Sábado, 17 de Novembro, 2007


 

(c) Antero Valério

Professores muito especiais

Cento e quarenta professores de diferentes áreas de formação estão a dar aulas na Educação Especial. É o caso de Maria, Fernando Gonçalves e Fernando Mendes, docentes há 15, 25 e 30 anos de Português-Francês, agro-pecuária e electrotecnia, respectivamente. A Fenprof acusa a tutela de ter preferido colocar docentes ilegalmente a contratar professores especializados. Já o Ministério da Educação garantiu ao JN que não há mais professores habilitados disponíveis.

Há 25 anos que Fernando Gonçalves dá aulas a alunos do 10º, 11º e 12º anos. Na segunda-feira à tarde quando chegou à escola, onde é efectivo há 22 – a Profissional Agrícola Quinta da Legiosa, na Covilhã – informaram-no que tinham recebido um telefonema do presidente do Conselho Executivo da EB2, 3 do Paúl perguntando por ele, porque tinha sido lá colocado para dar apoio a meninos com deficiências do pré-escolar ao 9º ano.

“Toda a minha vida ensinei no Secundário e de repente vejo-me num jardim de infância. Não sou a pessoa indicada para o lugar.”, afirmou ao JN. Fernando tinha um horário completo, turmas atribuídas e avaliações feitas. E, se a situação não for revertida, a sua escola terá de esperar por um docente para o substituir.

Como poupar dinheiro, não formando e colocando técnicos especializados, vassourando docentes para fora dos seus lugares e, principalmente, não dando o apoio necessário a quem dele mais precisa.

Mas com este ME é apenas business as usual. Aguarda-se a opinião das “famílias” sobre este assunto, desde que não seja para culpar os docentes em causa por não saberem fazer aquilo para que não foram formados e nem têm habilitação profissional.

 

Arranjei uma bela desculpa para aumentar a biblioteca cá de casa, ler coisas das mais interessantes que por aí são editadas e ainda reler prazeres passados, com o pretexto de estar a preparar as leituras futuras da minha miúda que já começa a alinhar as primeiras letras e a identificar palavras.

Ainda está mais no reino das imagens e das grandes iniciais capitulares, mas adora livros e, com esse encorajamento, eu vou constituindo o espólio futuro, que não acredito nada no reino dos e-books.

Neste caso temos uma das últimas novidades da Gailivro (que tem um belo espaço sobre a forma como se faz um livro) que satisfaz toda a gente cá em casa por causa do tema felino, assim como uma compilação de textos de Enid Blyton claramente destinada aos pais e só indirectamente à filha por uns quantos anos, através da tradução das histórias. Já muito estragados pelo uso os livros das edições de final dos anos 70 de Os Cinco, Os Sete ou O Colégio das Quatro Torres, perdidos os da série A Aventura editados antes pela Meridiano, estas colectâneas a bom preço (coisa de 9-10 euros) fazem-nos entrar em contacto com a autora pela via dos pequenos contos, mais facilmente contáveis aos mais pequenos e até utilizáveis nas aulas de Língua Portuguesa pela sua forma concisa e temas quase intemporais.

Como alternativa ou complemento ao Harry Potter, cuja edição nacional anda já este fim de semana por aí.

Declarações fantásticas de Valter Lemos, no boletim Educare, que o António Antão teve a gentileza de me enviar:

Para o secretário de Estado, uma eventual diminuição da procura da licenciatura em Filosofia – que afirma desconhecer se existe – “não tem a ver com o problema do exame”, até porque se trata uma prova para concluir o Ensino Secundário e não de acesso ao Ensino Superior. “Para concluir o Ensino Secundário não existe exame de Filosofia, como não existe de Biologia, Química, História ou Física”, lembrou, afirmando que a opção de acabar com o exame é “discutível”, mas que isso não pode confundir-se com o peso da filosofia nos currículos dos alunos.

Pelo que se vê, primeiro acaba-se com a Filosofia, em seguida deve ir acabar-se com a História, que ainda não acabou no mundo real, mas já na cabeça do Secretário de Estado.

Adenda (aparentemente) necessária: entenda-se o “acaba-se com a Filosofia” ou “a História” com o “acaba-se o exame”. Pensei que fosse perceptível a ideia, atendendo ao contexto e citação, mas fizeram-me notar que talvez não.

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Por vezes é necessário abandonarmos o carreiro simples, mas estreito, do politicamente correcto e da sabedoria convencional, dos chavões adquiridos, das frases feitas e tentar pensar as coisas de outra forma, olhando-as de um novo ponto de vista.

A Escola a Tempo Inteiro é apresentada como uma grande conquista da acção deste Governo, deste ME, aplaudida pela Confap actual e por diversos opinadores (preo)ocupados com a situação das crianças, cujos pais não conseguem acompanhar devidamente e, por isso, devem ser deixadas mais de 10 horas “nas mãos” (não gosto da expressão por uma multiplicidade de razões) do(a)s professore(a)s.

É um excelente exercício de spin sobre a admissão clara de um fracasso do Estado Social e a demissão de quem representa as “famílias” de efectivamente as defender pela via certa que deveria ser a da “Família a Tempo Inteiro” ou, no mínimo, a “Família a Meio-Tempo”.

Porque parece que as coisas mudaram de lugar e a lógica se retorceu por completo neste país, nestes tempos. Com que então a Escola a Tempo Inteiro é uma grande conquista social? Porquê?

Não seria antes uma conquista ter-se conseguido desenvolver o país para que as “famílias” pudessem dispor de condições para estar perto dos seus filhos todo o tempo possível?

Conheço algumas pessoas a trabalhar em países consensualmente tidos como mais avançados do que Portugal, leia-se, Norte da Europa ou mesmo Costa Leste dos EUA.

Curiosamente, nesses países a Escola a Tempo Inteiro, em particular a Pública para os mais novos, não existe em muitas zonas e esse é um sinal do progresso dessas sociedades.

Porquê?

Porque existe uma efectiva protecção social à maternidade, que permite que as mães fiquem – se assim o quiserem – os primeiros anos de vida do(a)s seus(uas) filho(a)s em casa sem perda do posto de trabalho e vencimento. Porque os horários de trabalho são flexíveis, não para obrigar mães e pais a voltar a casa tardíssimo, mas para que possam recolher os seus filhos às 2 ou 3 da tarde, no máximo.

Porque se atingiram estados de desenvolvimento económico e protecção social inimagináveis para nós e que, mesmo em retrocesso, ainda estão muito à nossa frente.

Por isso, a Escola a Tempo Inteiro é apenas algo que se destina a apaziguar as “famílias” que, cada vez mais, são obrigadas a trabalhar em condições mais precárias e vulneráveis. Que não podem faltar, sob pena de perda do posto de trabalho no final do contrato. Que são obrigadas a cumprir horários incompatíveis com uma vida familiar harmoniosa. Numa altura em que, cada vez mais, as famílias são menos do que nucleares.

A Escola a Tempo Inteiro é um óptimo contributo para todos os empresários e empregadores que defendem a desregulação – pelo abuso – do horário de trabalho dos seus empregados. Se é isso que vai desenvolver o país? Abrindo mais umas dezenas de centros comerciais para as “famílias” tentarem desaguar as frustrações ao fim de semana?

Quem defende as “famílias” deveria defender, em coerência com os seus princípios, que o Estado protegesse a vida das ditas “famílias” a partir da melhoria das suas condições de vida. A defesa da Escola a Tempo Inteiro é a admissão de um fracasso, de uma derrota e não o seu contrário.

Eu, por exemplo, preferia viver num país com horários de trabalho que permitissem que os encarregados de educação dos meus alunos pudessem comparecer na escola num horário de atendimento civilizado e não em reuniões pós-laborais para todos. Gostaria de eu próprio não depender da Escola a Tempo Inteiro se o pudesse evitar.

Mas não. O Portugal Socrático, moderno e tecnológico, é um país falhado, com uma sociedade fragmentada e crescentemente fracturada e desigual. E o projecto democrático europeu dos últimos 20 anos – desde a adesão à CEE que trouxe fundos em forma de chuva grossa e os trará até 2013 – foi um projecto que falhou em tornar um país mais coeso, mais solidário, mais avançado em termos de conquistas sociais, só possíveis se o resto tivesse funcionado. Mas não funcionou. Ou funcionou apenas para alguns. Que são os que têm acesso a uma voz pública em nome do seu sucesso. E que depois palpitam sobre o tudo e o nada, sobre o que conhecem e desconhecem. Que têm serviçais para tratar das coisas chatas como ir buscar os “putos” à escola. Que só fazem por desfastio, em muitos casos.

As “famílias” comuns, essas, na sua grande maioria, podem olhar para a Escola a Tempo Inteiro como uma válvula de escape, uma almofada que amortece um maior choque da sua vulnerabilidade, mas é apenas isso mesmo, um estratagema para tornar um pouco mais suportável o que deveria ser visto como insuportável e intolerável.

A Escola a Tempo Inteiro é um projecto de sucesso se assumirmos que entre nós o Estado Social falhou irremediavelmente.

A Família a Tempo Inteiro, isso sim, teria sido uma enorme conquista e a marca do sucesso de um Portugal desenvolvido.

Publicada em O Distrito de Portalegre e chegada por mail, via Sofia L.

Às escolas de hoje, às públicas claro, exige-se tudo: – Que se ensine, que se eduque, que se acompanhem alunos, que se giram diferenças, que se encontrem estratégias para combater desinteresse, insucesso, consumos de drogas, consumo de tabaco, sinais de esquizofrenia, problemas familiares, práticas sexuais de risco, etc.

 

Escolhi ser professora de forma livre, consciente, apaixonada. Sonhava, desde miúda, com livros cheios de mistérios para desvendar, olhares curiosos, inter-actividade e ambientes constantemente renovados. No início da minha carreira, há mais de vinte anos! Cada novo ano vestia-se de curiosa ansiedade. Fazia planos, idealizava actividades, projectava tarefas, concretizava climas de aprendizagem e, embora trabalhasse muito, sentia-me gratificada pelo meu desempenho. Lembro ainda os alunos, tantos! Sei-lhes o olhar, ainda que tenha esquecido os nomes. No meu ano de estágio, senti-me realizada profissionalmente! O que eu aprendi! Como era fantástico, ao fim da tarde, juntarmo-nos para, em grupo de trabalho, analisarmos práticas, reformularmos, partilharmos ideias sob a orientação sábia mas muito amiga das Dr.ª. Graciete Leitão e Leonor Ferreira. Não nos reuníamos para nos lamentarmos, para nos agredirmos, para temermos a avaliação. Não! Eram momentos de efectiva partilha e aprendizagem. Então, era bom ser professora. Era, para mim, na época a viver um momento pessoal muito difícil, um privilégio poder ser professora.
Os tempos correram, depressa demais para o meu gosto, e, hoje, olho com profunda tristeza o meu quotidiano profissional.
Não pretendo que ninguém tenha pena de mim, quem tem pena é galinha e eu até detesto penosas! Mas apetece-me partilhar angústias e este é o espaço onde, por enquanto, a minha essência pode correr livre de pressões ou receios.
Hoje, ser professor é ser-se humilhado, agredido, menosprezado quase diariamente. A ministra da educação, a sua equipa, o próprio primeiro-ministro, têm revelado total desprezo pelos professores, e têm conseguido virar a opinião pública contra aqueles que são as peças fundamentais da construção de um país. Para se ser um bom professor, não tenho dúvidas, é preciso, para além de uma consistente formação científica de base, ter-se autoridade, autonomia e respeito. Nada disto Portugal dá aos professores! Hoje, neste Portugal que nos escurece a visão agitando a bandeira europeia, as escolas, as públicas, são, frequentemente, o depósito de miúdos a quem os professores devem ensinar. Estes miúdos não são mais, como há 40 anos, gente que reconhece o valor do saber, gente que reconhece a autoridade do adulto. Muitas vezes, são apenas miúdos que cresceram com a televisão como referência, sozinhos com o computador, sem hábitos de trabalho ou sequer sem regras mínimas de socialização. A estes miúdos, diz a televisão (e por vezes os pais) que a escola é uma porcaria e o professor, ou professores, um funcionário pago para os aturar. Aos professores de hoje, dá-se um horário cheio de tempos de coisa nenhuma, camuflados por siglas pomposas, para lhes lembrar que são funcionários públicos e, por isso apenas, devem permanecer no local de trabalho um x número de horas por semana. A estes mesmos professores, exige-se que cumpram programas que, frequentemente, são excessivamente teóricos, obsoletos e longos. A estes mesmos professores, que por acaso até são pessoas também e têm vida particular, exige-se que mudem todos os anos de quarto alugado, que abandonem filhos e família, que façam quilómetros sem fim para, apenas, não perderem o emprego. Aos mesmos professores, retira-se a autoridade conferindo, aos alunos, o poder de fazerem o que mais lhe apetecer. Pede-se aos professores que registem, de preferência diariamente, as faltas dos alunos, que as enviem aos pais para que… as mesmas possam ser justificadas! A estes professores chama-se medíocres e nabos quando, ao publicarem-se os rankings, se mostra que as escolas privadas são melhores do que as públicas!
Portugal é um país que não merece os professores que tem.
Com certeza haverá maus professores. Há maus profissionais em todas as áreas. Mas não são, de certeza, a maioria. A maioria dos professores portugueses devia ser condecorada pela resistência, pela capacidade de sobrevivência, pela Arte de constante renovação da esperança. Às escolas de hoje, às públicas claro, exige-se tudo: – Que se ensine, que se eduque, que se acompanhem alunos, que se giram diferenças, que se encontrem estratégias para combater desinteresse, insucesso, consumos de drogas, consumo de tabaco, sinais de esquizofrenia, problemas familiares, práticas sexuais de risco, etc. Nas escolas de hoje há clubes de saúde, clubes europeus, clubes de solidariedade, clubes de alimentação, clubes de ciência, clubes de tudo aquilo que se possa imaginar porque, na escola de hoje, cabe tudo! Só começa a não haver espaço para se ser professor…

 

opinião in “O Distrito de Portalegre” | Maria Luísa Moreira