É a minha opinião a propósito desta dúvida da Maria Lisboa.

E passo a explicar porquê.

Uma coisa interessante em torno das notícias sobre eventuais remodelações governamentais é que, mal se aflora o nome de Maria de Lurdes Rodrigues, vêm acopladas duas notas: que tem o apoio de Sócrates e «é muito bem vista em Belém», sendo que por esta última parte se infere que o Presidente da República será defensor da sua manutenção no Governo e, por extensão, das políticas do ME, a que alguns chamam «reformas».

Eu acho que, a não ser tudo mero spin (e este fim de semana à tanto spin nos jornais a esse respeito que eu ousaria socorrer-me do conceito de hiperspin), alguma coisa bate errado. Porque vejamos: este ano Cavaco Silva já colocou o tema da Educação em cima da mesa por mais de uma vez numa dupla vertente: a dos resultados, mas igualmente a do clima entre governo e docentes.

Hoje temos mais novas desse tipo de recado:

O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, afirmou hoje que em democracia, os agentes políticos “têm que estar preparados para ouvir a voz do povo”, numa referência ao diálogo do governo com os professores.
“Espero que o diálogo de todos os intervenientes no processo educativo se possa aprofundar”, disse também o Chefe de Estado, que falava em Matosinhos, onde assistiu à assinatura de um protocolo para combate ao insucesso escolar que envolve a autarquia, escolas e empresários.
Considerando que a escola “é a instituição inclusiva por excelência e nela os professores desempenham um papel decisivo” Cavaco Silva frisou que a sociedade portuguesa “tem de contar com a sua motivação, a sua dedicação e o seu entusiasmo”.

Eu penso que, para um único tema, Cavaco Silva tem durante 2007 dado demasiadas vezes a sensação de estar algo desconfortável com o clima de crispação entre os professores e o ministério (para não personalizar ninguém, pois sendo o trio facilmente separável, não deixa de agir em conjunto) e que não podemos sacudir esta insistência como sendo uma forma subtil de, indirectamente, estimular o Governo nas suas reformas.

Essa seria a versão-Vitalino Canas ou a versão-Vital Moreira. A versão-cassete. Na qual só acreditam aqueles que ainda vivem mental e politicamente nos tempos da cassete, seja ela desta ou outra cor.

Mas se fosse assim, chegavam os discursos do Ano Novo e do 5 de Outubro. E a coisa não tem ficado por aí. Há claramente no ar uma mensagem a partir de Belém para a 5 de Outubro. E o próprio Governo tem percebido isso, pois a Educação tem sido a área da governação, onde a titular da pasta mais tem aparecido com números e relatórios nas mãos para confirmar a sua imensa obra.

Só que Cavaco Silva foi Primeiro-Ministro muito tempo e desses truques sabe mais do que o suficiente. Então com uma assessoria para estas questões como a que tem, só será enganado pela propaganda se quiser. E a verdade é que parece estar renitente em deixar-se colar demasiadamente às políticas que estão a deixar as escolas num clima de normalidade sobre brasas.

O clima que o ME desmente, mas que existe. Que não é por não se manifestar de forma explosiva que deixa de estar a minar gravemente a coesão e qualidade do ensino público.

E Cavaco Silva nem sequer é especialmente ambíguo nas suas afirmações, não deixando qualquer espaço de manobra para múltiplas leituras, que se queirasérias, das suas palavras, porque:

  • Coloca nos governantes a obrigação de «ouvir o povo».
  • Recomenda o aprofundamento do diálogo, quando se sabe que têm sido o ME e o Governo a bloquear esse mesmo diálogo, a desvalorizá-lo sistematicamente e a amesquinhar as organizações representativas dos professores, sejam os sindicatos, sejam as associações de outro tipo (ontem foi a Associação Nacional de Professores a entrar na lista negra).
  • Sublinha que a sociedade necessita do empenhamento e entusiasmo dos professores no cumprimento das suas funções, quando também se percebeu pela falta de adesão ao Prémio de Professor do Ano e pela quase completa ausência de vozes concordantes com o ME a partir das Escolas, que esse entusiasmo não existe.

Portanto, por muito que tentem dar a entender que o PR gosta muito da Ministra – verá nela uma Manuela Ferreira Leite mais desajeitada? – as evidências parecem demonstrar que então está satisfeito, no mínimo dos mínimos, com a forma como ela tem tratado os docentes.

Isso para mim já não é pouco, pois eu incluo a infeliz promulgação do ECD ministerial à conta da fase do mandato em que ele surgiu, quando a cooperação estratégica queria dar os primeiros passos.

Para além disso, em termos tácticos ou mesmo estratégicos, acho muito mais interessante encorajar uma rota – mesmo que suave – do PR ao encontro de algumas posições dos docentes, do que esbracejar muito e ariscar a que essa rota não avance mais.