Domingo, 2 de Dezembro, 2007


Tudo começou com o anúncio da cerveja Tagus sobre o Orgulho Hetero. Confesso que a coisa me passou completamente ao lado, de irrelevante que me pareceu o tema e fraquinha a publicidade. Nisso concordo com o Francisco José Viegas. A coisa devia ter morrido por si mesma, não pelo tema em si, mas porque a qualidade escasseava um pouco e não por pressões míopes.

Mas nos tempos de vigilância que atravessamos, em que os liberais são fundamentalistas do politicamente correcto, houve logo quem aparecesse em defesa dos bons costumes. O Daniel Oliveira arrastou uma prosa longa sobre o assunto, argumentando que piadas sobre as minorias são fáceis. Fernanda Câncio, nada contida em relação a certos grupos da sociedade portuguesa, acha que sim, que devem ser beijados os pés do D. Oliveira pela dita arrastada prosa.

Depois existiram umas ramificações críticas sobre o assunto que aqui se sumariam.

No meu caso, acho que realmente muita gente anda desorientada e com dificuldade em situar-se e definir o que entende por humor, minorias e facilidade ou coragem.

Afinal todos nós acabamos por fazer parte de uma qualquer minoria caricaturável. Seja, como eu, os “caixas de óculos”, os professores, ou os tipos com pouco mais de 1,70m e 90 kg de peso. Ou as “louras”. Ou os “alentejanos”. Ou o Bush ou antigamente o Samora Machel. Ou os utilizadores compulsivos de gadgets, ou os belfos, ou os pais vomitados pelos seus bebés, ou o Herman José louro. Ou… ou…

O que me irrita é que os libertários em matéria de costumes, depois sejam todos muito conservadores em matéria do exercício selectivo da crítica e da liberdade de expressão. Será que gozar com uma minoria é sempre algo “fácil” e que “corajoso” é gozar com as “maiorias”?

Depende.

Mas tudo isto nos faz recordar o episódio dos cartoons dinamarqueses anti-islâmicos.

Onde está a fronteira da liberdade de expressão e do humor?

Depende, outra vez.

O que não é aceitável é que só os judeus possam gozar alarvemente com os judeus (Seinfeld, Woody Allen e mais uns mil humoristas do povo eleito) ou que só os gays possam auto-ironizar-se, mesmo que sejam efectivamente os melhores a fazê-lo (a bíblia mais moderna é a série Will & Grace). Ou que só uma pessoa doente possa satirizar um hipocondríaco.

Porque isto está paredes meias com aquela forma de pensar que só aceita que possa dissertar sobre a IVG quem é pai (ou mãe), sobre a religião quem é crente, sobre futebol quem já jogou ou treinou ou sobre cinema e literatura quem já fez um filme ou um livro.

Mas essa é a armadilha intolerante em que caem muitos dos que mais se afirmam tolerantes.

Na 2ª feira passada João César das Neves decidiu opinar sobre a net e os blogues, de maneira algo óbvia e pouco subtil.

Houve quem se chateasse e respondesse à altura. Pelo que sei até protestou para o DN, mas aposto que não publicam nada.

– Os pais sabem sempre mais que os filhos?
– Sim.
– Pai, quem inventou a máquina a vapor?
– James Watt.
– Mas então porque é que não foi o pai dele que a inventou?
(Gregory Bateson, Metadiálogos, Gradiva, p. 37)

Claro que isto só se aplica a pais-professores e nunca a pais normais, em especial do modelo confapiano dirigente.

Adivinhem lá o que têm em comum vários comentadores cujo IP começa (quase sempre, que por vezes dão uma voltinha) por 213.22.***.*** e se encontram sempre num dado intervalo fornecido pela TV Cabo para distribuição numa certa e determinada zona?

E que, apesar de serem IP’s não-fixos de sessão para sessão, são perfeitamente fáceis de delimitar com os recursos do WordPress?

magritte.jpg

E agora com os bonecos a sério.

Após toda a discussão que por aqui se gerou e já depois de já ter divulgado o protocolo do Ministério da Educação com a Confap, que em 1997 criou a relação de dependência financeira existente, assim como de subserviência do plano anual de actividades da organização em relação à aprovação ministerial, a página dos protocolos da Confap com o ME continua em teste.

Desde então, no entanto, aqui neste espaço registaram-se dois fenómenos: o desaparecimento completo de comentários assinados em nome próprio de responsáveis da Confap e a súbita aparição de insultos semi-anónimos por parte de quem tenta desacreditar as minhas posições e opiniões ou amedrontar outros comentadores.

São tácticas como quaisquer outras, mas revelam bem o nível de quem conseguiu reduzir a participação do MAP na Confap a menos de uma centena de federações, mas tem o beneplácito da tutela (sim, porque na prática, é mesmo de tutela quase directa que se fala). Quanto a intimidar-me ou produzir efeitos com tal tipo de intervenção – bem diferente de exercer o contraditório – é tempo absolutamente perdido.

Enquanto se começam a conhecer fissuras na equipa do ME, com a Ministra aparentemente cansada de servir de testa-de-ferro de uma política cuja definição e negociações lhe escapam, uma coisa se percebe: o Secretário de Estado Jorge Pedreira parece ter-se volatilizado. Na agenda para a imprensa, com as deslocações e declarações dos governantes, só temos direito a Valter Lemos e MLR.

O desaparecimento tem explicação razoável? É voluntário, porque não se quer ver envolvido nas confusões que por aí andam ou é forçado, em virtude de já ter cumprido o seu papel, que era de simular negociações com os sindicatos?

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