Sábado, 1 de Dezembro, 2007


 

Rita Redshoes, Dream On Girl

É o número anual da New Yorker dedicado especialmente a cartoons. Para quem é fanático, como eu, da arte da cartunar é um regalo. São 20 páginas seguidas de material, para além do que já habitualmente anda pelo resto da revista. Até tem o alternativo Robert Crumb.

Como bibliografia essencial, quem ainda não comprou, faça favor de comprar o volume completo com dois cds e toda a história cartonística da publicação. Agora já em paperback e muito mais barata se souberem procurar.

A Lalage, com um espanto que me espanta, e o Portuga, com a truculência agitada do costume, dirigem-me duas questões sobre um dos posts de hoje, num caso inquirindo porque singularizo o actual PM como responsável pela situação de erosão económica das classes médias, no outro clamando por soluções alternativas.

Eu já respondi no sítio apropriado, mas gostaria de destacar e singularizar aqui algumas ideias que acho essenciais:

  • No caso da Lalage, é fácil de explicar: é verdade que Sócrates é o que está, por agora, no final da grande cauda de mandatos falhados dos últimos 15 anos (estou a ser simpático, pois considero que Cavaco teve um bom 1º mandato maioritário à boleia da Europa), mas isso não impede que ele soubesse ao que vinha e tenha feito promessas que sabia serem irrealizáveis. Porque eu não aceito que antes das eleições valha tudo. A luta política não pode basear-se apenas no truque retórico e na promessa vã (recomendo de novo a leitura de Medina Carreira e de O Dever da Verdade a este respeito) para ganhar votos. Sócrates foi governante com Guterres, não é alguém que surge do nada. Sócrates criticou veementemente as políticas de Durão/Manuela Ferreira Leite que vinham supostamente corrigir os disparates guterristas. Se há alguém que sabia ao que vinha era Sócrates (como Vitorino e Coelho que ajudaram a catapultá-lo). O défice não explica tudo. O défice não explica que o Portugal do Novo Homem Tecnológico seja aquele que vemos todos os dias, cada vez mais carente de coesão e mais marcado por fundas clivagens económicas. Em que os PIN são espetados literalmente em zonas de protecção ambiental e o resto – excluindo a Autoeuropa e pouco mais – se resuma a campos de golfe, loteamentos de fraca qualidade para o povinho ou resorts turísticos, como se vivessemos numa enorme Marbella.
  • No caso do Portuga a resposta dá-me especial prazer porque não me nego, como ele, a responder ao que me perguntam, mesmo quando a tarefa está longe da minha área de especialidade. Afirma ele que eu deveria sugerir medidas e políticas alternativas às prosseguidas por este Governo. Lisonjeia-me com a (des)confiança. Faz o desafio com maus modos, desconhece que aquilo que eu escrevi aqui por cima já escrevi em outras alturas (quando estendi o Portugal Falhado restrospectivamente até Salazar), tem os habituais remoques com o PREC (caramba, eu tinha 10 anos…), mas tudo bem, eu tento explicar algo sobre como (não) tentar desenvolver Portugal, sendo isto visto por um leigo em economias, finanças, gestões e demais superstições:
  1. Em termos nacionais acho que é impossível apostar no desenvolvimento de Portugal com base em estratégias perdidas (competição com base nos baixos salários), pouco espaçosas (onde já existem potentados instalados e a margem de progressão não se consegue num par de anos, sem que exista uma base sustentada atrás) ou improdutivas (apenas turismo e centros comerciais). Recuperando parte das ideias o relatório de Michael Porter dos anos 90, encomendado e abandonado pelo actual PR, Portugal deve apostar no que faz a sua “marca”, em clusters específicos de mercado onde tenha vantagens competitivas. Não adianta ir apostar onde outros já apostaram e ganharam. O que resta para ganhar precisa de verdadeira inovação e não de imitar a inovação. Repare-se que os negócios de biliões da actualidade – fora tráfico de armas, demais crime organizado, especulação financeira, reconstrução do Iraque, montar empresas na China ou o petróleo – são obra de um grupo pequeno de nerds (do Google ao You Tube, passando pela renovação da Apple com o Ipod) que os enriquece a eles mas não ao resto da sociedade onde vivem. Espero que não queira que vá mais longe por agora no assunto e assumo que conheça o relatório que citei e que volta a ser falado na actualidade.
  2. Em termos sociais e deixando de parte a questão do IRS fraudulento (pelo que dizem isso está a ser combatido eficazmente) e que não afecta certamente os professores (olhe eu estou farto de me explicar às finanças só porque os funcionários da DGCI cometeram sucessivos erros ao transpor as minhas declarações antigas para a base informatizada), dir-lhe-ia que em todas as sociedades desenvolvidas existe uma classe média forte, sem a qual a clivagem social se torna insuperável e a coesão desaparece. Combatendo a classe média (média mesmo, ou meramente baixa, onde está o grosso da Função Pública) combate-se a parte da população que, pelo número e rendimentos, pode dar maior dinamismo (pela via do consumo) a uma economia.
  3. Despedindo professores, funcionários públicos, enfermeiros, médicos ou inviabilizando a actividade de alguns profissionais liberais, o que se ganha? Umas centenas de milhar de famílias sem capacidade de consumir e, logo, arrastando uma mini-crise económica. Para além de que o aumento do desemprego qualificado de longa duração, sobrecarrega fortemente o lado das prestações sociais pagas pelo Estado. Porque o que eu gostaria (salvo seja) de ver era, levando isto ao extremo, um Estado que se diz quase falido e sem dinheiro para nada, lidar com um acréscimo do desemprego e, em simultâneo, com uma crise no consumo e um aumento das prestações de protecção social.

Como fazer diferente do que faz este Governo?

Provavelmente, e para obter maiores receitas, alargando a base de tributação dos negócios mais rentáveis e que geral lucros imensos (não, não sou um apoiante indefectível do Francisco Louçã) e, por outro, estimulando a actividade económica e (não meramente os jogos financeiros em bolsa) com base no aumento do investimento público em sectores que não apenas a construção de estádios de futebol ou rearranjos de IP e IC’s mal feitos no passado.

Para reduzir a despesa, talvez tornando a Administração Pública um corpo profissional qualificado (olha que bela aplicação para os dinheiros do QREN) sem excrescências na forma da criação de institutos paralelos a organismos já existentes ou da contratação de assessorias variadas e consultorias externas de milhões de euro, quando se afirma que já existem funcionários a mais na AP.

Claro que para um programa mais detalhado acho que seria melhor consultar economistas de renome, como aqueles que ajudaram no passado a enterrar isto e agora falam como se nada fosse com eles (Daniel Bessa, Augusto Mateus, Braga de Macedo, Eduardo Catroga, Pina Moura e mais uns quantos bem protegidos em alguns daqueles institutos ou em conselhos de administração de empresas “de sucesso”).

Os defeitos e equívocos da configuração já sabemos, os atrasos nas entregas também. Que crasham muito e que a net “barata” é muito fraquinha também não é novidade.

O que agora parece novo é o problema da assistência técnica quando os bichinhos deixam de ronronar ou apresentam uma pieira que não se pode.

Ao que consta e me contaram, a coisa é assim: queixas ou pedidos de ajuda para a Siemens ou Toshiba dão em nada, porque parece que os números de série/registo dos computadores (será de todos ou só de alguns?) não se encontram nas bases de dados dos fabricantes. Ligar para as operadoras que os forneceram esbarram no facto de elas alegaram que são só responsáveis pela ligação uáirelésse. Devolvê-los às escolas, para daí irem de volta para o ME, também não é opção aceitável, porque não há assistência técnica na 5 de Outubro.

O resultado acaba por ser pagar do próprio bolso a manutenção ou esperar que os números apareçam  nas bases de dados dos fabricantes.

E esperar sentado.

Novos Pobres

Médicos e Professores pedem comida para os filhos

Nos últimos três meses dispararam os casos de famílias da classe média e média-alta que recorrem ao Banco Alimentar
O empobrecimento súbito de famílias habituadas ao bem-estar é cada vez mais sentido. Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, refere que 30 por cento de todos os pedidos de ajuda são feitos por pessoas com rendimentos acima da média nacional.

A notícia vem na primeira página do Expresso e tem desenvolvimento na página 18.

É verdade que há muito crédito mal calculado, muito gasto sumptuário em tempo de vacas gordas, muito pagar por conta do cartãozinho dourado tão fácil de adquirir ao exibir-se um título ou uma profissão de prestígio (não falo dos professores do ensino não-superior, obviamente) sem saber que o que sobe pode descer, mas a verdade é que as dificuldades atingem aqueles que o governo considera “privilegiados”.

Ora, se esses começam a ficar assim como estarão os “não-privilegiados”?

Como me dizia um colega, um pouco mais entrado nos entas do que eu, quando percebeu que ficaria com a carreira bloqueada nos próximos 20 anos, «o que vale é que eu já estou habituado a viver com pouco». E é verdade, quem cresceu com pouco e aprendeu a gerir as suas expectativas está muito melhor preparado para resistir às consequências das socretinices, pretensamente modernaças e muito tecnológicas, do que muita gente das gerações mais novas que já não se lembra, ou nunca conheceu, os tempos agrestes de outrora, sendo que o outrora tem 50, 40, mas também apenas 25 anos.

Porque quem está bem, como revelava a Sábado na 5ª feira, são os homens e mulheres-sombra do do Bloco Central colocados em cargos dourados lá fora, no Parlamento Europeu (Edite Estrela, Capoulas Santos, Manuel dos Santos e uns desconhecidos que respondem pelos nomes de Sérgio Marques e Duarte Freitas) que sub-contratam metade da família para assessorias, em alguns casos recusando a responder a razão de tais actos ou defendendo-os em nome da «unidade familiar».

Excepto casos notórios de inépcia – Diamantino Durão, Maria do Carmo Seabra – ou de contornos duvidosos na sua acção – Alarcão Troni há muito tempo por causa de factores C, Ana Benavente e Valter Lemos por desenvolverem linhas políticas demasiado erradas – não acho que grande coisa se resolva com a dança das cadeiras das remodelações governamentais, em especial em governos em circuito fechado.

Muda-se algo, para que tudo fique na mesma. Não adianta. É uma perda de tempo.

Por isso, a notícia de hoje do Sol que dá Maria de Lurdes Rodrigues como “remodelável” a curto prazo não é especialmente interessante. Até a própria já anda a preparar o terreno para isso. Se ela sair, o maior mal está feito e as perspectivas de sucessãodificilmente farão adivinhar coisa melhor.

Se não, vejamos o conteúdo da notícia e tudo o que ela revela sobre quem efectivamente manda, um pouco como nos tempos de Ana Benavente inamovível na Secretaria de Estado, enquanto os ministros passavam pela 5 de Outubro, pelo menos um deles com o qual já nem mantinha quase contacto:

Dentro do Ministério da Educação, as relações entre Maria de Lurdes Rodrigues e o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, azedaram devido à polémica sobre o estatuto do aluno. Foi com o secretário de Estado que o grupo parlamentar do PS articulou as alterações ao diploma – e a ministra chegou a queixar-se publicamente de não ter sido informada em tempo útil das mudanças operadas.

Os lamentos da ministra não serão, no entanto, suficientes para anular o peso político do seu secretário de Estado. Afinal, Valter Lemos é da Covilhã, tal como Sócrates, e tem sido o ‘pivô’ na ligação do Ministério da Educação ao aparelho do PS. (Sol, 1 de Dezembro de 2007, p. 9, notícia assinada por Graça Rosendo e Helena Pereira)

Lido isto, que só publicita o que se sabe há muito, percebe-se que uma remodelação ou levará Valter Lemos a ministro (e nesse caso agarrem-se todos que ele destruirá tudo o que ainda houver de funcional no “sistema”, para o reconfigurar à sua medida, inversamente proporcional ao peso político) ou o deixará novamente como eminência-parda de um(a) novo(a) testa-de-ferro.

Maria de Lurdes Rodrigues percebeu tarde – se é que não aceitou esse papel desde o início – que era uma figura decorativa para consumo público. Só que a sua inabilidade e crispação exactamente nessa área, que nenhum retoque cosmético ou gabinete comunicacional conseguem disfarçar, e estando aprovada a legislação prevista, fazem com que a sua presença deixe de ser necessária. E assim se irá, certamente para algo mais do que o seu ISCTE paternal e acolhedor. Enquanto o “ajudante” fica, rejubilante.
Quem se lembrar da história de Luís XIII, sabe perfeitamente que era Richelieu que mandava em França.