Em todo o processo kafkiano que caracteriza a evolução das nossas políticas educativas e da respectiva retórica parece estar ausente qualquer noção de coerência ou de análise minimamente séria dos fenómenos educacionais.

Os resultados nos testes do PISA são fracos. Pois são.

Mas essa é uma consequência directa das directrizes emanadas da legislação criada no início dos anos 90 – e muito sublinhadas durante o guterrismo-benaventismo – que mandava os professores avaliarem o processo e não necessariamente o produto do trabalho dos alunos.

Em muitos casos parecia considerar-se que o domínio da competência não incluía a fase correspondente a alcançar o objectivo.

Isso para mim sempre me fez alguma confusão, conservador, atávico e disfuncional que sou. Nunca percebi bem aquela do carpinteiro que sabe o como fazer a cadeira, mas depois não faz a cadeira ou a faz mal.

Assim como acho pouco útil o engenheiro que sabe como fazer uma ponte, mas a faz toda tortinha, coitadinha, acabando rapidamente por precisar de obras. A este propósito partilho um bocado o mau feitio do saudoso engenheiro Edgar Cardoso: as coisas ou sabem fazer-se, ou não se sabem.

Ora nós levámos mais de uma década preocupados em observar atentamente e avaliar o processo, tendo sido desincentivada de forma activa uma avaliação muito rigorosaa dos produtos. Posso alinhavar aqui a propósito umas belas citações do actual secretário de Estado Valter Lemos quando colaborava com o ME nos tempos cavaquistas ou de vários especialistas e responsáveis governativos da área socialista que vieram a seguir.

Agora estamos admirados porque os alunos criados nesse casulo de irresponsabilidade efectivamente se ficaram pelo processo e falham muitas vezes na qualidade dos produtos, vulgo, resultados?

E a culpa ainda é dos professores que criaram uma «sistema disfuncional» porque não perceberam a «mensagem» de não reter os alunos quando as aprendizagens se revelavam insuficientes?

A sério?

É isso mesmo que Jorge Pedreira quer dizer quando diz o que diz?

Para o governante, os resultados devem-se em larga medida às elevadas taxas de retenção de alunos. Até porque os jovens portugueses que conseguem ter “um percurso escolar normal” apresentam resultados “acima da média”.

Portanto: os alunos que passaram de ano sempre apresentam bons resultados. Os que foram sendo sujeitos a retenção apresentam maus resultados. Pois. Eu diria que isso é a definição de normalidade e lógica. Para Jorge Pedreira é uma questão de «ferramentas» e «utilidades». Deve ser uma perspectiva sociológica particularmente inovadora sobre o fenómeno educativo.

Mas, para além do paradoxo óbvio e do enxerto lógico, será que ele desconhece a acção dos seus predecessores? Desconhecerá ele que as «disfuncionalidades» não foram criadas pelos docentes que, em muitos casos, fizeram os possíveis e impossíveis por manter um mínimo de funcionalidade no dito sistema?

Não haverá memória pelos lados da 5 de Outubro?

Ou as consequências da herança são renegadas mesmo em vida por aqueles que a mandaram lavrar, acusando o notário das desavenças familiares?