Terça-feira, 27 de Novembro, 2007


Parece que Miguel Sousa Tavares vai pelas 23.00 à Sic-Notícias. Não sei se a TVI consentiu na traição, mas cheira-me a enxofre a uma hora de distância.

Entretanto, Vasco Pulido Valente foi visto a caminho do bunker da CGD ali ao Arco do Cego, para se proteger da saraivada.

Vou já fazer pipocas.

(c) Jorge Delmar

O ME e aqueles que se revêm nas suas políticas e apoiam a sua retórica em todas as áreas tendem quase sempre a citar, de memória e sem especificar, documentos e estudos que provam aquilo que afirmam e que fundamentam as decisões que querem tomar contra todo o sentido. Basta lembrar a tentativa para vender a questão da monodocência para seis anos, alargando-a ao 2º CEB, afirmando-se que isso está generalizado na Europa. Só falta a demonstração.

Mas quando se trata de estudos incómodos a estratégia imediata é a tentativa do descrédito, usando técnicas como o lançamento de dúvidas sobre o método de recolha dos dados, o período em que isso aconteceu ou simplesmente acusando os autores de tirarem conclusões erradas ou alarmistas.

Hoje saiu um desses estudos incómodos em que, apesar de se detectar uma ligeira diminuição, se confirma a prevalência do consumo de estupefacientes e bebidas alcoólicas entre os alunos do Ensino Secundário (e também do Básico).

Um em cada cinco alunos do ensino secundário já consumiu drogas e quase 90 por cento admite ter bebido álcool, de acordo com dados divulgados pelo Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT), que destaca ainda que o consumo de álcool, tabaco e droga tem vindo a diminuir desde 2003.

A notícia é da TSF, mas o estudo é oficial e pode ser lido em cruzamento com os relatórios já existentes ou o relatório anual realizado na Europa sobre a toxicodependência.

O assunto é demasiado grave para ser analisado de forma ligeira, ou ser sacudido como irrelevante. Realmente a única aparente “boa” notícia é que o consumo está em ligeira redução desde 2003. A crise económica lá tem os seus efeitos colaterais menos danosos.

Nos últimos dias, desde que tem soprado agreste brisa do sector confapiano camuflado, dois (?) comentadores decidiram brindar-me – deve ter sido telepatia entre ambos (?) – com o epíteto de génio alternativo. Um também me chamou retardado, mas a isso já estou habituado e conformado.

Quanto à do génio alternativo gostaria de sentir a coisa como um elogio e não como a ofensa que parece ser na mente de quem profere a qualificação. É que a ser assim posso ficar tiste e com a auto-estima estilhaçada, pois não tenho vocação suicida à Kurt Cobain ou Ian Curtis, nem para a meditação transcendental como o autor do Blue Velvet. Ou para experiências psicotrópicas como alguns tipos dos anos 60 cujos nomes me estão agora a escapar.

Que quem bata palmas às tiradas do PM sobre a necessidade de não confundir os sindicatos com os professores, depois não se interrogue sobre a relação entre a Confap e o universo dos encarregados de educação?

Em alguém notoriamente malcriado(a) aparecer a chamar malcriados aos outros?

É aquele que terei durante 9 meses com uma turma de 5º ano, como não tinha há bastante tempo, incluindo nisso a minha direcção de turma de 1999/2000 que “só” tinha 8 alunos sinalizados com NEE ou em situação de risco de abandono.

Se estou habituado a ter turmas complicadas em termos pedagógicos – tenho leccionado quase todos os anos turmas de currículos mais ou menos alternativos – e se este ano até tenho uma direcção de turma que não levanta grandes problemas, a outra turma, embora apresentada como “regular” encontra-se num estado lastimável a quase todos os níveis. Incapacidade da maioria organizar sequer um caderno diário, ausência quase completa de técnicas de estudo e organização dos materiais, dificuldade imensa em assumir uma postura adequada numa sala de aula, capacidade de concentração mínima e por aí afora. Não contando com os casos de evidentes dificuldades de tipo cognitivo.

Sou apenas professor de HGP e Estudo Acompanhado, mas esta combinação vai acabar por ser a única possibilidade de tentar, em conjunto com a DT que teve esta “sorte” em ano terminal da profissionalização, que aqueles 20 alunos cheguem ao final de Junho de 2008 a brilhar quase como novos. Porque para o ano devo tê-los novamente – pratica-se a continuidade pedagógica pelas minhas bandas sempre que possível – e quero ficar descansado que será um ano mais calmo.

Os resultados iniciais foram absolutamente catastróficos em HGP e foi necessário tomar medidas de emergência imediatas e fazer aquele tipo de trabalho que dá sentido à existência de diferenciação pedagógica entre turmas e alunos, que muita gente evoca teoricamente, mas que nem todos sabem o que acarreta na prática.

O ciclo do processo de ensino-aprendizagem deixa de ser algo linear, com alguns momentos de retrocesso para consolidação, para ser uma verdadeira espiral em que todo o passo dado em frente necessita de ser confirmado em cada momento. Em que todo o processo de avaliação é obrigado a ser revisto e nenhuma planificação rígida pode ser usada como grelha de trabalho.

Antes de tudo isso há que ensinar a usar um caderno, a saber quando tirar os materiais da mochila, que materiais usar sobre a mesa (não, não são as 24 canetas coloridas e perfumadas de que tanto ela gosta, assim como não é o afia com a cabeça de um monstro dos desenhos animados que serve ao parceiro para divertir os colegas) , como seguir uma aula, como trabalhar com o manual, que momentos usar para colocar dúvidas e como manter a atenção enquanto a dúvida colocada é esclarecida.

Como usar os intervalos para comer e ir à casa de banho. Como não perder os óculos todos os dias. Como não deixar em casa os óculos todos os dias. Como arrumar o lanche na mochila para não esmagar os pacotes de leite e assim inutilizar todo o dossier organizado no último mês. Como não começar a comer durante a aula. Como não entornar a garrafa de água sobre o caderno. Já agora, confirmar se existe caderno ou algo equiparável.

Como responder a uma questão só depois de ler a dita questão. Como distinguir um texto explicativo de uma questão. Que utilidade tem ouvir a explicação do professor. Porque não desenhar com o corrector na mesa. Porque não atirar a borracha pelos ares ao colega que a pediu lá do fundo. Como conseguir equilibrar o caderno e o estojo sobre a mesa sem os fazer cair de poucos em poucos minutos. Como dividir o espaço disponível na mesa com o parceiro.

Porque não é boa ideia manter o livro de Ciências aberto quando a aula de História já começou.  Porque é boa ideia passar o sumário de História no respectivo caderno e não no de Inglês, só porque tem mais espaço disponível. Porque é um desperdício abrir uma lição sempre numa folha nova. Porque não se deve rasgar uma folha, só porque houve um pequeno engano na transcrição de uma parte dos apontamentos. Porque tem algum interesse aprender a escrever sumário e lições com a acentuação correcta. Porque tem interesse que os apontamentos da aula se sigam ao sumário e não  sejam escritos depois de um desenho enorme de um colega com uma enorme cabeça e uns insultos infantis pelo meio.

Enfim. Voltar à base mais fundamental de tudo, quando estas crianças já têm 10 anos e 4 anos de escolaridade. E até são da maior simpatia e boa disposição. E cordatos perante as indicações, mas com uns reduzidos, reduzidíssimos, alicerces em todas aquelas competências. Mas felizmente que são quase todos exemplos de sucesso, porque têm um cadastro limpo de repetências.

Mas é esse o trabalho a fazer e, como prometi à DT, daqui por seis meses já aqueles motores trabalharão razoavelmente. Não estará tudo afinado e capaz de entrar numa corrida de fórmula 1, mas a maioria  já terá percebido as coordenadas básicas de uma sala de aula e, porque não, de um mapa do manual de HGP.

E isto não são queixas ou acusações do que for ou relativamente seja a quem for. São meras constatações.

(c) Raim