Esta peça do Público de hoje, domingo (p. 16, sem link), faz-nos lembrar que ainda somos um país de emigrantes, mas não apenas fora de portas.

Também por cá o fenómeno dos miúdos que, com ou sem Escola a Tempo Inteiro, ficam entregues a si mesmos é algo estrategicamente esquecido pela propaganda do “sucesso”. Aqueles miúdos que, mesmo abrindo a escola às 8 e fechando às 18.30, continuam sem familiares disponíveis em casa. E a coisa não escolhe faixas etárias, pois acontece desde muito tenra idade.

São muitos os casos que qualquer professor conhece de crianças e jovens que chegam à escola tarde, porque os pais saíram cedíssimo de casa e eles ficaram entregues ao despertador, ou que chegam com tudo às avessas e sem um pequeno-almoço dado a horas. Ou os que ficam sem destino certo quando atravessam os portões, mesmo que seja noite cerrada de Inverno, pelas seis e meia, sete da noite, porque em casa não mora ainda ninguém e em muitos casos só pelas 8-9 chega alguém, quando não é ainda mais tarde. Pior ainda nas zonas suburbanas, de famílias atomizadas e sem a chamada “rectaguarda”, familiar ou vicinal. E em muitas situações nem têm a chave para entrar em casa, nem as suas famílias são aconselhadas sobre a forma como agir, como acontece em outras paragens.

Os casos particulares são demasiado dramáticos, ou mesmo dolorosos, para evocar. E não têm melhorado nos últimos anos.

Aliás, como se afirma na peça, este fenómeno dos lachtkey kids (“miúdos com chave”) está longe de ser exclusivamente português, não é desconhecido, mas apenas esquecido:

Não há dados sobre miúdos com chave em Portugal. Armando Leão, presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco (CNPCJR), admite que, no corre-corre-quotidiano, possam ser cada vez mais. Maia Neto, representante da Procuradoria-Geral da República naquela estrutura, acha que [o] quadro já foi mais grave.
(…)
Este aspecto “não tem sido referido” no relatório anual do CNPCJR. “É um fenómeno que, tanto quanto é do meu conhecimento, não está caracterizado em Portugal”, refere, num curto contacto telefónico, Armando Leandro.

E é pena. Porque há dinheiro para pagar levantamentos legislativos sem utilidade óbvia para a qualidade de ensino e há subsídios para pagar a organizações teoricamente representativas dos interesses das famílias que não actuam em matérias cruciais como estas.

São os fenómenos sociais que não interessa divulgar ou deixar que fiquem muito visíveis. Damos por eles quando acontecem lá fora, com os nossos emigrantes, suscitando a acção das autoridades desses países.

Nós por cá, encolhemos os ombros e viramos as costas.

Pelo menos não “caracterizamos” o fenómeno. Ou “achamos” que já foi mais grave.

É o chamado sociologismo-achismo.

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