas particulares, pagas em bom dinheiro vivo): relatório do CT, do SPO, ida de um professor dos apoios ao Centro de Saúde para contactar o sector da Saúde Escolar – o que pode levar a uma espera de horas -, consulta com o médico de família, credencial para a criança aceder a uma consulta de especialidade no Hospital mais próximo com essa valência, espera de semanas ou meses pela consulta, etc, etc. Com sorte, teremos o diagnóstico para lá da Páscoa; com azar não o conseguiremos em tempo útil deste ano lectivo.
  • No outro caso, a situação mais preocupante é a extrema insegurança, nervosismo e ansiedade que o aluno revela em relação ao seu desempenho. Chega a fantasiar acidentes para não fazer testes (é a mão que está magoada e não pode escrever, é a perna que dói) e numa aula minha mordia o lábio de forma compulsiva até quase sangrar. Aprofunda-se um pouco esta insegurança – ou “imaturidade” como foi diagnosticado – e descobre-se que o miúdo, cujos pais se separaram recentemente, vive com os avós e tem como missão, antes e depois das suas aulas, levar e ir buscar uma irmã mais nova ao infantário, entre outros deveres familiares. Fez 10 anos há muito pouco e, à luz de tudo isto, percebe-se que leve o dia na escola sobre brasas. Entende-se a ansiedade e a incapacidade de concentração. Não se sabe é como resolver a situação envolvente que provoca tudo isto. Se for contactada a Protecção de Menores, vai para o fim da lista, que existem centenas de casos semelhantes ou piores para ser analisados e resolvidos.

E, perante isto, temos um Conselho de Turma e uma Escola que se esforça por perceber os caminhos para garantir o sucesso a alunos como estes, em evidente situação de risco educacional. Claro que para a tutela estes são casos dramáticos individuais e aposto que haverá quem ache que os recursos da Escola chegam para resolver a situação.

Eu acho que não. Que a Escola não resolve tudo. Que não pode resolver tudo. Porque não tem os meios para isso e porque a nossa missão como professores não é escrever um par de “3” na pauta e deitar o resto para trás das costas como se, obtido o Sucesso para as estatísticas, tudo ficasse bem. Porque não fica.

Já faz parte do anedotário das campanhas políticas americanas a iniciativa que James Carville teve, enquanto gestor da primeira campanha presidencial de Bill Clinton, de colar um cartaz na sala principal de reuniões do staff onde se lia em letras enormes It’s the Economy, Stupid!

A ideia subjacente era a de que, por muito que outras matérias tenham interesse para os eleitores (americanos, mas aposto que não só), a economia é o motor essencial para a avaliação do desempenho de um governo. E por “Economia” entende-se não apenas as estatísticas intangíveis, a política financeira, a globalização e etc, mas principalmente os níveis de desemprego e de rendimento disponível no bolso dos consumidores.

Por isso mesmo, e por muito que Clinton se sentisse atraído pelas questões educativas e outras causas sociais, a verdade é que a sua governação se preocupou essencialmente em erguer a economia americana da crise em que mergulhara à saída dos anos 80 e durante a presidência de Bush Sr.

Entre nós esta lição não foi aprendida e parece entender-se “Economia” como quase tudo aquilo que não tem o impacto directo na vida quotidiana das pessoas: endeusa-se a luta contra o défice, propagandeias-se a necessidade de inovação, anunciam-se PIN’s, camapnhas de marketing, etc, etc, mas se excluirmos meia dúzia de nichos de mercado e a Autoeuropa, a Economia afundou-se por completo, aniquilados que foram muitos dos sectores tradicionais e ausentes que estão sectores de ponta que puxem pelo resto da actividade económica.

O resultado está à vista: o empobrecimento constante do país, com especial destaque para a maioria da população, cujo poder de compra está em quebra acentuada em relação à média europeia, enquanto as perspectivas de crescimento, de acordo com as previsões do The Economist, são pouco melhores do que medíocres, apontando para a continuação da nossa descolagem do pelotão intermédio da UE, pois começamos a ser ultrapassados pela nova cauda da Europa comunitária.

Os argumentos tradicionais de sermos um pequeno país, com poucas matérias-primas e baixo nível de qualificação são lindíssimas, mas esquecem que países pequenos, sem especiais riquezas, como a Irlanda ou o Luxemburgo estão na frente do pelotão e que os micro-países bálticos estão a caminho de nos passar a perna, coisa que até Chipre e Malta já conseguiram.

E eu que não sou um fanático da Economia à frente de tudo, continuo a achar que o fracasso de Portugal se deve à incapacidade de desenvolver economicamente o país e que enquanto assim for é impossível esperarmos que o resto possa ter um desenvolvimento sustentado.

Porque o aumento do desemprego e a quebra dos rendimentos tem, por exemplo na área da Educação, efeitos devastadores na instabilidade financeira e emocional das famílias e na pressão para a inserção precoce dos jovens em empregos precários mas que, no curto prazo, se revelam essenciais e até uma escolha racional do ponto de vista da gestão dos orçamentos familiares.

E quando temos uma mão de obra qualificada desempregada na ordem dos 20%, ainda afirmam que o nosso défice é de qualificações? Mas de que qualificações falam? De cidadãos certificados como «profissionais da prática de futebol»?

O governo tem, como todos os outros, os anteriores e os que lhe seguirão (lamento informar o senhor primeiro-ministro, mas haverá mais governos depois deste), um problema com as estatísticas. Geralmente, e muito surpreendentemente, as estatísticas atrapalham os números e, sobretudo, os bons números. Um dos processos para contrariar esta desobediência das estatísticas é o de impedir que elas “excluam”; pelo contrário, devem “incluir”. Se há notas muito negativas a matemática, ou a, digamos, física-química, um dos processos que pode ser usado é o de subir as notas ou moderar os critérios de classificação. Logo, fica muito mais gente “incluída” e as estatísticas melhoram. Se há “abandono escolar”, acabar-se com os chumbos por faltas pode ser um processo “facilitador”.
(…)
Os pais sabem, às vezes tardiamente, os bons professores sabem, por muitos anos de experiência, que “facilitar as coisas” pode mostrar um mundo perfeito. Mas o mundo perfeito não existe. Eu entendo bem os pedagogos visionários e utópicos, que prevêm que com divertimento e tolerância tudo se arranja e o mundo ficará melhor. Mas não fica. Não vai ser. Pensamos que basta dar o exemplo, ler, ouvir música, usarmos computadores, sermos tolerantes – e generosos, educados, prestáveis, interessados. Com isso o mundo seria melhor. Mas não basta, infelizmente não basta.

Continua no Jornal de Notícias.

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Agora já com direito a imagem e transcrição do texto no Umbigo ao Quadrado, graças à simpatia de todos aqueles que formam a rede de amigos e colaboradores do blogue, neste caso amigas, a Maria Ema (imagem) e a Isabel (texto). A publicação foi originalmente no sábado.

Vale principalmente pelos exercícios de memória e pelo que entre eles se nota de relativa falta de sintonia. O resto é chapa 3 do JMF cristão, desculpem, liberal-novo.