Domingo, 25 de Novembro, 2007


Daniel Sampaio parece ter agora tomado a defesa dos professores como uma sua prioridade, pelo que não há semana neste mês que não tenhamos novas declarações curiosas:

Nas minhas duas últimas crónicas reflecti sobre o suicídio nas nossas forças de segurança, a exigir medidas urgentes, e sobre o ensino e os bons professores, a partir daqueles que não se resignaram e continuam a tentar inovar na sala de aula, apesar das dificuldades crescentes. É na escola que se tem de iniciar a reflexão sobre o homem contemporâneo, única forma de combatermos a barbárie, Por isso, precisamos apoiar os professores, evitar que se percam na burocracia, dotá-los de um mínimo de condições de trabalho que permitam o estímulo à pesquisa e à descoberta com os seus alunos. É uma tarefa difícil, porque à escola hoje se exige muito e se dá pouco: por exemplo, alguém de bom senso acredita que um aluno de catorze anos, no 8º ano de escolaridade, pode aprender alguma coisa de consistente com a sua cabeça em crescimento a dispersar-se por dezasseis áreas curriculares? E que dizer do apagamento progressivo da Filosofia ou da menorização das humanidades, para já não falar da ideia agora na moda de que as escolas devem servir as empresas?

A esperança está, como sempre, nas novas gerações. Oxalá estejam atentos e ainda a tempo de evitar a barbárie. (Pública, 25 de Novembro de 2007, p. 90)

Pois, em primeiro lugar fica por definir o que DS entende por “barbárie” e quem são os agentes que actualmente nos empurram para ela.

Julgo, em coerência com a citação, que sejam aqueles que criaram as dezasseis áreas curriculares para o 8º ano, que estão a pagar a Filosofia e as humanidades, bem como a querer transformar as escolas em organizações de tipo empresarial ou ao serviço das suas necessidades.

Seria mais claro colocar nome nos bovinos para depois aos visados não ser demasiado fácil fugir à sua real identidade. Porque bem sabemos quem são e escusam de argumentar com fenómenos “internacionais”.

Mas, como é costume, o diagnóstico até está bem razoável, só falta mesmo a explicação sobre como aqui chegámos, quem andou a estragar isto – e nem vou comentar o apelo permanente ao “inovar da sala de aula” que tanto alimentou experiências ao longo dos anos 90, como se a “inovação” fosse um fim em si e não apenas um meio, útil ou não, conforme as circunstâncias – e como sair da actual situação labiríntica.

Claro está que não é com o actual enquadramento da acção dos docentes que isso será possível, muito pelo contrário. Mas estará Daniel Sampaio disponível para partir das considerações vagas para o terreno concreto das soluções e da contestação activa ao que considera errado?

Quanto às novas gerações, há sempre que ter esperança, mas eu esperaria de IPod, telemóvel 3G ou PS3 na mão, neste Natal, como estímulo positivo e inovador.

Auditório Augusto Cabrita (Barreiro), catálogo ontem com o Público por 10 euros.

Um dos erros mais lamentáveis da acção deste Ministério, desta Ministra e da sua equipa foi a forma como – com a concordância do seu primeiro – decidiram alienar a maioria larga dos docentes em nome do que apresentaram como uma causa maior, ou seja, a conquista da opinião pública para o apoio das suas políticas demagógicas e laxistas, sob o manto mistificador da defesa do mérito.

Como sabemos, os humores da opinião pública são voláteis, mas os erros das políticas permanecem e as quebras de confiança entre os profissionais de um sector e os seus dirigentes são dificilmente sanáveis depois de atingido um ponto de não-retorno. Ou são mesmo impossíveis de sanar. Como me parece o caso actual.

O que acabou por acontecer nestes dois últimos anos foi a instalação de um clima de perfeita animosidade, repulsa e desânimo entre um número enorme de professore, em todos os escalões da carreira, muitos deles sem historial de postura muito crítica ou de adesão a “radicalismos” sindicais. Como eu que, no espaço de pouco mais de um ano farei mais greves do que nos 15 anos anteriores.

  • No topo porque sentiram que foram ofendidos e depois usados da pior forma quando disseram que a sua progressão tinha sido conseguida sem mérito, após o que os empurraram para uma titularização que duplica ou triplica o seu trabalho, sob ameaça velada de acabarem colocados em alguma modalidade de mobilidade. Para além de que, de forma quase directa, os acusam de nos últimos 30 anos terem sido responsáveis pelo fracasso das excelentes políticas educativas colocadas em prática no país.
  • A meio da carreira porque as hipóteses de progressão ficaram cortadas cerce para uma larguíssima percentagem de profissionais que, já com bastantes anos de experiência, ainda se encontram com disponibilidade e energia para desenvolverem projectos e actividades em prol da melhoria do sistema de ensino. Muita gente com 15 a 20 anos de carreira e com 35-45 anos viu como a tutela os sacrificou em nome da ditadura do Orçamento e lhes bloqueou as aspirações e alterou as regras a meio do jogo. Cortando-lhes horizontes remunerativos, limitando-lhes as hipóteses de formação científica e pedagógica, aumentando-lhes o horário de trabalho sem qualquer compensação que não a humilhação pública e o apodo de desfrutarem de  “privilégios corporativos”.
  • Os que iniciaram há pouco a carreira porque perceberam que esta se pode tornar um beco sem saída a vários níveis, desde as condições de trabalho às de remuneração, passando pela própria forma como a tutela projecta a imagem dos  docentes para o exterior, retirando-lhes autoridade (real ou simbólica) e avisando-os publicamente de ou aceitarem ficar caladinhos ou sossegadinhos, ou nunca mais saírem do fundo da pirâmide.

Não são poucos os estudos que demonstram que sem um activo empenho dos docentes, nenhuma reforma educativa consegue ter sucesso, mesmo as que se baseiam em pressões directas sobre eles ou em truques legislativos para “inventar sucesso”. Viñao Frago tem escrito sobre isso na vizinha Espanha, assim como outros autores o fizeram para outras paragens mais distantes e modelares (David Tyack, Diane Ravitch, etc), desmontando os mecanismos que fazem com que a intenção legislativa, mesmo quando é límpida e transparente, tem dificuldade em atingir o terreno concreto das realizações. Por maioria de razão, a situação piorará quanto mais a tutela desacreditar e amesquinhar aqueles que quer que lhe obedeçam. Porque quanto maior a pressão, mais forte tende a ser a reacção, a mais curto ou longo prazo.

Mas o problema não é apenas esse. O maior problema poderá ser o abandono da docência por parte de muitos daqueles que abraçaram a profissão com ânimo e sempre a serviram com qualidade. Aliás, são muitos desses que agora se  sentem mais injustiçados e que contam ansiosamente o tempo para qualquer modalidade de reforma ou saída da profissão. Os “maus” docentes, esses, se é verdade que não sabem fazer mais nada como os críticos gostam de afirmar, ficarão onde estão.
É óbvio que o ME anseia pela saída de gente que esteja de meio para cima na carreira, pois a substituição sairá barata para o orçamento. Mesmo se sair cara em termos práticos. A troca de um docente que leva 1500 euros líquidos para casa por um que leva 800 parece um bom negócio. Só que isso será apenas a aparência de uma realidade bem diversa, que será o empobrecimento brutal do ensino público.

Muitos colegas da minha geração, formados nos anos 80 e que começaram a leccionar há perto de 20 ou mesmo mais anos, ainda estando em idade activa e com mercado de trabalho disponível, começam a pensar em debandar. Outros já o fizeram nos últimos dois anos. Não são poucas as conversas de proximidade ou de amizade em que a questão aflora. Lamenta-se ter abandonado uma profissão liberal, a dedicação exclusiva à docência, a recusa de convtes para outras actividades há não muitos anos. Entre muitos colegas meus de Faculdade que optaram conscientemente pela docência e não experimentaram outras actividades, ao fim de 15-16 anos de carreira a hipótese mais óbvia será saírem para o ensino privado. Outros recuperam contactos em outras actividades profissionais e só não saíram ainda porque a economia está de rastos.

Em todos os países onde se deu este fenómeno, ao fim de uma década, quando muitos dos que ficam o fizeram porque estavam perto de poder libertar-se, os custos reais para a Educação foram enormes e foi necessário um esforço de requalificação e dignificação da classe docente, em especial do sistema público de ensino. Assim se passou na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos, na Alemanha e mesmo na adorada Escandinávia.

Entre nós, devido ao exército de desempregados, engrossado anualmente pela produção de licenciados “baratos” do Ensino Superior na área das Ciências da Educação, há a sensação de ser possível escapar a esse destino, pelo menos no prazo de vida útil destes governantes. Quem vier a seguir que se desenrasque. Mas essa é a mesma estratégia daquele que faz uma vala para o lixo nas traseiras, esperando que nada de mal aconteça durante a sua vida e deixando a solução da contaminação dos solos para os vindouros.

Também este ME apostou numa estratégia de alienação dos melhores docentes (será que a afluência ao Prémio Nacional de Professores de meia dezena de candidatos, quantos deles empurrados pelos órgãos de gestão não foi um sinal de nada?) que terá custos enormes a médio prazo para a qualidade do Ensino Público.

Mas, como já por aqui repeti, nenhum dos actuais figurões estará cá para apagar o fogo, quando isso for preciso, pois não? 

When insults had class

It’s stating the obvious to say that the worst thing about the internet is the horde of morons that populate it (present company excluded, of course). I will admit to antagonising these sad excuses for human beings for my own amusement in the past. What can I say? As a kid I used to stir up ant’s nests.

But no more. I’m done with these losers. I refuse to even acknowledge their pathetic attempts at insults until they make a decent effort. They may never reach the standard of the classics listed below but I’m not going to indulge people who don’t even try. (o post continua com citações de excelentes insultos, de Churchill a Billy Wilder)

Há uns meses dei com este texto num blogue até então desconhecido e guardei o link como quem guarda algo que sabe lhe virá a fazer falta num futuro mais ou menos próximo.

Perante a actual investida pouco esforçada de um comentador ou outro mais abespinhado comigo, só posso reiterar o que o autor (Mr. Angry) deste texto declarou com tanta clareza: longe vai o tempo em que uma discussão, polémica ou simples insulto tinham alguma qualidade literária, estilística ou mesmo imaginativa. É por isso que, pretensioso ou não, procuro não voar tão rasteirinho como outros gostariam que fizesse, para os poder acompanhar. Chamem-me preconceituoso, sei lá, mas enquanto assim se mantiverem, apenas me divertem e se ridicularizam a si mesmos.

OK, Henrique?