Sábado, 15 de Dezembro, 2007


E o Independança vai ser reeditado 25 anos depois? Caramba, cada vez estou mais antigo.

gnr-independana-frente.jpg

mbp07.jpg

O Umbigo foi escolhido como o Melhor Blog Português de 2007 na área da Educação.

Falta só o Anterozóide ganhar na categoria de Humor (actualização das 18.30: ficou em 2º atrás do Há Vida em Markl, o que equivale, na prática, ao 1º lugar).

Isto vale mais do que o Lurditas d’Oiro, ainda por cima porque no júri estão dois tipos que levei anos a ouvir a caminho da trabalheira e gostaria que se voltassem a reunir num programa (Ribeiro & Markl).

Agora resta-me dizer que os outros nomeados ainda tornam esta atribuição mais meritória e tal, aquelas coisas que se devem dizer nestas alturas, paz no mundo, salvem as baleias e nhó-nhó-nhó.

cat.jpg

Ministério da Educação dá o dito por não dito e recusa 14 salas de aula à Câmara de Beja

Como o Público não dá link permanente e não quero transcrever toda a notícia, o resto fica aqui.

No seu editorial de hoje, José Manuel Fernandes dedica-se a abordar a questão da gestão das escolas. Li de passagem o texto e não tenho cópia em papel do exemplar (alguém que tenha possibilidade de aceder ao texto completo, agradeço que me a envie), mas retive o essencial:

A ideia entrevista nas declarações de Sócrates, que JMF deve associar às soluções «liberais» e de “envolvimento das comunidades», parece ser acolhida com agrado, chegando-se mesmo a alvitrar que se deveria ir mais além na área da «gestão».

No entanto, detectam-se fissuras nas posições dos defensores teóricos desta solução – que ainda não conhecemos – assim como JMF percebe que a LBSE em vigor esteve na base do veto aplicado por Sampaio (com palmas entusiasmadas do PS) ao projecto de revisão da Lei de Bases que David Justino apresentara e que contemplava soluções próximas destas.

Paternal, JMF recomenda que os actores políticos se entendam a este respeito e colmatem as brechas nas suas posições e linhas de argumentos.

Eu cá, acho que não estão em condições de o fazer. Mas cá estaremos para saber…

Entretanto, sobre o mesmo assunto, João Miranda escreve umas coisas no Diário de Notícias, sem grande conhecimento dos factos e caracterizando a traço muito grosso, para ridicularizar, a situação existente. A falta de capacidade analítica é tal, a carência de conhecimentos é de tal dimensão qu, aplicando a lógica dele, os accionistas da empresa detentora do DN deveriam pedir de volta o dinheiro que foi pago a JM por esta crónica.

É a minha opinião a propósito desta dúvida da Maria Lisboa.

E passo a explicar porquê.

Uma coisa interessante em torno das notícias sobre eventuais remodelações governamentais é que, mal se aflora o nome de Maria de Lurdes Rodrigues, vêm acopladas duas notas: que tem o apoio de Sócrates e «é muito bem vista em Belém», sendo que por esta última parte se infere que o Presidente da República será defensor da sua manutenção no Governo e, por extensão, das políticas do ME, a que alguns chamam «reformas».

Eu acho que, a não ser tudo mero spin (e este fim de semana à tanto spin nos jornais a esse respeito que eu ousaria socorrer-me do conceito de hiperspin), alguma coisa bate errado. Porque vejamos: este ano Cavaco Silva já colocou o tema da Educação em cima da mesa por mais de uma vez numa dupla vertente: a dos resultados, mas igualmente a do clima entre governo e docentes.

Hoje temos mais novas desse tipo de recado:

O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, afirmou hoje que em democracia, os agentes políticos “têm que estar preparados para ouvir a voz do povo”, numa referência ao diálogo do governo com os professores.
“Espero que o diálogo de todos os intervenientes no processo educativo se possa aprofundar”, disse também o Chefe de Estado, que falava em Matosinhos, onde assistiu à assinatura de um protocolo para combate ao insucesso escolar que envolve a autarquia, escolas e empresários.
Considerando que a escola “é a instituição inclusiva por excelência e nela os professores desempenham um papel decisivo” Cavaco Silva frisou que a sociedade portuguesa “tem de contar com a sua motivação, a sua dedicação e o seu entusiasmo”.

Eu penso que, para um único tema, Cavaco Silva tem durante 2007 dado demasiadas vezes a sensação de estar algo desconfortável com o clima de crispação entre os professores e o ministério (para não personalizar ninguém, pois sendo o trio facilmente separável, não deixa de agir em conjunto) e que não podemos sacudir esta insistência como sendo uma forma subtil de, indirectamente, estimular o Governo nas suas reformas.

Essa seria a versão-Vitalino Canas ou a versão-Vital Moreira. A versão-cassete. Na qual só acreditam aqueles que ainda vivem mental e politicamente nos tempos da cassete, seja ela desta ou outra cor.

Mas se fosse assim, chegavam os discursos do Ano Novo e do 5 de Outubro. E a coisa não tem ficado por aí. Há claramente no ar uma mensagem a partir de Belém para a 5 de Outubro. E o próprio Governo tem percebido isso, pois a Educação tem sido a área da governação, onde a titular da pasta mais tem aparecido com números e relatórios nas mãos para confirmar a sua imensa obra.

Só que Cavaco Silva foi Primeiro-Ministro muito tempo e desses truques sabe mais do que o suficiente. Então com uma assessoria para estas questões como a que tem, só será enganado pela propaganda se quiser. E a verdade é que parece estar renitente em deixar-se colar demasiadamente às políticas que estão a deixar as escolas num clima de normalidade sobre brasas.

O clima que o ME desmente, mas que existe. Que não é por não se manifestar de forma explosiva que deixa de estar a minar gravemente a coesão e qualidade do ensino público.

E Cavaco Silva nem sequer é especialmente ambíguo nas suas afirmações, não deixando qualquer espaço de manobra para múltiplas leituras, que se queirasérias, das suas palavras, porque:

  • Coloca nos governantes a obrigação de «ouvir o povo».
  • Recomenda o aprofundamento do diálogo, quando se sabe que têm sido o ME e o Governo a bloquear esse mesmo diálogo, a desvalorizá-lo sistematicamente e a amesquinhar as organizações representativas dos professores, sejam os sindicatos, sejam as associações de outro tipo (ontem foi a Associação Nacional de Professores a entrar na lista negra).
  • Sublinha que a sociedade necessita do empenhamento e entusiasmo dos professores no cumprimento das suas funções, quando também se percebeu pela falta de adesão ao Prémio de Professor do Ano e pela quase completa ausência de vozes concordantes com o ME a partir das Escolas, que esse entusiasmo não existe.

Portanto, por muito que tentem dar a entender que o PR gosta muito da Ministra – verá nela uma Manuela Ferreira Leite mais desajeitada? – as evidências parecem demonstrar que então está satisfeito, no mínimo dos mínimos, com a forma como ela tem tratado os docentes.

Isso para mim já não é pouco, pois eu incluo a infeliz promulgação do ECD ministerial à conta da fase do mandato em que ele surgiu, quando a cooperação estratégica queria dar os primeiros passos.

Para além disso, em termos tácticos ou mesmo estratégicos, acho muito mais interessante encorajar uma rota – mesmo que suave – do PR ao encontro de algumas posições dos docentes, do que esbracejar muito e ariscar a que essa rota não avance mais.

Embora saibamos que a doutrina do ME e de MLR é que os Açores não são bem Portugal, não deixa de ter interesse tomar conhecimento que:

Um aluno, de 13 anos, ameaçou uma professora na Escola Básica Integrada dos Arrifes, em São Miguel, nos Açores, perante a possibilidade de lhe ser instaurado um processo disciplinar. “Vais pagar”, foi a mensagem deixada na mesa da docente. O estudante transportava na mochila uma arma de fogo que foi de imediato apreendida pela PSP, chamada a intervir nesta ocorrência.
O caso, ocorrido há uma semana, foi ontem apreciado pelo conselho disciplinar de turma, que, com base no regulamento interno da escola, decidiu obrigar o aluno, entretanto suspenso preventivamente, à execução, em cumulação a esta medida disciplinar, de actividades de integração na escola.
(…)
“É muito grave que o aluno estivesse na posse de uma arma”, frisou o presidente do conselho executivo, José Freire, ressalvando que são “raríssimos” os casos de violência nesta escola e na região. Também o secretário regional da Educação, Álamo Menezes, considerou ser um caso isolado que não quis comentar, remetendo-nos para a direcção do estabelecimento de ensino. “É a escola que tem competências próprias para intervir nestes situações”, acrescentou. (notícia do Público sem link permanente)

E a ocorrência é exemplar porque:

  • Revela uma realidade de violência explícita em espaço escolar, que nem sempre chega ao conhecimento público. Mas que provavelmente o Observatório XPTO categorizará como mera “ocorrência disciplinar” visto que a professora não chegou a ser baleada ou esfaqueada.
  • As autoridades políticas locais acorreram logo a tentar minimizar a situação, considerando-a isolada.
  • O Conselho de Turma optou por uma sanção caricatural perante a gravidade das ameaças e do perigo da ameaça.

Como já aqui escrevi há algum tempo, durante cerda de 2,5 anos tive a meu cargo a instrução dos processos disciplinares da escola onde estava colocado, seguindo a legislação labiríntica nesta área criada durante o guterrismo-benaventismo.

Era uma escola medianamente complicada, com uma média de 4-5 casos graves por período. Nunca, em tempo algum, uma ameaça deste tipo – mesmo com muitos entraves burocráticos ou pressões “de cima” – a coisa se ficaria por varrer corredores ou limpar janelas durante um par de dias.

Porque a «mensagem» que passa é a errada. Não é a da inclusão, é a da demissão. E para as sacrossantas famílias, como a de qualquer um de nós, passa a mensagem de perigo e risco, em especial para os restantes alunos.

No meio disto tudo, realmente só a medida imediata da suspensão preventiva faz sentido. Assim como as declarações do PCE.

rangel1.jpg

E já não é a primeira vez. Já antes tinha destacado a prosa de Paulo Rangel sobre a «claustrofobia democrática». Desta vez elege os mesmos dois ódios de estimação neste Governo (Mário Lino e Manuel Pinho são demasiado anedóticos para os levarmos a sério) em entrevista ao Expresso (já incluída no Umbigo ao Quadrado a pedido do JLSarmento, embora seja daquelas entrevistas meio de passagem):

(…) José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues ocupam um lugar especial no seu coração: do primeiro-ministro disse que “não tem autoridade, os ministros andam à rédea solta; da responsável pela Educação referiu-se-lhe como “essa senhora foi a pior coisa que nos aconteceu”.

rangel2.jpg

Página seguinte »