Sábado, 24 de Novembro, 2007


(c) Antero Valério

Funcionários não-docentes são vítimas diárias de agressões nas escolas

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“Fala-se muito em agressões a professores ou entre alunos, mas esquece-se as dezenas de funcionários que são agredidos ou insultados todos os anos nas escolas portuguesas”, disse à Lusa o secretário-geral da FNE, João Dias da Silva, referindo que o assunto foi já levado ao procurador-geral da República, Pinto Monteiro.

O dirigente associativo falava à margem dos trabalhos do Dia Nacional do Trabalhador Não-Docente que hoje decorreu no auditório municipal de Felgueiras, com a presença de 200 trabalhadores, para debater a possibilidade de integração de funcionários não-docentes nas autarquias locais.

João Dias da Silva disse que, tal como sucede com os professores, não há números exactos sobre as agressões a funcionários nas escolas, desafiando o Ministério da Educação a divulgá-los, “mais que não seja, recorrendo às estatísticas de processos disciplinares levantados a alunos”.

O alerta está correctíssimo, mas o método proposto para avaliar a situação está longe de ser satisfatório, pois as queixas de auxiliares de acção educativa que culminam em processos disciplinares a alunos são muito raros, nem sempre pelas melhores razões.

E verdade seja dita que, se os docentes sofrem em muitas escolas constantes agressões físicas e verbais, as condições do trabalho quotidiano de muitos funcionários são quantas vezes mais dramáticas.

A actual política educativa assenta em muitos equívocos, chavões mal demonstrados, fundamentações erradas e muitos anúncios de “sucessos” que não passam de falhanços a curto ou médio prazo.

Algumas das medidas erradas – mas propagandeadas como excelentes – irão demonstrar a sua invalidade daqui por uma mão-cheia de anos, enquanto outras que se anunciam terão efeitos devastadores a mais longo prazo, para lá de 2013 que é o prazo definido pelos senhores da actual maioria fazerem o que bem entendem.

Uma das políticas erradas, não em abstracto, mas na sua formulação concreta é a da multiplicação de cursos apresentados como profissionalizantes, os CEF e EFA, mas que mais não passam do que uma adaptação e generalização, para pior, do que foram os chamados “9ºs+1”, (mal) financiados pelo PRODEP há alguns anos.

Em boa verdade, muitos CEF (ou EFA) não passam de uma forma de combater o insucesso escolar – e em menor grau o abandono – através da criação de cursos praticamente sem meios técnicos, com uma capacidade de integrar os alunos no mercado de trabalho meramente provisória e uma estratégia cosmética para dar a entender que voltámos a ter uma espécie de ensino técnico intermédio equivalente ao das antigas escolas comerciais e industriais.

Na verdade são “turmas de nível” encampotadas onde se promete sucesso em troca da presença na escola ou, se as valtices singrarem, apenas da matrícula.

Em outras paragens, a começar pela fonte inspiradora desta solução – a Inglaterra blairista com os seus “cursos vocacionais” – a estratégia já começou a ser seriamente colocada em causa já há alguns anos (ver aqui uma das inspirações para as medidas em curso entre nós, assim como este relatório; complementarmente a série de peças alinhadas aqui sobre este assunto e não só) pelos pobres resultados alcançados, tanto quanto à qualidade das aprendizagens realizadas e sua adequação ás necessidades do mercado de trabalho, como quanto à capacidade dos formandos seguirem depois percursos educativos para o Ensino Superior.

Entre nós apresenta-se, portanto, como grande iniciativa o que além-fronteiras já começou a ser questionado por fornecer uma educação de segunda qualidade, sem verdadeira relação com as necessidades de mão-de-obra e apenas iludindo os formandos com um diploma sem especial valor para os empregadores, conhecedores de tudo isso e que acabam por preferir trabalhadores formados através da prática no local de trabalho.

Claro que, num primeiro momento, o aumento do número de alunos e o seu crescimento nestes cursos, pode parecer um sucesso. O que falta avaliar é, daqui por uma mão-cheia de nos, onde estão esse alunos, qual foi o seu trajecto educativo e como ocorreu a eventual transição para o mercado de trabalho.

E daqui por dois ou três anos teremos milhares e milhares de formandos com a devida certificação das suas qualificações. O que será um sinal apresentado como evidente do sucesso de uma política errada. O pior virá depois. Mas serão certamente casos – como o do desemprego actual de licenciados e candidatos a professores – dramáticos individuais.

Mas, como de costume, os inventores da ideia, perante o seu (desde já previsível) fracasso, ou não comparecerão à chamada ou atribuirão as culpas a outrém, sejam as escolas que “não souberam” implementar a política, seja a “conjuntura” (uma culpada útil, porque impessoal) económica que não terá sido favorável.

(anexos a ler: o chamado Tomlinson Report e uma apresentação do modelo finlandês da VETVocational Education and Training)

 Sem pretensões de grande literatura, desculpem, de grande arte.

A recensão de Vasco Pulido Valente ao best-seller anunciado de Miguel Sousa Tavares.

Sendo dois dos mais verrinosos comentadores da nossa praça, existe algo que os divide: Vasco Pulido Valente tem a (improvável) humildade de não se sentir capaz de escrever ficção com qualidade que o faça sentir-se confortável com o produto, enquanto Miguel Sousa Tavares achou que a capacidade de escrever uns milhares de caracteres em forma de crónica seria suficiente para produzir ficção de “fôlego”.

O resultado acabou por ser um choque de egos, com VPV a não iludir a sua opinião negativa sobre a ficção histórica de MST e MST a não tolerar qualquer crítica ao brilho e reverência que sente ser-lhe devido por todos nós.

Hoje, no Público, VPV demonstra ter lido O Rio das Flores, que para si «vale pouco ou nada como romance histórico [sendo] pobre e vulgar como romance de família», algo que não posso comprovar, por que não li o tijolo. Quanto ao Equador já qui escrevi há bastante tempo , na essência, o diagnóstico não é muito diferente. Só que como entre nós, à data, a ficção histórica ainda não se industrializara como hoje, a falta de originalidade da obra saiu encoberta e nem todos os compradores perceberam que em Frqança, por exemplo, seria um entre muitos livros de um género.

Mas fiquemo-nos pela introdução de VPV à recensão que contextualiza o diferendo entre ambos, dando pistas interessantes sobre a forma dirigida dos ódios de MST e os meios a que ameaça recorrer para combater os que o incomodam. Como os professores tão bem sabem, a pretexto de um colega que faltou a uma aula numa segunda feira em que MST foi obrigado a abandonar o Alentejo para levar o filho à escola.

Numa entrevista ao Expresso, Miguel Sousa Tavares contou um caso, inteiramente imaginário, da minha suposta desonestidade (teria criticado o Equador, sem o ler) e acrescentou alguns comentários desagradáveis. Como é natural, desmenti. Bastou para que ele anunciasse por SMS à minha mulher e, a seguir, no Diário de Notícias que “ia dar cabo de mim”. Parece que, segundo o critério dele, não “deu”, por esta vez, “cabo de mim”. Ficou pelo insulto e pela injúria; e pela ameaça implícita de que, se quisesse, revelaria episódios da minha vida pessoal (cinco ou seis) para liquidar a minha figura pública. Nestas digressões Miguel Sousa Tavares não falou uma única vez de um livro meu ou do meu jornalismo. Excepto sobre o meu “carácter” privado, não abriu a boca. Em cinquenta anos, não me lembro de encontrar um ódio tão inexplicável. Fiquei espantadíssimo e até, num encontro de acaso, lhe tentei falar, para lhe poupar no interesse dele uns tantos disparates no Rio das Flores. Não quis.

Escrevo esta crítica sem prazer. Nada pior do que ler um livro mau, excepto escrever sobre um livro mau. Mas, como se compreende, não podia deixar que a brutalidade de Miguel Sousa Tavares chegasse para me calar.

Pois. E o que se segue é demolidor. De qualquer modo não iria comprar o Rio das Flores porque o seu volume enquanto objecto – e o custo também pode ser usado de forma mais útil – não são neste momento comportáveis no espaço disponível de forma útil na minha biblioteca. O Equador li-o porque o empresário Belmiro num Natal passado o colocou com 50% de desconto nos seus supermercados e eu comprei uns quantos para oferecer, sendo que alguém já o tinha e fui obrigado a trocar de prenda. O que me obrigou a ficar com um exemplar. Como a dimensão da obra não equivale à sua densidade ou dificuldade na leitura, acabei por o despachar. Como despacharia uma Juliette Benzoni ou mesmo um Max Gallo, estimáveis que são, mas longe de um Alexandre Dumas ou um Tolstoi.

De qualquer modo, acho que esta crítica de VPV até vai ajudar MST a vender mais umas rodadas de pãezinhos quentes em forma de livro, nem que seja para muitos lerem para crerem.