Sábado, 8 de Dezembro, 2007


(c) Antero Valério

José António Saraiva faz hoje, na revista Tabu do Sol, uma quase completamente esclarecida crítica à polémica entre Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente. Acerta na “muge” quando afirma que os dois são terroristas verbais e que usam a intimidação para afastar críticos da sua obra. E que reagem mal quase sofrem qualquer crítica, porque se sentem como que intocáveis pelo vulgo, a quem desprezam de forma ácida. E que são malcriados. E pouco coerentes, em especial MST.

É uma crónica quase perfeita, quase servindo de penitência por algumas dezenas de crónicas anteriores a roçar o lamentável.

Só que esbarra em dois problemas menores: um de contexto e outro de conteúdo.

  • O de contexto é que JASaraiva escreve muito sobre os pecados dos outros e esquece-se que na mesma revista o seu último livro é promovido com pouco pudor em jeito de reportagem de duas páginas apologéticas, sem qualquer tipo de análise crítica (pelo menos no Independente fingiam que faziam uma espécie de recensão aos livros de VPV, mesmo se acabassem sempre com o diagnóstico de “obra genial”).
  • O de conteúdo é porque, para enquadrar a polémica MST/VPV, Saraiva saca da sua erudição vasta e cuidada e escreve:

Em Portugal, as polémicas no mundo literário têm história. A segunda metade do século XIX assistiu a duelos verbais inesquecíveis. Nos alvores do Estado Novo ficou célebre o tiroteio entre Almada e Júlio Dantas (imortalizado no Manifesto Anti-Dantas).

Problemas:

  • O Manifesto Anti-Dantas não imortalizou nenhuma polémica. Deu início a uma.
  • O Manifesto Anti-Dantas é de 1915.
  • O Estado Novo inicia-se em 1933 com o plebiscito da Constituição preparada por Salazar no ano anterior quando ascende a Presidente do Conselho de Ministros.
  • Com sorte, os alvores do Estado Novo podem retrospectivar-se a meados dos anos 20 e à Ditadura Militar.
  • José António Saraiva é o autor de obra sobre este período histórico.

PIM

Anexo: O MAD em versão declamada.

 

A versão original, com um Pete Burns ligeiramente menos feminino está aqui.

Em artigo do Expresso sobre as hipóteses de remodelação, assinado por Fernando Diogo, o mesmo que faz a caracterização dos CEF nas páginas 2-3:

A mesma fonte [um destacado elemento da Comissão Política do PS] considera que a posição de Maria de Lurdes Rodrigues é ainda mais sólida [do que a de Correia de Campos] pois além do apoiopessoal de José Sócrates, que já a terá dissuadido de apresentar a demissão por mais de uma vez, goza também de grande consideração na Presidência da República.

É altura de reler o post sobre a questão da carta aberta, dos cursos profissionais e do blogue dos assessores.

Mas logo a seguir escreve-se na mesma peça, atribuindo a uma fonte próxima de José Sócrates, que Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues:

São ministros que já cumpriram o seu ciclo de reformas.

Pelo que serão reformáveis. No caso de MLR o papel de testa-de-ferro já não é muito necessário, pois o grosso das asneiras está feito, mesmo se só daqui por uns anos tudo se notará em pleno.

E continua a jogo cruzado das «mensagens». Resta saber em que sentido estarão a «passar».

Ler com toda a atenção a pequena peça que hoje vem no Expresso sobre a questão dos critérios usados pelo Observatório da Segurança Escolar (confesso que de cada vez que leio o nome parece mudar) para elaborar o seu relatório sobre violência nas Escolas (cliquem para aumentar)

viol.jpg


Como o exercício de camuflagem, para além de mandar “limpar” certas ocorrências das estatísticas também as “empurrou” para fora das Escolas, fazendo-as recair na área de acção do MAI, a coisa provavelmente não terá caído bem fora da 5 de Outubro, porque a quebra de casos nas Escolas fez disparar os casos em redor das ditas.

Para além disso note-se como o ME nega o acesso aos dados sobre a situação nos TEIP (olha eu num e ao lado de outro), assim como (não) responde às dúvidas colocadas pelas jornalistas.

Porque esta é mais uma das enorme manobras de mistificação estatística em decurso, baseada no princípio de que mudando os números a realidade percepcionada pela opinião pública pode ser moldada. Ou «se mudarmos os números e manipulando a informação, mudamos a realidade sobre a qual se fala e sobre a qual se fazem análises».

Por isso as nossas estatísticas são historicamente uma miséria em termos de qualidade.

Dia 5 de Novembro publicou-se aqui no Umbigo uma carta que já circulava na blogosfera e por mail há uns dias do professor aposentado Domingos Cardoso datada de 22 de Outubro e dirigida ao Presidente da República. No mesmo dia o António Ferrão também a publicou e o mesmo aconteceu em vários outros espaços, como o Apdeites que usou o Umbigo como fonte expressa.

Dia 12 de Novembro surgiu como artigo de opinião na newsletter Educare.

Dia 14 de Novembro foi publicada, como ia acontecendo com muitos outros blogues, no 4-República por Pinho Cardão.

Dia 8 de Dezembro, por fim, o assunto chega à imprensa nacional, merecendo destaque de primeira página do Expresso e larga cobertura nas páginas 2 e 3.

Na primeira página anuncia-se:

Professor denuncia ruína do ensino profissional

Um professor escreveu a pedir a intervenção do PR. A carta está no blogue de dois assessores de Cavaco.

Na página 2, lê-se:

O fracasso do ensino profissional

Carta está no blogue de dois assessores do PR.

Ora muito bem. Estou o mais de acordo possível com a carta e o seu conteúdo, assim como com o destaque dado pela imprensa “de referência” ao assunto.

Quanto ao resto, sobram-me imensas dúvidas, muitas mesmo, mas que são agrupáveis em duas grandes categorias, as quais resultam da minha enorme e escaldada (des)confiança nas agendas mediáticas e capacidade de reacção dos meios de comunicação convencionais.

Vamos lá:

  • A carta tem neste momento mês e meio e circula pelos blogues há mais de um mês, pois julgo que o Umbigo não terá sido o primeiro a publicá-la (mas quase…). Mesmo no 4-República está lá há quase quatro semanas. Curiosamente o assunto levou este tempo todo para ser considerado relevante. Porquê?
  • A carta está em diversos blogues, mas singulariza-se o facto de estar no blogue “de dois assessores do PR”, quando o postador da carta não é nenhum deles (David Justino, Suzana Toscano) e nada nos faz acreditar – à primeira vista – que cada post seja aprovado e subscrito pelo grupo de autores do blogue. Basta lembrarmo-nos do exemplo de outros blogues colectivos em que os autores têm posições bem diversas sobre assuntos vizinhos ou sobre o mesmo assunto (vejam-se no Causa Nossa Ana Gomes e Vital Moreira e a sua relação com Sócrates). Achando difícil que a experiente autora da peça desconheça esse facto, será novamente de questionar o “Porquê?” de tal destaque.

As reservas que tudo isto me levanta são, pois, do foro do conspiratório. A carta é há muito conhecida, mas foi deixada esquecida. Agora chama-se o assunto a enorme destaque, mas tudo leva a crer que a notoriedade se deve ao facto de ter surgido – há 24 dias – no blogue onde aparecem como autores, mas longe de postadores assíduos, dois elementos da equipa da Presidência da República.

Na minha opinião, sempre moderamente imodesta, estas coisas não acontecem por acaso.

Ou há mensagem, telecomandada por alguém ou, o que vai dar quase ao mesmo, existe mensagem para fazer chegar a alguém.

Seria interessante investigar como o assunto chegou ao Expresso, quando chegou, porque foi “agarrado” e qual o desfasamento temporal entre chegada e tomada de decisão editorial em tratá-lo. E o resto…

No meio disto, salva-se a questão essencial e neste caso a questão essencial é a substância da carta e a denúncia da mistificação que são – em termos globais e ressalvando excepções, como algumas que conheço – os CEF e EFA, triste simulacro de ensino profissionalizante sobre que também já escrevi (e que nem de propósito é um dos temas da próxima crónica do Correio da Educação sobre os maiores erros da actual política educativa). E as declarações do professor Domingos Freire Cardoso, alguém que está longe de parecer um alarmista ou desconhecedor do funcionamento do “sistema” e muito menos alguém que se possa considerar um caso “individual” ou agente das “disfuncionalidades” do dito sistema, no vocabulário estranho da actual equipa da 5 de Outubro.

Mas fiquemos com dois excertos das suas declarações ao Expresso:

Estes frequentadores da escola aparecem nas aulas sem trazer uma esferográfica ou uma folha de papel. Trazem o boné, o telemóvel, os «headphones» e uma vontade incrível de não aprender nem deixar aprender.
(…)
Mas o espírito dos CEF é este: se o aluno não aprende “a+b”, basta que aprenda apenas “a”. Se não aprender “a”, basta que aprenda “metade de a”, e se não aprender “metade de a”, basta que aprenda a “milésima parte”. É por isto que um diploma destes cursos é um atestado de ignorância e de incompetência. E quando um empregador perguntar “Quem foram os professores que disseram que tu sabias, quem foi que te deixou passar?” estará em causa o prestígio de toda uma classe e todos devemos sentir vergonha.

Palavras lúcidas e verdadeiras.

Mas o ME não está preocupado com nenhuma dessas questões, muito menos com o prestígio dos docentes ou as aprendizagens dos alunos.

Apenas quer certificações, diplomas, números, estatísticas “de sucesso”.

A qualquer preço, usando os truques que forem necessários, pressionando os docentes de todas as formas, acusando o sistema de “disfuncional” ou de coisa pior.

Desde que depois se possam fazer uns “bonecos” para um powerpoint a mostrar no CCB, um mês antes das próximas eleições.

Mas entretanto fica no ar a tal estranha sensação de isto ser uma mensagem de x para y. Agora resta descobrirmos quais são as incógnitas desta (in)equação para sabermos os resultados desejados.

Muitos políticos de Esquerda – e esse é um traço bastante satirizável da Esquerda – levam-se demasiado a sério, Parece que carregam aos ombros causas muito sérias com as quais não se pode brincar. Mas temos duas esquerdas em Portugal. Por um lado,temos uma Esquerda dita moderna, que esqueceu a sua herança. Por outro temos uma Esquerda – a de Manuel Alegre – que não evoluiu em termos de pensamento. No meio das duas há um vazio. Há aqui uma Esquerda que não tem representante em Portugal. Eu próprio não sei qual é a minha esquerda. (Miguel Góis, Sol, 8 de Dezembro de 2007, p. 2)

Mesmo não partilhando a 100% o resto das opiniões deste gato fedorento e muito menos a ligeira, ligeira, sedução socrática que aflora numa ou outra resposta, este é o dilema de muita gente ou, mais em particular, o meu.

Página seguinte »