Quarta-feira, 5 de Dezembro, 2007


De certa forma Jorge Pedreira teve razão nas suas declarações, mas muito possivelmente para além do alcance que quis dar às suas palavras quando as aplicou à permanência entre nós de um elevado nível de insucesso escolar.

Falo daquela coisa do “sistema” ser “disfuncional”. Eu acho que é mesmo mais do que o “sistema”. Educativo ou outro.

Efectivamente, de há muito que entre nós alguns dos mais esclarecidos pensadores chegaram a conclusões semelhantes, mesmo se as expressaram com fórmulas diferentes.

Quem se der ao trabalho de ler alguma da leitura decadentista com origem no domínio filipino, continuando pelos estrangeirados do século XVIII, fazendo uma paragem demorada no decadentismo oitocentista e desaguando nas visões de Portugal de Eduardo Lourenço e José Gil, percebe que há muito assumimos que Portugal é disfuncional e muito fazemos nós para isto se manter ainda à tona sem escorregar de vez para o Atlântico.

E nem de propósito hoje comprei o livro Portugal – Geografia do Fatalismo de Mário Ventura e João Francisco Vilhena que na sua introdução retoma aquilo que já sabemos há séculos:

Portugal permanece, todo ele, antigo, porque nem sequer descobriu em si próprio a mentalidade propícia a uma renovação sem alienações ou dependências. No presente, como há vinte, trinta ou mais anos, o próprio desenvolvimento, que favorece a faixa atlântica, não passa de um arremedo de modernidade que se diz adoptar, mas sem criatividade ou ousadia, sem transformações estruturais profundas e sem garra para nos furtarmos aos últimos lugares na escala do crescimento europeu.

Há algum tempo que, perante certas evidências, comecei a acarinhar uma teoria de um politicamente incorrecto incómodo (mas não terrivelmente original) para aqueles a quem a apresento: Portugal é um país e os portugueses são um povo que deviam assumir-se e ser tratados globalmente – como direi, para reduzir a ofensa e blasfémia – como apalermados. Não digo que sejamos todos, não digo que sejamos mesmo irremediavelmente idiotas, mas acho que somos um caso evidente de NEE moderadas e que como tal deveríamos ser tratados e encarar-nos sem vergonha.

Vejamos um sinal como qualquer outro: somos excelentes atletas nos Jogos Paralímpicos, mas algo medíocres nos Olímpicos, sempre à espera de um par de salvadores da honra. Provavelmente deveríamos mesmo concorrer só como Paralímpicos. Mesmo os que se acham “normais”.

Porque acho sinceramente – e não me coloco de fora – que no nosso caso a fronteira entre o génio e a idiotice é muito fluída. Mesmo se normalmente o lado da idiotice é bastante mais frequentado.

E somos poucos, não há grandes hipóteses de escolha ou recrutamento: pelos ditames deste Governo só uns 5% de nós poderão ser considerados excelentes, pelo que isso se reduz a 500.000 almas. Pouco. Mas mesmo assim muito. Sinceramente acho que 0,5% será um valor mais razoável. Pronto: é o Miguel Sousa Tavares, o Manuel Maria Carrilho, o Cristiano Ronaldo, o José Castelo Branco, a Alexandra Solnado e mais 49.995. Dá para encher o Alvalade XXI e ainda sobram alguns para ir de visita ao Colombo. Ou então fica tudo no Estádio da Luz.

E não se fala mais nisso.

Acho que em termos europeus seria uma boa solução. Apresentando como adquirido o nosso handicap, pedíamos para ser tratados em permanência como coitadinhos e pedíamos um subsídio vitalício para isto funcionar. E exportávamos os tipos mais chatos, como o Guterres, o Durão ou agora o Sócrates para cargos irrelevantes lá fora, para provar a tese.

Do Gabinete de Comunicação e Controle:

O sítio do Ministério da Educação (ME) na Internet (www.min-edu.pt) registou 371 002 visitas em Outubro, menos 23,1 por cento que no mês anterior.

Este número de visitas corresponde a 140 153 visitantes, menos 21,9 por cento que em Outubro.

Os visitantes consultaram um total de 1339 407 páginas (menos 25,1 por cento), o que resultou em uma média de 3,61 páginas (menos 2,6 por cento) por visita, que demorou, também em termos médios, dois minutos e 18 segundos (menos 0,6 por cento).

Já o Umbigo subiu de 57.372 para 70.052 visitas entre Outubro e Novembro, o que dá um aumento de, vamos lá a ver António, 70 a dividr por 57, não, não é assim, 70 menos 57 a dividir por…

Bom dá um aumento razoável, ao ponto da pele já dificilmente esticar mais.

Sei que é um truque fácil, pois o manancial de matéria-prima nos testes de História é quase inesgotável.

Não é por acaso que há uns anos houve best-sellers só com citações escolhidas a dedo. Eis mais uma, repescada de uma colega que lecciona 8ºs anos:

Uma feitoria era um produto que era muito utilizado pelos portugueses em varias coisas, e era muito importante naquele altura, porque ele tinham falta de varios produtos.

E nada como recordar um par de citações recolhidas há já muitos anos numa turma de 12º ano num estabelecimento de ensino privado lisboeta onde leccionei ocasionalmente, substituindo uma amiga e colega. Embora estes sejam casos recolhidos na disciplina de Geografia:

A densidade populacional é o número de filhos que uma mulher pode ter por km2.

E…

A Revolução Industrial foi muito importante porque as pessoas descobriram o carvão para fazer as lareiras e assar a comida.

A culpa é, mais do que evidentemente, dos docentes disfuncionais e do “sistema”. Só falta agora aparecer o Dias da Cunha.

Eduardo Lourenço foi quem mais habilmente demonstrou esta dissociação, nos portugueses, entre a auto-imagem e as efectivas capacidades. Por isso não espanta que:

Os alunos portugueses de 15 anos são dos que mais valorizam a importância do conhecimento científico. Em toda a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), são mesmo os que mais desejam seguir uma carreira nesta área, apesar de apenas dominarem as competências mais simples.

A maioria acredita que o seu desempenho é bom e que aprendem rapidamente o que é ensinado nas aulas, demonstrando uma atitude bem mais confiante do que os seus colegas finlandeses, que lideram o ranking. Mas na hora de mostrar as suas competências, só três países se saem pior – Grécia, Turquia e México.

E depois ainda há quem diga (a parceria ME/Confap) que temos pouca auto-estima e que os professores são terríveis a desmoralizar os alunos. Se mesmo assim são os que têm melhor auto-imagem, nem quero ver como seria de outra forma!

Agora mais a sério: isto mais não é que a demonstração prática de que os alunos estão já perfeitamente convencidos de que tudo é fácil e que eles são os melhores do mundo. E que o que fazem chega, mesmo não chegando. Um pouco como no futebol durante muito tempo.

Depois falta é a concretização. E quando aparece alguém que exige mais do que prosápia é que é pior. É porque é muito exigente. Provavelmente é porque é ruim. Ou mesmo disfuncional.

Se a retenção é resultado de um sistema disfuncional e a progressão deveria ser a norma, então porque não aplicaram isso no Estatuto da Carreira Docente?

Ou estarei a ver a lógica do tubérculo algo desfocada?

Ou será que «a mensagem não passou»?

A má nota de Portugal no relatório do Programme for International Student Assessment (PISA) 2006 – com um 37.º lugar entre 57 países e um desempenho abaixo da média nas ciências, conhecimento da língua e matemática-, é justificada pelo Ministério da Educação com uma “disfunção” do sistema educativo nacional, que leva as escolas a reterem muitos alunos, quando esta deveria ser uma solução de “último recurso”.

Já se esperava. A culpa é do “sistema” e, por inerência dos professores. Os alunos têm maus resultados no PISA porque chumbam demasiado. Tudo isto parece ser disfuncional.

Obviamente que se passassem, mesmo sabendo o que sabem, teriam melhores resultados. Parece ser essa a mensagem.

Claro que um aluno com 15 anos com o 9º ano concluído saberá menos do que um aluno ainda no 7º. Pelo menos o senso comum sugere-nos isso.

Mas o senso comum também nos ensina que um aluno que transita sem as aprendizagens realizadas, em especial em matérias onde elas encaixam entre si e são sequenciais, dificilmente perceberá novos conteúdos sem os necessários pré-requisitos (lá vai um palavrão eduquês agora em desuso por razões instrumentais).

Mas tudo bem, já percebemos, a ideia é afirmar que o insucesso se deve à falta de sucesso por causa do insucesso. A lógica é mais ou menos esta.

Claro que no meio disto tudo exigir efectivamente maior rigor em todo o processo de aprendizagem, responsabilizando mais os alunos e as famílias pelo desempenho escolar, criando uma imagem de rigor que a maioria dos discentes leve a sério é coisa que não passa pela cabeça dos responsáveis do ME.

Para o secretário de Estado adjunto da Educação, Jorge Pedreira, os dados “desfazem a ideia de que o sistema educativo português é facilitista: “Pelo contrário, é selectivo. Há muitos países onde não há retenção ou esta só existe em final de ciclo”, argumentou, considerando ter ficado provado que o chumbo “não funciona como mecanismo de recuperação” dos alunos. “Apesar das orientações, como os planos de recuperação [do básico], não foi possível passar a mensagem de que a retenção é uma solução extrema e de último recurso”, lamentou.”É preciso que as escolas assimilem a ideia de que a retenção não é normal”. (Diário de Notícias)

Pois, o problema é que a mensagem “não passou”. Ainda há uns posts atrás a Lalage se insurgia quanto a alunos passados sem condições mínimas, por Conselhos de Turma demasiado suaves, dizendo que não é o ME que os obriga a isso. Não? E que tal estas declarações como demonstração que se não obriga é mesmo porque não pode colocar um comissário/inspector em cada CT?

Portanto, cambada, vamos a passar o pessoal porque no próximo mandato, se estes senhores voltarem, a retenção mais do que algo “disfuncional” ou “anormal” será pecado com penitência grave, não para o aluno, mas para o professor.

E o plano de criar um primeiro ciclo de escolaridade de seis anos com um professor generalista mais facilmente responsabilizável e pressionável quanto aos resultados dos alunos, é apenas o passo final para a erradicação das repetências até aos 12 anos. Porque só no fim do ciclo será possível saber se…

Como já disse e escrevi: no PISA 2018 constataremos o erro. Mas será tarde e os culpados do costume estarão longe, com reformas douradas. E nós é que voltaremos a ser os culpados das disfuncionalidades anormais.

Todavia, tanto eu como os leitores e, de resto, toda a gente, temos plena competência para concluir que a experiência recente mostra a que ponto a sociedade civil teve um papel de meritório relevo na fase anterior da discussão. Se não o tivesse assumido vigorosamente pelos vários meios ao seu alcance, estaríamos hoje perante um facto consumado de incalculáveis e desastrosas consequências, a despeito de inúmeros e sonorosos argumentos de autoridade que as instâncias oficiais, ou as oficiosamente de serviço, responsáveis pela TLEBS, foram produzindo em defesa dela invocando uma competência científica que está longe de sair incólume do próprio texto da revisão…

É certo que a força da intervenção da sociedade civil é pudicamente silenciada na actual versão da TLEBS que está em discussão pública. Mas, como também não deixa de salientar Andrade Peres, convém lembrá-los…, sobretudo agora, que a discussão, embora em princípio aberta a todos, se torna bastante menos “pública” pela própria natureza especializada das matérias. (Diário de Notícias, 5 de Dezembro de 2007)

Página seguinte »