Terça-feira, 4 de Dezembro, 2007


Disponível no site do GAVE, com alguma sofisticação no tratamento e apresentação, mas com uma conclusão simples: efectivamente entre 2000 e 2006 os resultados pouco variaram, o que parece traduzir a estabilidade das variáveis em presença e o aparente efeito nulo das alterações introduzidas pelo ME desde 2005. Mas já sei, é cedo…

Pais insultaram mais que os alunos

Desde o início do ano lectivo até 15 de Novembro, ou seja, em menos de dois meses, a linha SOS Professor recebeu 42 comunicações, a maioria das quais de agressões verbais. Mas, dos 20 insultos registados, 11 foram atribuídos a encarregados de educação e apenas nove a alunos. (Público, sem link permanente)

Este Governo e este ME, em particular, têm uma relação de amor-ódio com os números. Não é patologia original, mas neste caso é algo obsessivo.

Perante qualquer situação, debate ou confronto de ideias os governantes, a começar por Maria de Lurdes Rodrigues, sacam de uma tabela, gráfico ou relatório para desdizer as evidências.

Vejamos o caso do emprego em que o número de desempregados diminui a olhos vistos segundo o IEFP, enquanto para o INE ou para o Eurostat o desemprego aumenta ou mantém-se bem alto. Depois há as explicações “técnicas” que afirmam ser consequência do aumento da população activa, porque assim há mais gente em idade de trabalhar para os mesmos empregos. O que, nem é preciso esforçarmo-nos muito, contém demasiados aspectos contraditórios e paradoxais do que cabem neste post (mas então onde está a criação de novos empregos? como é que há menos desempregados de acordo com os dados dos Centros de Emprego? para que é preciso aumentar a natalidade se não há trabalho para os que cá estão?, etc, etc, etc).

No caso da Educação, os números são distribuídos conforme as circunstâncias e de acordo com várias tácticas:

  • Ataque em situações cruciais da agenda política como o início do ano lectivo ou períodos de negociação com os professores (lançamento de dados enganadores sobre o absentismo docente, ou de informações lacunares sobre as remunerações e gastos com o sector).
  • Defesa perante evidências vindas do exterior e dificilmente contraditáveis (é o caso de contrapor aos maus desempenhos em testes internacionais, números recentes de sucesso e promessas de melhores performances no futuro com base nas medidas que se estão a tomar ou a projectar).
  • Contra-ataque, visando descredibilizar quem apresentou opiniões ou dados desfavoráveis ao ME no plano interno. Neste caso, inclui-se a forma apressada como se apresentaram dados preliminares sobre o sucesso escolar e aumento de matrículas quando o Presidente da República discursou no 5 de Outubro ou, agora, em relação à preocupação do Procurador-Geral da República quanto à violência nas escolas.

Vejamos o que se passou ontem, com a apresentação dos dados sobre violência escolar de acordo com relatório do muito útil e alinhado Observatório da Segurança em Meio Escolar (só a designação é todo um programa de intenções). No Diário de Notícias afirma-se que:

6% das escolas concentram todos os casos de violência

Seria uma maravilha que em 94% das escolas não existissem problemas. É pena mais não é verdade. Assim como seria óptimo que isto fosse verdade:

Em termos globais, os incidentes no interior das escolas e nas áreas imediatamente envolventes caíram 36% em relação a 2005/06, para um total de 7026 casos. No entanto, no capítulo das ocorrências contra pessoas, ainda se registaram mais de 1300 agressões (ou tentativas): 1092 envolvendo alunos, 185 com professores e 147 visando funcionários.

O problema é que este ano as regras foram alteradas em matéria de registo de ocorrências, limitando-se bastante o que se considera ser violência, em nome de uma clarificação de conceitos em relação à indisciplina. O que, para além de diminuir artificialmente os números de ocorrências, adultera completamente qualquer esforço comparativo com o passado recente.

Felizmente o jornalista Pedro Sousa Tavares reconhece isso no final da peça, quando escreve:

No último ano lectivo, as grelhas distribuídas às escolas para registo das ocorrências sofreram alterações significativas, de forma a distinguir melhor os diferentes tipos de situações. Uma medida que permite dar um retrato mais claro dos problemas do sistema, mas que dificulta comparações com anos anteriores.

Por exemplo, em 2005/2006 foram contabilizadas 390 agressões a professores, contra 185 do último ano lectivo. Mas parte da diferença será justificada pelo facto de anteriormente algumas escolas registarem como agressões actos de outra natureza. Se somarmos às agressões outras ocorrências contra pessoas e bens, como injúrias e calúnias, as ocorrências envolvendo docentes chegam às 402 em 2006/07. No caso dos alunos, passam a totalizar 1252 e, ao nível dos funcionários, 322.

A questão fundamental, é necessário dizê-lo, não foi “clarificar” fosse o que fosse. Foi reduzir os números, retirando do total todo um tipo de ocorrências que antes eram contabilizadas (violência verbal, por exemplo, ou confrontações graves nas aulas ou espaço escolar, mas sem a ameaça directa de violência física).

E isto ainda esquece que muitos órgãos e gestão se encolheram quando perceberam que era a sua própria avaliação que poderia estar em jogo, se apresentassem dados elevados de distúrbios disciplinares graves. Conheço, através de vários testemunhos fiáveis, casos de escolas em que casos gravíssimos de violência contra alunos e professores não são objecto de registo ou quando o são, por insistência dos envolvidos, não têm o devido

Porque os inspectores podem aparecer. E fica mal. E o senhor presidente tem uma imagem de tolerância a preservar. E os colegas é que não sabem dominar uma aula. E porque isso são rixas entre miúdos.

O encobrimento de muitas situações vergonhosas, em especial quando as vítimas são mais vulneráveis a pressões (funcionárias, docentes em início de carreira) ou se sentem mais embaraçadas (alunos mais pequenos vítimas de bullying ou docentes com dificuldade em assumirem as dificuldades) também  contribui para que um manto de névoa se estenda sobre a dureza da vida nas escolas.

Claro que não existem ameaças de bomba a cada 15 dias como em meados dos anos 70. Ou outras coisas típicas daquela época.

Mas nem por isso a questão da segurança será a mais decisiva quando for necessário matricular a minha petiza, por exemplo, numa EB2/3. Certamente mais do que a própria qualidade do projecto educativo, porque isso posso eu resolver em casa. Já outro tipo de acidentes não estou em condições de os eliminar, mas apenas de reduzir as suas probabilidades.

Porque sei o que se passa na realidade não enquadrada nas grelhas da 5 de Outubro.

Alunos portugueses abaixo da média em todas as competências

O desempenho dos alunos portugueses de 15 anos é mais baixo do que a média dos seus colegas de 57 países a Ciências, Matemática e Leitura, segundo um estudo da OCDE. O secretário de Estado Adjunto e da Educação confessa estar insatisfeito com estes resultados, mas destaca a estabilidade destes de ano para ano.

Desde esta manhã que andei a tentar aceder ao texto da notícia que ouvi de raspão na TSF a caminho da escola, mas uma virose com riscos de se espalhar pela rede impediu-me de tocar num computador.

Agora que leio a versão completa, que no fundo apenas confirma o que sabemos, já posso finalmente fazer um pequeno conjunto de notas, que me parecem óbvias:

  • Antes de mais, destacar que de acordo com Jorge Pedreira – mais valia não ter aparecido para dizer isto – devemos estar algo satisfeitos por termos estabilizado na mediocridade.
  • Em segundo lugar que o que nunca se faz é comparar estes resultados com a avaliação destes alunos no plano interno. Porque algo que me interessava saber é quantos destes alunos com desempenho insatisfatório – ou comparativamente abaixo da média, pelos padrões internacionais – acabaram por ter avaliação positiva, nomeadamente no final do 3º ciclo. Porque o estabelecimento dessa relação seria interessante para perceber até que ponto – e é o que eu acho – o nosso sistema de avaliação obriga a empurrar para cima muitos alunos que depois se revelam estar pouco preparados, em termos de comparação internacional.
  • Em terceiro, tentar perceber se as sucessivas queixas dos professores relativamente ao aligeiramento dos currículos e ao facilitismo que se foi institucionalizando nos últimos 15 anos não terá razão de ser, perante os maus resultados recorrentes dos alunos portugueses no PISA (realizados em 2000, 2003 e 2006). Provavelmente não será tentando simplificar as coisas que se conseguirão melhores resultados. Pelo contrário, só elevando os padrões de exigência melhoraremos a performance.
  • Por fim, e esta é uma questão fundamental, não percebo como a criação de um ciclo de escolaridade inicial de seis anos, de matriz generalista, com professores, eles próprios, com uma formação cada vez mais superficial, poderá ajudar a inverter esta situação. Pelo contrário, a consequência mais óbvia será, aí por alturas do PISA 2015 ou 2018 ainda mais estarmos mais afundados na lista e o Secretário de Estado da época aparecer a congratular-se por ainda termos um ou dois países em pior situação.


Adenda
: Documento teórico sobre o PISA 2006 (versão castelhana), onde no final se percebe que entre os especialistas seleccionados para o programa não existe nenhum português. O que pode ajudar a explicar muita coisa.

Cavaco Silva teve aquela intervenção meio divertida em Gouveia e ontem tivemos um caricatural e involuntariamente cómico em algumas passagens Prós e Contras sobre o assunto. Eu cá fico-me por esta animação à la Vasco Granja.

Mas já agora aproveito ainda para umas breves notas sobre o assunto:

Alguém acha que os portugueses deixaram de ter vontade de fazer meninos? Têm é falta de tempo e energia!

E acham que é por darem umas centenas de euros que se passa a ter mais filhos, com tudo o que isso acarreta em termos de irracionalidade económica nos tempos que correm? A menos que seja para recuar aos tempos da industrialização e a malta proletarizar para arranjar mão de obra jovem e barata, para trabalhar nos intervalos das provas de recuperação na escola.

E alguém com bom senso traz crianças ao mundo num país onde MAnuel Pinho trata da Economia? E Correia de Campos da Saúde? E em que um ex-secretário de Estado do Ambiente decidiu que os PIN são para instalar em qualquer lado? E que a Educação é tele-comandada das traseiras da 5 dde Outubro por Valter Lemos? Ou que se pode cruzar na rua com Isabel Pires de Lima? Ou que temos um Ministro da Administração Interna com a firmeza de acção de Rui Pereira?

Só os loucos…

E koniek para vocês todos, que têm sido ultimamente muitos.