A má nota de Portugal no relatório do Programme for International Student Assessment (PISA) 2006 – com um 37.º lugar entre 57 países e um desempenho abaixo da média nas ciências, conhecimento da língua e matemática-, é justificada pelo Ministério da Educação com uma “disfunção” do sistema educativo nacional, que leva as escolas a reterem muitos alunos, quando esta deveria ser uma solução de “último recurso”.

Já se esperava. A culpa é do “sistema” e, por inerência dos professores. Os alunos têm maus resultados no PISA porque chumbam demasiado. Tudo isto parece ser disfuncional.

Obviamente que se passassem, mesmo sabendo o que sabem, teriam melhores resultados. Parece ser essa a mensagem.

Claro que um aluno com 15 anos com o 9º ano concluído saberá menos do que um aluno ainda no 7º. Pelo menos o senso comum sugere-nos isso.

Mas o senso comum também nos ensina que um aluno que transita sem as aprendizagens realizadas, em especial em matérias onde elas encaixam entre si e são sequenciais, dificilmente perceberá novos conteúdos sem os necessários pré-requisitos (lá vai um palavrão eduquês agora em desuso por razões instrumentais).

Mas tudo bem, já percebemos, a ideia é afirmar que o insucesso se deve à falta de sucesso por causa do insucesso. A lógica é mais ou menos esta.

Claro que no meio disto tudo exigir efectivamente maior rigor em todo o processo de aprendizagem, responsabilizando mais os alunos e as famílias pelo desempenho escolar, criando uma imagem de rigor que a maioria dos discentes leve a sério é coisa que não passa pela cabeça dos responsáveis do ME.

Para o secretário de Estado adjunto da Educação, Jorge Pedreira, os dados “desfazem a ideia de que o sistema educativo português é facilitista: “Pelo contrário, é selectivo. Há muitos países onde não há retenção ou esta só existe em final de ciclo”, argumentou, considerando ter ficado provado que o chumbo “não funciona como mecanismo de recuperação” dos alunos. “Apesar das orientações, como os planos de recuperação [do básico], não foi possível passar a mensagem de que a retenção é uma solução extrema e de último recurso”, lamentou.”É preciso que as escolas assimilem a ideia de que a retenção não é normal”. (Diário de Notícias)

Pois, o problema é que a mensagem “não passou”. Ainda há uns posts atrás a Lalage se insurgia quanto a alunos passados sem condições mínimas, por Conselhos de Turma demasiado suaves, dizendo que não é o ME que os obriga a isso. Não? E que tal estas declarações como demonstração que se não obriga é mesmo porque não pode colocar um comissário/inspector em cada CT?

Portanto, cambada, vamos a passar o pessoal porque no próximo mandato, se estes senhores voltarem, a retenção mais do que algo “disfuncional” ou “anormal” será pecado com penitência grave, não para o aluno, mas para o professor.

E o plano de criar um primeiro ciclo de escolaridade de seis anos com um professor generalista mais facilmente responsabilizável e pressionável quanto aos resultados dos alunos, é apenas o passo final para a erradicação das repetências até aos 12 anos. Porque só no fim do ciclo será possível saber se…

Como já disse e escrevi: no PISA 2018 constataremos o erro. Mas será tarde e os culpados do costume estarão longe, com reformas douradas. E nós é que voltaremos a ser os culpados das disfuncionalidades anormais.