Segunda-feira, 3 de Dezembro, 2007


Não é necessário porque o Der Spiegel tem edição online em inglês comum, na qual temos direito a uma outra entrevista recente (26 de Novembro) do nosso primeiro. Alguns excertos, a começar pela introdução, algo datada em termos de ocupação profissional.

Sócrates, 50, a civil engineer by trade, is the secretary-general of the Socialist Party and has headed Portugal’s government since March 2005.

Agora o destino comum de Sócrates e da Europa, em passagem toda cheia de coincidências simbólicas que explicam porque lhe estava reservada a ele a missão de salvar a Europa. O chato é que, por lá, confessa que, afinal, gostava do Tratado Constitucional, coisa que por cá nunca admitiu com especial clareza:

I also liked the original draft constitution better, and I also feel that symbols are important. But Europe has always made progress step-by-step through compromises. I was born with Europe, in 1957; one year after Portugal entered the EU, I was elected to parliament. For me and my generation, the European project is one of the grandest ideas in the world.

Passemos ao previsível auto-elogio, com números que provam que ele, a pulso, nos arrancou da Pré-História, mais exactamente do Paleolítico Superior:

When I took office, we were facing the second recession in just three years, but now we have a balanced budget. This year we will post nearly 2 percent growth, despite the fact that India and China have made inroads into our traditional markets — especially the textile sector — and oil prices are rising.
(…)
This year 68 percent of our citizens filed their income tax returns via the Internet. We have tackled reforms of the justice system, administration and social security. For the second year in a row, we have seen an increase in the number of pupils attending upper secondary school. We have integrated 300,000 Portuguese into vocational training programs that run parallel to their regular jobs. And in our 2008 budget, we have earmarked, for the first time ever, 1 percent of gross domestic product for investment in science and research.

Depois os chatos dos jornalistas alemães fizeram uma pergunta mais incómoda («Nevertheless, Portugal still remains the poorest country in the old EU, with wages and pensions that are substantially lower than the European average») e o resto é pura propaganda para alemão ler, incluindo algo que para mim é novidade («All senior citizens who have less than €380 ($560) in available monthly income receive an extra state pension.») e outras coisas que devem levar qualquer mãe alemã às lágrimas, não sei se de riso se de pena das suas colegas portuguesas («we support pregnant women from the third month»).

Felizmente não lhe pediram para dizer o que estava a ler. Citar autores alemães – depois do episódio Günter Grass – é algo razoavelmente complicado, a menos que fiquemos por filósofos que sabemos serem difíceis, muito difíceis mesmo de ler.

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c) Antero Valério

Para os mais incrédulos, para os que gozam com as necessidades do Banco Alimentar, para os que se afadigam a limpar os registos do IEFP para dizer que há menos desempregados e mesmo para os adeptos da flexisegurança como panaceia pasmosa:

Desemprego sobe em Outubro para 8,5%

A taxa de desemprego em Portugal subiu para 8,5 por cento em Outubro, a terceira mais elevada entre os 27 países da União Europeia, segundo as estimativas do Eurostat, divulgadas esta segunda-feira.

O relatório do Eurostat está aqui e desmente qualquer retoma económica que tenha significado para a população portuguesa, que é quem deveria sentir esses sinais depois de anos e anos de aperto de cinto. Os números são elucidativos, em especial uma taxa de desemprego de 18% nos jovens até aos 25 anos.

Mas o mais ridículo é ouvir o ministro Manuel Pinho a engasgar-se todo e a dizer que não conhece os números, pois esteve até às 3 horas da tarde no Conselho da Energia, como se as estatísticas europeias estivessem acessíveis primeiro ao vulgo do que aos governantes interessados (e vagamente competentes).

Não será possível desempregar este homem?

Com justíssima causa?

José Sócrates siempre tiene un dato a mano. Le encanta utilizar números y ejemplos para exponer sus ideas. Por supuesto, esos datos y ejemplos jamás son desfavorables a sus posiciones. Aunque no es un intelectual, sino un político, al oírle no es fácil distinguir si está dictando una lección o lanzando un discurso. Concienzudo, memorioso, con un toque de displicente altanería, siempre parece a punto de enfadarse y trata de utilizar frases directas que demuestren que sabe lo que quiere.

Toda a entrevista para espanhol ler, no El País Semanal. Leituras: Anthony Beevor e Saul Bellow. E, obviamente, «Uno de mis autores favoritos es Ortega y Gasset». Penso mesmo que tem um autor favorito escolhido por país da União Europeia.

No caso da Polónia eu recomendaria especialmente Henryk Sienkiewicz, para Chipre Georges Philippou Pierides e para Malta Oliver Frigieri. Para os países bálticos, Eduard Vilde para a Estónia ou um Rudolfs Blaumanis para a Letónia, se possível no original.

Eu tenho fotos com o céu limpinho e o sol radioso, mas acho que nublada está mais dentro do espírito.

RAA= Região Autónoma dos Açores onde, apesar de todos os defeitos, o ECD ainda é suportável.

 

E as fotos ainda são pré-digitais.

Poderia falar escrever sobre a mistificação que é o projecto de criar dois ciclos de escolaridade de seis anos com pretensos fundamentos pedagógicos – o choque das transições para os alunos mais jovens – mas na realidade com objectivos de mascarar o insucesso escolar – o que se vai pretender é que só no final de cada ciclo possam existir retenções.

Mas acho melhor ir pela via da análise sumária de um dos principais estandartes da actual política do ME e que até colhe bastante aceitação entre muitos opinadores respeitáveis e que deveriam ver um pouco mais além, ou seja, o projecto das Novas Oportunidades que vai certificar imeeeensas competências e diplomar imeeeensa gente, sem que isso seja mais do que dar certificados em troca de assinaturas ou, em muitíssimos casos, sem implicar que alguém saiba mais do que já sabia ou que tenha adquirido nenhuma nova competência: Embora, na sua ingenuidade, julgue que a certificação vai efectivamente servir para mudar alguma coisa de substancial.

Mas para isso recuo quase uma década, para o período guterrista em que algo semelhante aconteceu, talvez com menos fanfarra e que conheço de perto porque, inadvertidamente, um amigo meu foi envolvido.

O episódio conta-se com alguma rapidez: numa iniciativa que penso conjunta do Ministério do Trabalho e de algumas autarquias foram chamados artesãos para reuniões destinmadas exactamente a conferir certificações a todos aqueles que as não tivessem particularmente os mais idosos. Esse meu amigo, o mais jovem do grupo em causa, já com o 12º ano, percebeu que tinha ido ao engano e os promotores da iniciativa também o percebeeram porque os visados eram outros.

O que se pretendia era que os artesãos mais velhos, apenas com a 4ª classe ou mesmo quase sem escolaridade, fossem “certificados” com diplomas atribuídos no âmbito do PRODEP (II ou III) de nível II (9º ano) para que pudessem aceder a subsídios europeus para a sua actividade.

O modelo era simples: as pessoas apareciam umas horas por semana, durante uns meses, num “curso”, onde aprendiam a assinar, escrever umas frases e fazer umas contas no papel (no caso dos que ainda eram analfabetos) ou um pouquinho mais (os que já tivessem a 3ª ou 4ª classe antigas) e em troca levavam um diploma de equival~encia ao 9º ano, enquanto os organismos envolvidos depois lhes preparavam um dossier de acesso aos tais subsídios, que os próprios nunca saberiam fazer e cujos termos dificilmente compreenderiam ou controlariam.

Claro que o meu colega levantou algumas dúvidas mais incómodas e rapidamente lhe foi dito que seguisse o caminho da porta da reunião.

Mas o essencial é que o “esquema” se baseava em algo aparentemente vantajoso para os envolvidos – certificação de realização de escolaridade para quem anão tinha e acesso a uns subsídios sempre bem vindos numa actividade precária – em troca de números para as estatísticas da educação de adultos, sem que isso mudasse grande coisa na realidade existente. Muitos dos artesão em causa, com mais de 60 e mesmo 70 anos, ficariam subitamente escolarizados para a UE ver, sem que isso tivesse modificado a sua efectica literacia.

Ora o projecto Novas Oportunidades baseia-se numa lógica semelhante: atrair quem sente falta de uma “certificação” para aceder a uma situação melhor, entrando num esquema de formação que nada de substancial lhes traz (e a maioria dos potenciais empregadores sabem isso) para além do diploma e eventual participação em cerimónia patrocinada pelo ME e a presença de um ou mais governantes de serviço nesse dia.

O culminar de tudo é a distribuição de gigabytes de diplomas, preparados em centenas de centros de validação de certificações, numa teia burocrática que absorve boa parte das verbas envolvidas (o formador e o certificador, por regra, ganham mais do que o formando/certificado), que depois se apresentam, em acções de propaganda, como enormes sucessos de uma política de requalificação da população activa com baixos níveis prévios de qualificação.

O problema é que, nem se estudam a sério as consequências deste tsunami certificador em termos de ganhos efectivos de rendimentos pelos certificados (toma lá o diploma, assina aqui e não falamos mais nisso…), nem estes novos diplomados são testados de forma independente e comparativa nas competências que supostamente adquiriram.

E tudo acabará como os cursos do Fundo Social Europeu: os formandos são os menos beneficiados em todo o processo e, a médio prazo, constatar-se-á que a população activa continua sub-qualificada em muitas áreas do mercado de trabalho.

Apesar de dezenas e centenas de milhar de certificações e e diplomas.

Apesar das estatísticas.

Mas claro que – como no FSE – a culpa nunca será de ninguém. Pois até aposto que os relatórios oficiais dificilmente negarão adjectivação abundante e entusiasmada quanto ao “sucesso”.

E a vidinha continuará como sempre.

(c) Antero Valério