Segunda-feira, 26 de Novembro, 2007


O nexo de encadeamento lógico de quase todo este discurso proferido na abertura da conferência A Escola Face a Novos Desafios. Garanto que não é má vontade.

O ponto 2 apresenta uma descrição histórica sumária do desenvolvimento dos sistemas educativos europeus que está errada para metade da Europa Atlântica ou Ocidental incluindo nessa metade praticamente todos os países não-católicos cuja escolarização se baseou em escolas organizadas pelas comunidades locais com escassa intervenção estatal.

Se bem percebo, no ponto 3 admite-se que tudo o que o ME pretende impor aos professores pode falhar, a menos que profissionalizem a gestão das escolas. O que atendendo ao exemplo vindo da gestão dos Hospitais EPE é realmente uma solução muito aconselhável.

Quanto ao ponto 4, a redundância e circularidade do discurso é tal que me deixou positivamente entontecido. Transcrevo apenas a parte final:

Assim, a somar às competências mais tradicionais ou básicas – como a comunicação na língua materna e em línguas estrangeiras, em matemática e em ciências  – existe hoje a competência digital, obviamente, bem como um crescente número de competências mais transversais.

Refiro-me às competências sociais e cívicas, ao espírito de iniciativa, à sensibilidade e à expressão culturais.

Estas competências representam a actualização das exigências no campo da cidadania, no sentido lato da participação nas diferentes áreas da vida colectiva (a política, a económica, a ambiental, a fiscal) projectadas num espaço mais além do que as fronteiras de cada Estado-Membro.

Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr. E pensava eu que o Carlos Zorrinho alinhava o discurso vazio mais entusiástico da nossa praça técnico-política. Afinal há pior. E apresentar a sensibilidade cultural como uma nova competência é uma ideia extraordinária. E então o que dizer da introdução da competência para a participação na vida fiscal? De antologia.

A conclusão tem expressões como «mapeamento da realidade» e «fertilização cruzada» e estaria tudo dito se não ficasse a pérola maior de MLR nesta prosa e que é – em consonância com as suas declarações sobre o Estatuto do Aluno e as eventuais e naturais apetências dos jovens pelo sol – a seguinte:

Desejo também que, além de uma boa conferência, possam desfrutar do nosso sol e clima ameno, passando na nossa cidade uns dias agradáveis.

Pim. Pois.

E as fotos do jantar solene são munta porreiras, pá! 

Pam.

E ainda há quem diga que eu é que sou ruim.

Pum.

Fico sempre baralhado quando a crítica dita “de referência” elogia um blockbuster. Mesmo não sendo o tema especialmente do meu agrado – O Senhor dos Anéis encheu-me as medidas nesta matéria por muito tempo – acabei por ficar curioso, mais que não seja pelo experimentalismo técnico em que Zemeckis costuma ser exímio (o Quem tramou Roger Rabbit? ainda entra no meu top 25 de filmes).

Eis que me chega o texto do professor João Peres Andrade publicado no caderno Actual do Expresso de sábado e que pelo formato não pude digitalizar.

Graças ao José Nunes, que foi o responsável pelo lançamento da petição contra a TLEBS, chega-me agora uma versão alongada em pdf para todos que queiram descarregar (tlebs2.pdf).

Um em cada cinco adolescentes diz já ter tido um acidente na escola no último ano

(…)
De uma amostra representativa de 1581 adolescentes 21,4 por cento os responderam que tiveram pelo menos um acidente na escola no espaço do último ano. Durante o mesmo período 5,9 por cento dos jovens revelaram ter tido mais do que um acidente.
A média de idades dos inquiridos foi de 16 anos e o inquérito decorreu em 2002 em escolas públicas de todo o país. Os dados foram apresentados por Raul Oliveira, um dos autores do estudo.
O estudo pretendeu traçar o perfil dos adolescentes com maior probabilidade de sofrer acidentes e chegou à conclusão que os rapazes têm o dobro do risco das raparigas. Quando se analisa o grupo dos adolescentes que reconhecem ter tido vários acidentes, observa-se que o risco desta ocorrência aumenta em alunos estrangeiros, em quem tem queixas psicossomáticas (como dizer que está deprimido, tem dores de costas) e em quem reconhece ter comportamentos de violência, como envolver-se em lutas ou transportar armas brancas ou de fogo, notou Raul Oliveira, que assinou o trabalho com Emanuel Vital e a coordenadora do estudo, Margarida Gaspar de Matos. (Do Público, sem link)

O que este estudo revela é algo que o Observatório ou Equipa de Missão para a Segurança Escolar (ou no Meio Escolar como foi inicialmente idealizado) se mostra repetidamente incapaz de admitir como uma realidade. Já Albino Almeida da Confap acha que a culpa é dos docentes (a expressão é “aponta o dedo aos docentes”), como se pode ler nesta peça com apenas duas semanas sobre a indisciplina nas escolas e o stress docente.

Claro que muitos acidentes são, por definição, acidentais, e nem sempre resultam da indisciplina e violência. Mas a Escola como um “espaço seguro” é um mito piedoso para acalmar as famílias sobre as condições do quotidiano em muitas escolas, em especial nos meios urbanos e suburbanos.

Aliás, acredito que a par da questão dos resultados, muitas opções pelo ensino privado se prendem exactamente com a questão da segurança dos espaços escolares, que no caso das instituições privadas é maior em virtude da sua menor dimensão e regras mais rígidas de acesso e funcionamento dos recintos.

A Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) nega que tenha exigido o regresso dos alunos do Colégio de Vizela às escolas públicas, sublinhando que os pais devem estar mal informados. O director do colégio diz-se «estupefacto» com as explicações da DREN. (TSF)

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No fundo, a questão passa pela velha questão dos dinheirinhos porque a notícia online não é completa sobre o problema que passa pela necessidade de inclusão de uma aluna com NEE no Colégio, por indicação da DREN, sendo que para isso se tornou necessário criar uma nova tuirma, de acordo com os trâmites da lei quanto à dimensão das turmas com alunos nessas condições.

A DREN deve ter “despachado” a aluna pensando que o Colégio a iria inserir numa turma já existente. A direcção do Colégio decidiu inseri-la numa nova turma que criou. A DREN diz que não paga, porque não está prevista no contrato de associação. Só que estamos em Novembro e os alunos estão lá.

Depois há sempre aqueles ofícios que, pelos vistos, são tão mal escritos que permitem todas as interpretações. A Associação de Pais, apanhada no meio da disputa, defende os interessados/lesados, que neste caso são os alunos. Espera-se a posição firme da Confap, já que até é uma questão de “proximidade” e de evidente defesa dos interesses daqueles que afirma representar. Percebo que implica oposição à DREN, mas é assim que a independência se demonstra.

Perdoem-me o anglicismo, a pseudo-citação nada erudita, mas é a que se aplica mesmo à situação.

Parece que nas últimas semanas consegui – por fim!!! – tocar fundo em algumas sensibilidades pouco habituadas a ser questionadas.

O resultado, para além de um ainda minúsculo hate-mail é a existência de comentários que se dirigem não às ideias e argumentos, mas à pessoa. Com o que eu vivo bem. Os trocadilhos e jogos com o nome sofro-os com bonomia há 35-40 anos, as alusões a uma eventual prática pedagógica desaconselhável só me interessam as dos meus alunos, assim como os questionamentos de “carácter” ou “motivação” esbarram com o facto, inultrapassável, de eu ser um cidadão comum, não pertencente a nenhuma organização (ou nomenklatura, para obedecer à terminologia do H5N1), que se acha com o direito de exercer a sua opinião, respeitando o direito ao contraditório.

Se isso incomoda alguém, tudo bem, a ideia era mesmo essa.

E, para além disso, há adversários ou opositores que acabam por nos definir. Se eu desagrado a certos sectores, provavelmente fiz por isso e não estou nada arrependido. E diverte-me, claro que diverte, ver a forma como contra-atacam.

Há poucos dias surgiu no Correio da Manhã a denúncia da pressão para subir resultados neste ano lectivo. Sobre órgãos de gestão e destes sobre professores.

O Ministério desmentiu.

Claro que o passo seguinte é surgirem notícias como esta do JN, onde se mistura e baralha de tudo um pouco. Mas vamos ler algumas passagens:

Reprovar: o pior castigo da escola

Se há pior lição que se possa trazer da escola é a de que não se é capaz de aprender. Infelizmente, esta é a realidade para milhares de alunos do ensino obrigatório, para já não falar do Secundário. As estatísticas do ano lectivo de 2004/5 dizem que 19,7% dos alunos do 3.º Ciclo reprovaram, ou seja, mais 1,3% do que 10 anos atrás.

Especialistas em educação contactados pelo JN explicam que a escola está a penalizar as classes mais desfavorecidas, sem condições sociais, culturais e financeiras de acudir aos filhos. Reestruturar o sistema, diversificar os currículos, melhorar as condições físicas das escolas e os seus recursos humanos foram alguns dos caminhos sugeridos para combater as elevadas taxas de insucesso escolar.

O fenómeno já foi reconhecido pelos ministérios da Educação e do Trabalho que, num documento de 2004, concluíam estar-se “perante um sistema de ensino com manifesta desarticulação entre os diferentes ciclos, com patamares de exigência claramente desnivelados e com eventuais problemas de desadequação após a transição”.

Pedro Abrantes, investigador em sociologia da educação, disse ao JN que a lógica dos agrupamentos verticais, que unem jardins-de-infância e escolas dos três ciclos do Básico em rede, não funciona. “Seria suposto que o percurso do aluno fosse pensado em continuidade, mas isso não acontece. Na prática, os professores dos diversos níveis continuam a funcionar isoladamente”, referiu.

O facto de o 7.º ano ser o mais penalizador deve-se ao facto de se perpetuar o espírito de liceu. “As escolas tornam-se mais académicas e os alunos sentem o aumento do nível de exigência”, explicou. No seu entender, são as classes sociais mais desfavorecidas – sem a cultura suficiente para apoiar os filhos – as mais penalizadas.

Isto é excepcional a vários níveis:

  1. Antes de mais porque usa dados de 2004 para indicar que as reprovações estão a subir, quando o ME afirmou há semanas que pelos números de 2007 estão a descer. Como de costume, os números são usados conforme dão mais jeito.
  2. Depois, tenta-se criar o sentimento de culpa nos por docentes estarem a chumbar mais pobres do que ricos, por questões de preconceito ou desajustamento do funcionamento das escolas. Claro que, se quisermos ser demagógicos, poderemos sempre dizer que há mais pobres do que ricos, em especial na escola pública pelo que é impossível que chumbem mais “ricos” do que “pobres”. Mas claro que esta é uma velha argumentação – tem meio século na sua formulação sociológica aceitável e quantificada – que pelos vistos muitos dos “especialistas” ouvidos pelo JN não contestam.
  3. Por falar em especialistas, os que concordam com a tese da peça (em especial quando se trata de apontar o dedo aos professores) são citados directamente; da única que parece discordar (destacando a dimensão das turmas, etc) faz-se um apanhado muito resumido das suas posições. E depois temos as declarações de Albino Almeida da Confap, que me escuso a comentar em profundidade para não despertar a sua fúria, chegando declarar que são mais do mesmo. E temos ainda a enésima repetição de que o currículo é igual num colégio privado de Lisboa ou numa escola rural de Trás-os-Montes, o que não sendo totalmente falso é erróneo e assume que não existem Projectos Educativos nas Escolas ou Projectos Curriculares de Turma.
  4. Outra curiosidade é afirmar-se que o 7º ano é o mais penalizador, quando apenas há dias os responsáveis do ME afirmavam que a transição do 1º para o 2º CEB é que tinha maiores custos em termos de sucesso. Temos, de novo, a opção pelos números mais convenientes dos anos mais convenientes.

Por fim, há ainda o remoque sobre o facto de, aparentemente, os agrupamentos verticais (obra de Marçal Grilo, no Governo PS) não funcionarem e as Escolas Secundárias manterem um espírito de “Liceu”.

Isto é tudo especialmente risível (o 7º ano é leccionado em grande parte em Escolas 2/3 e não em “Secundárias”) , ou melhor, não o é porque revela que se poderão estar a preparar alterações profundas na orgânica das escolas caso esta maioria permaneça em 2009.

E que alterações poderão ser essas?

  • Antes de mais o regime da monodocência coadjuvada (algo que mesmo muitos eduqueses consideram ser uma solução errada) pode começar a ser pensado como solução económica e prática para responsabilizar pessoalmente um docente pelo sucesso dos seus alunos do 1º ao 6º ou mesmo ao 9º ano.
  • Reduzir o número de ciclos de escolaridade para dois – um erro enorme – fundamentalmente com critérios economicistas, mas cobertura “pedagógica” em nome do combate ao insucesso. Havendo apenas objectivos de ciclo e dois ciclos, há menos hipóteses de reprovação.
  • Em seguida que, em nome da territorialização das políticas educativas, o regime dos agrupamentos pode vir a ficar debaixo de fogo a médio prazo. O que não é necessariamente uma coisa boa, se percebermos que isso pode significar que a dependência dos estabelecimentos de ensino, de novo atomizados, pode passar para as autarquias.

Adenda: Só agora ao final da tarde li a explicação do J. Matias Alves sobre a forma como pulverizaram as suas declarações ao jornalista que fez a peça do JN. Por acaso, achei-as tão curtinhas que adivinhei marosca. Isto já quase lá vai por palpite.

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