Sexta-feira, 23 de Novembro, 2007


Uma das características que mais distinguiam, no passado, aquilo a que se chamava proletário, com escassa qualificação, de um profissional qualificado com algum estatuto, para além dos aspectos mais óbvios, era a relação de cada um deles com o tempo e a capacidade de o usar de acordo com os seus interesses.

  • Mais do que o camponês do mundo pré-industrial, o proletário era aquele que vivia de acordo com o horário imposto pela fábrica e pelos ritmos da maquinofactura, sendo que da obediência a esse horário, que era em última instância definido arbitrariamente pelo patrão-empregador, dependia a sua subsistência na forma de um salário jornaleiro. Recebia se trabalhava e à medida da extensão do seu trabalho. Para além disso, o trabalho do proletário era feito fora da sua casa, afastado do núcleo familiar, ao qual regressava apenas as horas necessárias a um parco descanso.
  • Já o nascente profissional qualificado das sociedades industrializadas, profissional de tipo liberal por conta própria ou não, tinha uma relação diferente com a gestão do tempo profissional e familiar. Mesmo quando respeitador de um horário de trabalho, esse era um horário com regras em muitos casos dependentes de si mesmo. A carga horária de trabalho podia ser maior ou menor, mas existia uma margem de autonomia pessoal para a fruição do lazer, em ambiente familiar ou fora dele. Para além do mero poder económico, muito do estatuto social desses grupos profissionais nascentes de matriz burguesa, distinguiam-se pelo tempo que podiam guardar para si, para ocuparem na leitura do jornal com os amigos no clube, para o convívio em diversos tipos de tertúlias ou mesmo para a vida familiar.

No século XIX, apesar dos constrangimentos de que a profissão sempre padeceu, o professor (mesmo que da instrução primária) sempre esteve mais próximo – em matéria de autonomia na gestão do seu tempo – dos grupos sócio-profissionais mais elevados do que do mero proletário, ainda que as suas condições materiais não fossem as mais desafogadas.

Ao longo do século XX, apesar de um fenómeno de proletarização material da docência ao nível de ensino primário durante o Estado Novo, os professores sempre mantiveram um capital simbólico importante e, em especial no nível liceal, uma carga horária de trabalho com razoável margem para a sua (in)formação e lazer. Com a Democracia, e aapesar de todas as turbulências, a especificidade da função docente sempre foi tida em conta em, matéria de horário de trabalho.

Foi necessário, curiosamente, atingirmos um período por vezes considerado de pós-industrial, que alguns apresentam como marcado pela maior capacidade dos profissionais qualificados gerirem o seu tempo de trabalho, adaptando-o aos seus ritmos e à prossecução dos objectivos definidos para, em Portugal, as condições de trabalho dos docentes serem totalmente espartilhadas por imposições administrativas e burocráticas sem fim, através da redefinição dos conceitos subjacentes ao que deve ser o seu horário de trabalho, com um fortíssimo agravamento da sua carga de trabalho e a consequente restrição da capacidade de gerirem o seu próprio tempo em matérias como a sua formação e a própria vida familiar.

A actual proletarização da docência, para além da componente salarial e da desqualificação pública da imagem dos professores, traduz-se em grande parte pela forma como os próprios indivíduos passaram a sentir a degradação das suas condições de trabalho e pela saturação causada pelo alargamento do seu horário lectivo em cerca de 20% do tempo (de 22 para 26 horas, sem quaisquer contrapartidas) e do polvilhamento do seu horário não lectivo com uma infinidade de tarefas e reuniões que ultrapassam em muito aquilo que se diz serem as suas obrigações laborais de trabalharem 35 horas semanais.

Neste momento é minha absoluta convicção que uma larga maioria dos docentes trabalha tantas horas nos dias úteis como qualquer operário fabril de há um século atrás.

Com as inevitáveis consequências em termos de desgaste, de falta de tempo para se preparar melhor e actualizar-se ou, o que é mais grave, de erosão da sua qualidade de vida individual e familiar.

E essa é, para mim, a faceta mais triste e abjecta da pressão da tutela sobre os docentes com exigências sem qualquer verdadeira utilidade para a melhoria da qualidade do ensino, mas apenas para a criação de uma aparência de qualidade através da multiplicação dos procedimentos burocráticos.

Que reduziu cada vez mais a autonomia da gestão do tempo dos professores enquanto profissionais qualificados e agravou fenómenos de stress profissional, que se traduzem em crescente irritabilidade, impaciência e no agravamento da frustração dentro e fora das escolas. Longe e perto das suas famílias.

O que não traz objectivamente ganhos para ninguém, a menos que em todo este processo exista alguém com um oculto fascínio psicológico pelo divino Marquês.

A ausência, ao fim de vários dias, de uma reacção mais ou menos indignada a este, este e mais este post sobre o financiamento da Confap pelo ME com base no mítico protocolo.

Depois de terem aparecido por aqui com o teclado muito inflamado e uma atitude a roçar o intimidatório antes de se publicitarem os documentos, estranho como depois decidiram ignorar o assunto e assobiar para o lado, inclusivamente em relação às leituras sobre o seu significado.

O Público anuncia para amanhã a crítica de Vasco Pulido Valente ao novo livro de Miguel Sousa Tavares.

Eu já reservei um exemplar com antecedência, para o caso de esgotarem e partindo do princípio que os jornais não entram em combustão espontânea.

A exigência ética consiste em esforçar-se por conciliar dois princípios aparentemente contraditórios: a “educabilidade” que leva a exigir o melhor do aluno e a não-reciprocidade que leva a aceitar a resposta do aluno mesmo se ela não corresponde sempre aos desejos do docente e isso sem que este último renuncie às suas exigências. É isso a responsabilidade de toda a educadora ou educador e da equipa pedagógica tendo em vista o cumprimento da missão da Escola. (Para Uma Ética Partilhada Na Profissão Docente, um documento recente da Comissão de Formação do Pessoal Docente do Quebeque)

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Não é que esta formulação esgote plenamente aquilo que acho serem as exigências éticas do exercício da docência, mas já é um começo.

A escola possui uma missão cultural, tornando-se elemento-chave para a articulação de interesses, de gostos e de socialização de aspectos históricos, sociais e culturais, sendo os professores os seus catalizadores, acelerando ou retardando o processo. A atuação do professor é estratégica, exercendo um papel de tradutor da idéia oficial para o contexto da prática.

Nessa perspectiva, a prática docente no contexto da sala de aula não pode ser encarada como um exercício meramente técnico, marcado pelo atendimento às prescrições curriculares desenvolvidas por outrem. Os aspectos que perpassam o ofício do professor são múltiplos e complexos, inviabilizando qualquer tentativa de redução da sua ação.

O ofício do professor implica no manejo de técnicas, mas não só isso. Trata-se de um misto de habilidades que não podem ser engessadas nesse quesito. Diversas questões instigam o trabalho cotidiano do professor exigindo reflexão, análise de situações e tomada de posição. As técnicas, sejam elas de que tipo for, serão sempre meios para o professor articular conhecimentos gerais e disciplinares com vistas à aprendizagem de seus alunos. Falamos, portanto, de um trabalho de mediação em que o professor, mais do que um técnico, representa um tradutor e um difusor do conhecimento. Nesse processo de mediação, se revelam as nuances de seu ofício em que ele, a partir das análises dos fundamentos sociais e culturais do currículo, encaminha a sua ação no contexto da sala de aula, fazendo a interpretação e a crítica, produzindo e organizando conhecimentos, identificando e escolhendo técnicas e métodos pedagógicos para a socialização das experiências de aprendizagem de seu grupo de ensino.

No plano da formação e do exercício profissional, o que caracteriza o professor não é exclusivamente o domínio de uma disciplina, mas o de um conjunto de conhecimentos, que chamamos de saber docente (TARDIF, 2000), que inclui uma gama não só de saberes, mas também de práticas relativas ao ofício de ensinar. Nessa direção, o ofício do professor implica um saber fazer que assegure a aprendizagem da disciplina e a transmissão do que lhe é confiado pela via das diretrizes curriculares e que, inevitavelmente, expressa uma determinada concepção de mundo. (Giseli Barreto da Cruz, “A prática docente no contexto da sala de aula frente às reformas curriculares” in Educar em Revista, nº 29, 2007, continua aqui)

Exmo. sr. presidente do Conselho, fará V. Exa, na sua infinita generosidade, o favor de desculpar a minha ousadia por voltar a escrever-lhe, passado tão pouco tempo. Mas é que estou muito preocupado com o futuro dos meus filhos e não sei o que hei- -de fazer; preciso mesmo da sua ajuda. Eu explico.

No ano passado, o meu filho mais novo quis deixar o ensino “tradicional” e optar pelo ensino técnico, profissionalizante. Nessa altura, lembrei-me da paixão do PS pela educação, do “choque tecnológico”, e desconvenci o rapaz. Disse-lhe que era má ideia, que mais vale ser engenheiro por uma hora do que canalizador toda a vida; que quem quer ter uma carreira profissional a sério precisa de obter qualificações como deve ser, etc., etc.. Resultou.

Veja agora a minha confusão quando sou surpreendido pela notícia segundo a qual o desemprego entre os licenciados está a crescer e que, desde que V. Exa tomou posse, Portugal perdeu 167 mil empregos qualificados. Fiquei aflito. Tanto mais que tinha bem fresca a sua afirmação de que haviam sido criados mais 106 mil postos de trabalho, estando por isso quase cumprida a promessa do Governo.

Dizem-me os seus detractores que sim, que é verdade, mas uma verdade triste porque esses novos empregos, a que se referiu, são verdadeiros mas precários e destinados a jovens pouco qualificados. Os outros, os que andam a queimar as pestanas e a esfolar o desgraçado bolso dos pais para frequentar a universidade, não têm direito a nada. Empregos novos sim, mas desqualificados.

A crónica de Mário Contumélias no Jornal de Notícias continua por aqui.

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